Veja, 23-04-2008
Internacional
Com Berlusconi e sem comunistas
Este é o saldo das eleições na Itália:
uma reprise,
sim, mas com uma enorme e boa novidade
Mario Sabino
Silvio Berlusconi não é racista, não é maluco,
não é fascista – apesar dos gestos à la Mussolini
que fazem a alegria de fotógrafos. Ele é apenas inadequado
para ocupar o cargo de primeiro-ministro da Itália, para o qual foi
eleito pela terceira vez na semana passada. O diagnóstico do colunista
Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica, ecoa o pensamento da
maioria dos observadores europeus da cena italiana. Berlusconi é
inadequado menos pela incontinência verbal e teatralidade de programa
de auditório, e mais pelo que faz em causa própria e não
faz em causa pública. Um dos empresários mais ricos da Europa,
soberano de um império televisivo e editorial, ele entrou na política
no início da década de 90, com o objetivo precípuo
de acuar o Judiciário e modificar as leis que embasavam os processos
por corrupção e fraude que o tinham como réu. Nos últimos
quinze anos, dentro e fora do Palazzo Chigi, sede romana da Presidência
do Conselho de Ministros, o hoje septuagenário Berlusconi (71) não
se descuidou de três coisas: da pintura do cabelo de uma cor que desafia
as leis da óptica, dos liftings e da manutenção na
sua alça de mira dos promotores e juízes que tentam acuá-lo.
Na última campanha eleitoral, disse que, como primeiro-ministro,
instituiria um teste de sanidade mental, obrigatório e periódico,
para os integrantes da Justiça. Maluquice? Não, por baixo
do acaju inexistente na natureza existe um cérebro – se não
maquiavélico, calculista o suficiente em causa própria.
Naquele assunto ligeiramente secundário chamado causa pública,
o segundo governo de Berlusconi, de 2001 a 2006, deixou as contas do estado
italiano mais arruinadas do que as Termas de Caracalla. Coube a seu sucessor
de centro-esquerda, Romano Prodi, cuja personalidade magnética lhe
angariou o apelido de "Mortadella", impor sacrifícios,
colocar a casa em ordem e, claro, bater recordes de impopularidade –
para, agora, devolver o poder a Berlusconi, que obteve uma vitória
incontrastável. Será o terceiro governo do Cavaliere uma repetição
do primeiro (que durou de maio a dezembro de 1994) e do segundo –
de muita falação em prol da modernização das
instituições e nenhum resultado? Tudo o que se pode dizer
é que ele perdeu o seu maior bode expiatório para justificar
a ausência de reformas: a esquerda radical. Desse modo, talvez agora
se sinta obrigado a arregaçar as mangas.
A volta de Berlusconi parece reprise, mas a verdade é que as eleições
na península trouxeram uma enorme e boa novidade – o fim do
comunismo na Itália. Pela primeira vez, desde a derrocada do fascismo,
os vermelhos não conseguiram ser representados na Câmara e
no Senado. Menos de 4% dos eleitores deram-lhes votos. O addio a Lenin é
um fato histórico digno de nota, quando se leva em conta que a Itália
era o país mais bolchevique do Ocidente, com um eleitorado que, em
meados dos anos 70, chegou perto de colocar o Partido Comunista no poder.
Nesse período, sob a batuta do secretário-geral Enrico Berlinguer,
o PCI enchia as praças das grandes cidades e, assanhado, permitia-se
um distanciamento de Moscou, com a criação de conceitos esdrúxulos,
como o "eurocomunismo" – que pregava uma terceira via, nem
capitalista, nem soviética, muito pelo contrário. Se você
não entendeu, não se preocupe. Ninguém entendeu.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, o PCI foi se metamorfoseando, até
chegar à encarnação atual, o Partido Democrático,
um partido de centro com leve verniz social-democrata. Liderado por Walter
Veltroni, o jovem (para padrões italianos) ex-prefeito de Roma, o
PD lançou-se às urnas contra o Povo da Liberdade, de Berlusconi,
sem entrar em coalizão com os nostálgicos do comunismo e sua
chusma de incompetentes e corporativistas. Perdeu as eleições,
mas se tornou a única oposição digna de nota ao PdL.
Aí está outra novidade na Itália: a constituição,
na prática, de um sistema bipartidário, que jogou no lixo,
além dos comunas autênticos, siglas à esquerda e à
direita. A bagunça no Parlamento ficou, assim, mais bem organizada.
A única nota dissonante é a Liga Norte, um partido surgido
na década de 90 com a singela proposta de livrar o norte da Itália
do "jugo de Roma", de lançar os imigrantes ao mar e declarar
sua independência, sob o nome de República da Padânia.
Seus rituais, que incluem coreografias com desmiolados vestidos de cavaleiros
medievais, são uma piada. Seu líder, Umberto Bossi, assemelha-se
ao doutor Strangelove do diretor Stanley Kubrick. A Liga, aliada a Berlusconi,
saiu fortalecida das urnas e o temor é de que ela, a despeito da
limpeza no panorama partidário, reafirme aquele ditado atribuído
a Mussolini segundo o qual governar a Itália não é
impossível – é inútil. Vediamo.