Pitacos: política brasileira em foco
   Não foi Iansã

 

Espertamente, o governo Lula tentou culpar Iansã, a Deusa pagã dos relâmpagos e dos raios, pelo apagão que prejudicou 60 milhões de brasileiros e deixou 18 estados nas trevas. Entende-se a manobra do governo. Não dava, desta vez, para dizer que a pane elétrica foi uma conspiração tucana. Em sendo assim, a saída para Lula foi culpar a mãe Natureza para safar a cara de seu governo.

 

Lula e sua equipe só faltaram combinar sua versão com os russos. Ou melhor com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE – órgão vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, que realiza pesquisas espaciais e que goza de credibilidade internacional. O próprio governo utiliza suas pesquisas sobre clima, desmatamento na Amazônia e outros fenômenos para definir suas políticas. Ou seja, o INPE é uma instituição de Estado altamente respeitada por cientistas e técnicos, em escala planetária.

 

Para tristeza de Lula, o INPE veio a público para provar que Iansã não teve culpa nenhuma. Nem ela, nem São Pedro e muito menos a natureza. Segundo o Instituto, a versão do governo de que o apagão teve como causa a intensa queda de raios na região da subestação de Itaberá não se sustenta em pé.

 


O monitoramento via satélite do INPE comprovou que os raios que caíram em Itaberá foram de 10 a 15 mil amperes, uma intensidade considerada baixa e sem potência para provocar um curto-circuito na rede de transmissão. Segundo o instituto, para que a queda de raios em Itaberá fosse a causa do apagão, seria necessário que eles tivessem 80 mil amperes. Ou seja, eles foram de uma intensidade cinco vezes menor!

 

E para desmontar de vez a mentira oficial, o mapeamento feito pelo INPE – via satélite – prova por a mais b que não caiu um só raio na rede de Itaberá. O mais próximo caiu a uma distância de dois quilômetros das linhas de transmissão. E mais, segundo o Instituto, se fosse verdade a versão oficial, isto seria a prova de que teríamos um sistema altamente fragilizado. Isto seria a prova de que os para-raios que existem ao longo de toda a rede não servem para nada. A versão oficial só alimenta a especulação de que, de fato, o sistema elétrico brasileiro estaria, literalmente sujeito a chuvas e trovoadas.

 

Como disse Lula uma vez, o problema da mentira é que ela exige outra mentira, logo que a inicial é desmentida pelos fatos. Este é o caminho que o governo está trilhando para evitar que apareçam as deficiências de falta de investimentos em inteligência de gestão, segurança do sistema e manutenção, que constituem o pano de fundo do último apagão.

 

A mais nova mentira do governo é dizer que o “apagão é um episódio superado”, como atestaram os ministros Edison Lobão e Dilma Roussef. Finalmente a ungida de Lula resolveu dar o ar de sua graça. após ter tomado um chá de sumiço por ordem de Lula. E voltou no melhor estilo Rolando Lero, ao dizer que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou melhor, quando é dos outros, a pane energética chama-se apagão. Quando é do governo Lula, deve ser chamado de “blackout”.

 

Caso estivéssemos diante de estadistas em Brasília, o governo transparente apresentaria as deficiências, assumidas e explicadas, e também apontaria os investimentos para dotar o país de uma rede de energia elétrica suficiente para suportar o crescimento e segura para garanti-lo. Poria a cara a bater. A menos que a situação fosse escabrosa, a população entenderia e reservaria para si o sagrado direito da insatisfação. Seria pedir demais em um regime democrático?

 

É bom o governo ter em mente que a mentira tem pernas curtas e que novos apagões podem ocorrer e derrubar por terra sua versão triunfalista de que nosso sistema está entre os melhores do mundo e que nunca “neste país” ninguém investiu tanto em energia como o governo Lula.

 

Se o Planalto continuar com esta mania de culpar a natureza, Iansã pode ficar furibunda. Que os orixás nos protejam!



Escrito por pitacos às 11h39
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   “Oposição golpista”

 

Segundo o portal UOL, Lula concedeu uma entrevista ao jornalista Kenedy Alencar, no programa “É notícia”, da Rede TV, que irá ao ar no próximo domingo.

 

São várias as questões relevantes que devem ser comentadas. Afinal, o Presidente marca-se por ser uma metralhadora giratória. De início, a questão mais importante é a declaração do Presidente sobre o mensalão.

 

Não dá mais para Lula dizer que ele não existiu, depois que o STF aceitou julgá-lo, depois do vasto trabalho do jornalismo investigativo e das denúncias da oposição.

 

Também não dá mais para sustentar aquela conversa de que todo mundo tem caixa dois e sobras de campanha e trabalha com “recursos não contabilizados”.

 

A “teoria” agora é outra. Quem “armou” o mensalão foi, nada mais, nada menos, a oposição. Isso mesmo. A oposição queria seu impeachment e numa tentativa de golpe, concebeu e pôs em prática o mensalão.

 


Seria engraçado e motivo de piadas, se não fosse uma estratégia eleitoral, com alvo e benefício precisos.

 

A ungida, Dilma Roussef, terá de se deparar com o mensalão, na campanha eleitoral, agora com o fato novo do julgamento no Supremo e do voto contundente, pela aceitação das denúncias, do ministro Joaquim Barbosa.

 

Lula já adiantou o discurso. Foi golpe da oposição. O jogo é para a geral, os inorganizados. Importa muito pouco sua veracidade, mas a conservação da popularidade do imperador e a votação da ungida.

 

Lula adquiriu passaporte para dizer o que quer e também para desdizer o que quiser, apenas horas depois. Não será surpresa se essa “teoria” pegar mal, a roda gire imediatamente. Talvez os raios e trovoadas sejam responsabilizados pelo mensalão, sem pejo.

 

A acusação de Lula é genérica e contém fragilidades que podem e devem ser atacadas. Cabe à oposição utilizar os expedientes legais para encurralar, dentro do possível, o Presidente. Ele tem de confirmar as declarações, nominar os golpistas e suas práticas e arcar com as consequências legais possíveis.

 

A resposta, política e também no território jurídico, deve fazer parte da estratégia oposicionista de não deixar nada sem resposta e apostar em um futuro que já está muito próximo.



Escrito por pitacos às 10h59
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   Extermínio



O Ex-blog de César Maia, desta sexta-feira, 13.11.2009, traz a nota abaixo, sobre um filme inacabado que seria produzido em 1945, pelo departamento de propaganda do exército britânico. O assunto é o extermínio de judeus, pelos nazistas. Na época, os aliados ainda não tinham consciência da SOLUÇÃO FINAL, de sua dimensão.

 

O filme está na internet, após praticamente 45 anos de sua edição básica.

 

Os judeus são vitimados duplamente. Pelo holocausto e por sua negação, por parte de uns poucos, cuja intenção está muito próxima da tentativa de dourar a pílula das bestas-feras nazistas.

 

 

“IMPRESSIONANTE DOCUMENTÁRIO DE ALFRED HITCHCOCK SOBRE CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NAZISTAS!


(tecobel) 1. Londres e Washington perceberam que teriam um problema perante a história: alguém, no futuro, tentaria negar que aquilo acontecera. A extensão da crueldade era tamanha - no número de vítimas e no ponto ao qual os nazistas levaram os sobreviventes - que  nada parecia, de fato, muito crível. Decidiram produzir um filme. Em Londres, coletaram as cenas filmadas pelas tropas ocidentais nos campos e as puseram nas mãos de Sidney Bernstein, diretor do departamento de propaganda do exército britânico.
                  
2. Quando Bernstein começou a produzir o filme, em maio de 1945, os Aliados ainda não tinham total noção do plano de Solução Final para o problema judaico de Adolf Hitler. Conheciam a crueldade, sabiam do genocídio, mas não tinham ainda levantado todos os documentos que provavam a intenção de eliminar uma etnia.  Revisando as imagens que chegavam do continente, o cineasta da propaganda britânica percebeu que o trabalho talvez exigisse mãos mais hábeis que as suas.

                  
3. Lembrou de um amigo dali mesmo de Londres, que durante a Guerra achou por bem se radicar nos EUA. Alfred Hitchcock. Os dois jamais terminaram o filme, batizado "Memória dos Campos", também lembrado como o 'documentário de Hitchcock sobre o Holocausto'. Hitchcock serviu como consultor no processo e orientou a edição. Se preocupou em inserir a maior  quantidade possível de planos gerais. Temia que, só mostrando as pessoas de perto, alguém achasse que havia sido montagem.

                

4. Os planos gerais davam mostras das inacreditáveis montanhas de corpos esqueléticos, nus. Pois é que não há nudez escondida neste filme - nudez de gente viva e de gente morta, seios, sexos à mostra, em corpos cujos rostos por vezes lembram caveiras cobertas por um fino tecido. É um documentário cru, violento, muitas vezes difícil de ver. Os EUA logo abandonaram aquela que deveria ser uma co-produção entre eles e Inglaterra.

                
5. Alguém, ao ver as primeiras imagens montadas por Hitchcock e Bernstein também decidiu arquivar o projeto. Era duro demais. O mundo não estava preparado para ser exposto a estas imagens de terror. O 'documentário de Hitchcock sobre o Holocausto' terminou esquecido. Em 1985, a rede pública de tevê norte-americana PBS comprou do governo britânico a única cópia conhecida dos originais. As imagens, já editadas, não tinham som. Mas havia um roteiro que a equipe de Bernstein escrevera e texto para narração que acompanhava as imagens. Convidaram o ator Trevor Howard para colocar voz no filme. E o exibiram. Agora está na Internet.

 
Veja em:

 

http://video.google.com/videoplay?docid=-6076323184217355958&hl=en

 

Ou clique aqui.”



Escrito por pitacos às 09h51
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   Apagão: falta de transparência, incompetência, ou ambos

O blackout de largas proporções, em dez estados, atingindo cinquenta milhões de pessoas, não tem causa ou indícios conhecidos, na visão do Ministro das Minas e Energias, Edison Lobão e das demais autoridades do sistema elétrico. Pelo menos até a manhã desta quarta-feira. O sistema foi restabelecido por obra e graça do Divino Espírito Santo, superando o que quer que o tenha derrubado?

 

Numa entrevista nesta manhã de quarta-feira, a uma emissora de rádio paulista, Lobão disse que nenhuma hipótese pode ser afastada, quando perguntado se hackers poderiam ter invadido o sistema. O jornalista, talvez envergonhado, não perguntou sobre a hipótese de naves interplanetárias terem causado impedância no sistema elétrico.

 

Não é crível que as autoridades da área não tenham sabido, quase imediatamente, onde estavam os problemas e terem indícios de suas causas. Afinal, todo o sistema trabalha debaixo de vasta rede de computadores, de grande porte, sob softwares complexos, que apontam deficiências e soluções em tempo real.

 

Em um primeiro momento, o recomendável seria a boca calada. “Ainda não temos certeza do que aconteceu, mas estamos fazendo o possível e o impossível para reestabelecer a energia elétrica no menor prazo possível”. “O prazo é de poucas horas”. Prudência, nessas horas, não faria mal a ninguém e seria compreendida.

 


No entanto, as autoridades divulgaram, ou permitiram a divulgação, de notícias desencontradas. Ora seria Itaipu, ora Furnas, ora a atmosfera.

 

Em um segundo momento, cabe a apuração. Qual foi a falha, ou, quais foram as falhas? Por que aconteceram? O que é necessário para evitar a repetição?

 

De fato, o que se evidencia é algo muito perigoso para o Planalto e para sua ungida.

 

Dilma Sele Pena, Secretária de Saneamento de  de São Paulo, saiu a campo. Em entrevistas a vários órgãos de imprensa, disse ser inaceitável que o restabelecimento da energia leve horas, a não ser se estações intermediárias apresentarem insuficiências importantes. Apontou carências de gestão e investimentos no setor.

 

O governo alega que não há crise na geração de energia elétrica. É fato, isso se deve principalmente à natureza e as fartas águas com que ela brindou os reservatórios. Nesses últimos anos, instalou-se um sistema alternativo de usinas térmicas, processo iniciado no último governo de FHC. A ampliação propriamente dita do parque hidroelétrico - a grande matriz energética do país -  só produzirá efeitos no meio da década seguinte.

 

O apagão dessa terça-feira trará à tona a insuficiência ao longo desses últimos anos de investimentos públicos na gestão do sistema elétrico em sua rede física, em termos de redundância de rotas de transmissão, de duplicação de vias de distribuição e do aparato de religação ao longo da rede. Leia-se, gestão.

 

 Mesmo  se a pane tiver acontecido devido  a "condições climáticas adversas - quedas de raios que atingiram redes de transmissão -  a extensão do blecaute e seu tempo de duração só atestama vulnerabilidade do sistema e evidenciam a necessidade de investimentos para reduzir tal  vulnerabilidade ao máximo. Afinal de contas, raios e tempestades são uma constante na região sudeste, nesta época do ano.

 

O governo tem de se explicar. A ungida foi a responsável pela condução do setor elétrico no governo lulo-petista. O previsível é que ela viaje para alhures, com o objetivo de fiscalizar a inauguração de algum chafariz.

 

A atitude de Lula dificilmente será diferente do padrão que tem adotado ao longo de seus dois governos. Nada de chamar a si a responsabilidade. Nada de colocar os dedos na ferida e de indicar soluções.

 

Pode ser sintomática sua atitude nesta manhã de quarta-feira. Teria uma reunião com o ministro Lobão. Faltou agenda, explicou sua assessoria. O encontro foi jogado para a noite.

 

É provável que Lula precise de mais informações e caminhos para resolver as deficiências. Daí o adiamento. Ou quer transmitir o sentimento de que não existe crise alguma, nenhum problema grave e que, com a maior tranquilidade dos céus de brigadeiro, a questão seja tratada como de rotina. A conferir.

 

Do outro lado, a oposição tem a obrigação de interpelar a Presidência, o Ministro, a ungida e demais autoridades da área. E a seguir apontar responsáveis e soluções. É seu papel, em nome do país. 



Escrito por pitacos às 11h03
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   EEUU, a reforma do sistema de saúde

 

 

Pitacos questionou uma de suas leitoras, Tatiana Martins, advogada americana, sobre a batalha da reforma do sistema de saúde, um dos pontos centrais das campanhas nas primárias de Barack Obama e Hillary Clinton e, uma vez vitorioso, uma questão de honra do novo Presidente.

 

Tatiana Martins nos enviou o texto abaixo, esclarecedor e ao mesmo excludente em relação aos imigrantes ilegais, ainda não totalmente definido sobre seu financiamento e que retroage na questão do aborto.

 

 

EEUU, a reforma do sistema de saúde

 

 

No sábado, dia 7 de novembro, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou um projeto de reforma de saúde, por uma votação de 220 a 215. Só um Republicano votou a favor da lei. 39 Democratas votaram contra. A maioria dos Democratas que votaram contra é de distritos conservadores e enfrentam a reeleição em 2010. A aprovação pela Câmara foi vista como uma grande vitória para Obama, que fez da reforma do sistema de saúde uma das promessas centrais de sua campanha.


A legislação proposta pela Câmara:


(1) Exige que os empregadores com uma folha de pagamento de mais de US $ 500.000 proporcionassem aos seus empregados a cobertura de saúde (atualmente, não é obrigatório), ou pagar uma multa de imposto de até 8% por cento de sua folha de pagamento. As pequenas empresas - aquelas com 10 ou menos trabalhadores - obteriam créditos fiscais para ajudá-los a dar cobertura aos seus empregados.


(2) Exige que indivíduos obtivessem seguro de saúde, ou que pagassem uma taxa de penalização de 2,5% de sua renda anual.


(3) Estabelece um plano de seguro "público" para competir com os convênios privados. 

(4) Oferece subsídios para ajudar aquelas pessoas de rendimento baixo a comprar o seguro de empresas privadas ou do plano do governo.


(5) Proíbe a prática das companhias de seguro de não aceitar pessoas com problemas de saúde pré-existentes ou de cortar o plano de pessoas com doenças graves.



(6) Bloqueia cobertura para o aborto em qualquer plano de seguro que receba dinheiro federal, salvo nos casos de estupro, incesto ou se a vida da gestante estiver em perigo. Esta medida foi adotada como resultado de um intenso lobby por parte da Igreja Católica e de Democratas conservadores, mas Obama já pediu que a emenda seja revista. Alguns Democratas prometeram remover essa restrição na versão final do projeto.


(7) O plano não se aplica a imigrantes ilegais, um dos principais segmentos da população americana que não tem seguro.


O plano aprovado pela Câmara custará 1,1 trilhão de dólares em 10 anos. Democratas dizem que a legislação passada pela Câmara estenderia a cobertura a 36 milhões de americanos que hoje não tem seguro de saúde.


A luta agora vai para o Senado, que está debatendo sua própria versão da lei de reforma. Se o Senado aprovar a lei, a liderança da Câmara e do Senado começarão o difícil processo de reconciliação das duas leis, para produzir uma lei unificada para a assinatura do presidente.


As propostas da Câmara e do Senado são diferentes, pelo menos, nos seguintes pontos:


(1) Como funcionará o novo plano de saúde público. Diferentemente do projeto da Câmara, o Senado deixaria os estados optarem por sair do plano.  Existe também outra proposta no Senado, que não criaria o plano público até que fique claro que os estados de fato estão sem concorrência entre empresas privadas do segmento da saúde.


(2) A exigência aos empregadores para dar cobertura aos empregados. O plano do Senado não exige que os empregadores oferecessem seguro, mas empresas com mais de 50 trabalhadores. Eles teriam que pagar uma taxa de 750 dólares multiplicado pelo número de empregados, caso o governo acabe tendo que subsidiar a cobertura dos trabalhadores.


(3) O tamanho da multa sobre indivíduos por não comprarem o seguro. O projeto do Senado também exige que indivíduos e famílias comprem o seguro público, a não ser que o custo seja superior a 8%o de sua renda. Aqueles que são obrigados a comprar a cobertura, e se recusarem a fazê-lo, enfrentarão uma multa de 100 dólares no primeiro ano do programa.  A multa aumentará ao longo do tempo.


(4) Se a legislação deveria ser financiada com um imposto sobre pessoas de alta renda ou com um imposto sobre os planos de seguro de alto custo. A versão da Câmara acrescenta uma sobretaxa sobre casais que ganham mais de US$ 1 milhão por ano, enquanto o Senado cobra um imposto só sobre os planos mais generosos, os chamados planos de benefícios "Cadillac".


(5) O nível do limite de cobertura do aborto. A legislação atual da Câmara contém limitações mais estritas sobre os abortos eletivos, aqueles que acontecem por opção da mãe. 


(6) Se a legislação proibir os imigrantes ilegais ter acesso a um novo "supermercado" de seguros, estabelece-se uma maneira proporcionada pelo governo para facilitar negociações entre pessoas e companhias de seguro (privadas e a do governo), para obter preços de seguro com descontos de grupo.


Vários senadores Republicanos moderados, de cujo apoio depende a Casa Branca, manifestaram reservas quanto à atual versão do projeto. Dizem que iria aumentar os custos mensais de seguro para as pessoas com seguro privado. Além disso, alguns senadores e comentaristas dizem que as leis propostas pela Câmara e o Senado não tomaram medidas suficientemente fortes para reformar os custos do sistema atual de seguro, que aumenta os custos de saúde nos Estados Unidos devido ao sistema de pagamento a médicos e hospitais por cada visita ou procedimento realizado.

 

Ambas as propostas representam um passo importante na reforma do sistema de saúde dos EEUU.

 

No país mais rico do planeta, dezenas de milhões de seus cidadãos não se aparam num direito tão básico, como ter um plano de saúde público.

 

No entanto, antes de poder jugar o impacto da reforma, falta ver qual será a versão final da lei.

 

Na minha opinião, na legislação proposta pelo Senado faltam algumas medidas importantes, se comparadas com as propostas da Câmara, que representam uma tentativa mais ampla e justa de reformar o sistema de saúde dos EEUU. Por exemplo, um plano de saúde público universal é um aspecto fundamental da proposta da Câmara para reduzir os custos de seguro, por colocar o peso dos recursos governamentais por trás das negociações de preços com os hospitais e médicos.

 

O Senado deve adotar uma medida similar. Entretanto, as duas versões da legislação de reforma contêm propostas que mantêm muitos americanos sem seguro de saúde. Os imigrantes ilegais, por exemplo, continuarão fora do sistema de seguro.

 

Além disso, restrições ao aborto podem alimentar alguns planos privados, muitos dos quais já oferecem alguma cobertura para abortos eletivos, para cobrir as restrições das verbas federais.

 

Minha esperança é que a liderança do Senado e da Câmara corrijam algumas dessas falhas antes de enviar a proposta de lei para a Casa Branca.

 

De qualquer maneira, registre-se que na história americana nenhum Presidente ou nenhuma legislatura do Congresso chegaram tão perto da realização de uma reforma do sistema de saúde dessas proporções e implicações.

 

Barack Obama está dizendo a que veio.

 

 

Tatiana Martins, de Barcelona, Espanha.



Escrito por pitacos às 09h26
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   Muro de Berlim

 

Vinte anos da queda do muro de Berlim:

 

Fim de uma era

 

O muro de Berlim é parte de uma história, que começou lá atrás, bem antes de sua queda. Tornou-se lugar-comum dizer  que sua queda representou um fim de uma era, na qual o mundo estava dividido em dois blocos antagônicos, cujo contencioso nos deixou, por décadas, sob o risco de um holocausto nuclear.

 

É verdade que o Muro de Berlim virou o símbolo da ausência de liberdade no chamado “socialismo real” e que, se levados em consideração apenas os valores, sua existência era indefensável. Como defender, do ponto de vistas dos princípios, a divisão de um mesmo povo e de um mesmo país por um muro? Mas seria ingenuidade, ou má-fé, acreditar que na guerra-fria em curso o bloco soviético era a expressão do mal e o capitalismo ocidental a incorporação do ideário da liberdade.

 

A divisão da Alemanha – como o surgimento de um bloco soviético na Europa Oriental – tem muito a ver com o desfecho da segunda guerra mundial, na qual a então União Soviética perdeu 20 milhões de vidas e saiu dela como uma grande potência militar, por ter dado a principal contribuição para o fim do nazismo e a queda de Hitler.

 

A Conferência de Yalta, da qual participam os três grandes aliados – Stalin, Churchill e Roosevelt - reconhece o novo papel da União Soviética no tabuleiro mundial e aceita a divisão da Europa em duas áreas de influência: a parte da europa oriental, quase toda ela libertada pelo Exército Vermelho, ficaria sob a influência do regime de Stalin, e o resto da Europa sob as asas das potências capitalistas, sobretudo os Estados Unidos. É verdade que Churchill desde o início quis torpedear o que tinha sido pactuado e que a morte de Roosevelt levou ao endurecimento, porque em seu lugar assumiu o ultraconservador e anticomunista Trumam.

 


No leste europeu, o socialismo não foi produto de movimentos internos, mas sim dos avanços do exército soviético, que chegou até Berlim e libertou a capital alemã. O que ele deveria ter feito? Passar o poder da parte da Alemanha sob sua área de influência para os antigos nazistas? Stalin era tudo, menos burro. E claro que montou aí um regime à imagem e semelhança do modelo soviético.

 

Ao longo dos anos vamos assistir à intensificação da guerra fria, cada lado tentando desestabilizar o outro. O Muro de Berlim surge neste contexto e, por ironia do destino, como uma iniciativa de Kruschev, que assumiu o poder para promover a desestalinização e arejar o socialismo.

 

Cinco anos antes o sucessor de Stalin já tinha deixado claro que haveria limites nos ventos renovadores e que seria inaceitável qualquer mudança que jogasse por terra a divisão de áreas de influência ditada pela Conferência de Yalta. É isto que leva os tanques soviéticos a reprimir o levante da Hungria de 1956, que espertamente as potências do capitalismo ocidental tentaram vender como uma “revolução libertária”. A Hungria foi durante toda a guerra forte aliado de Hitler. O nazismo tinha uma forte base de apoio no país húngaro. Algumas das forças sublevadas em 1956 tentavam, na verdade, uma volta ao passado de que a humanidade havia se libertou com o resultado da segunda guerra. Aqui não justificamos a ditadura pró-soviética instalada na Hungria, nem as práticas dela decorrentes, mas apenas buscamos restituir a verdade história e dar nome aos bois.

 

No caso da Alemanha Oriental, foi implantado o regime mais duro do bloco soviético, até pela sua situação geopolítica. Mas não apenas por isto. As lideranças comunistas alemãs que sobreviveram à segunda guerra eram stalinistas de quatro costados: William Peck, Walter Ulbrith e Honecker. Mais do que isto, desde o final da década de 20, Stalin patrocinou o “saneamento” do Partido Comunista da Alemanha, dizimando lideranças de pensamento próprio, que não concordavam com a visão de Stalin de que o principal inimigo era a socialdemocracia alemã e não o nazismo emergente.

 


Sobreviveu a fina flor do stalinismo e é ela que vai montar um regime policial, onde sua polícia política – a Stasi – controlava e bisbilhotava a vida de toda a população da Alemanha Oriental. É este partido que vai ter um papel importante na guerra fria e na espionagem internacional. A RDA era extremamente eficiente nesta tarefa. Basta dizer que o chefe do seu serviço secreto – Markus Wolff – era conhecido no mundo ocidental como o “Homem Sem Rosto”, porque a CIA e outros serviços de inteligência dos países capitalistas não conheciam sua identidade.

 

Este é o pano de fundo que levou à implantação do Muro de Berlim, já no início dos anos sessenta. Para que ele caísse seria necessária uma mudança do cenário, principalmente nos países socialistas. Ou seja, o que levou à queda do Muro de Berlim foi o esgotamento do modelo do “socialismo Real”, da economia centralizada que não conseguiu disseminar os meios de consumo para amplas camadas da população, nem gerar uma economia moderna e dinâmica, como causa e efeito, gerou um regime autoritário, baseado na ditadura do partido único.

 

Gorbatchev percebe o esgotamento deste modelo e dispara suas “Glanost” e “Perestroika”, como tentativa de reformar por dentro o “socialismo real”. Inegavelmente, o novo líder soviético deu uma grande contribuição à humanidade, ao criar as condições para o fim da guerra fria, o que deixou o mundo menos prisioneiro do holocausto nuclear.

 

Mas a sua grande contribuição foi criar o clima liberalizante que, de uma forma ou de outra, contaminou todos os países do bloco soviético. Sem Gorbatchev, a resposta da URSS à revolução dos chaveiros da Checoslováquia teria o mesmo tratamento que teve a “ primavera de Praga”. Teria sido esmagada pelos tanques. E sem ele, o Muro de Berlim não teria caído de forma pacífica. Sem a Glasnost e a Perestroika, provavelmente o fim do chamado “socialismo real” se daria de forma truculenta e sanguinária e demoraria muito mais tempo para acontecer.

 


Foi preciso a hecatombe do bloco soviético para vir à luz outra verdade: os movimentos contestadores do “socialismo real” só tiveram importância em um dado momento, mas nada acrescentaram em termos de apresentar um novo caminho para a humanidade e para a superação de suas mazelas. O Solidariedade de Lech Walessa perdeu substância, assim que chegou ao poder e o mesmo pode se dizer da revolução das chaves, da Checoslováquia. Em muitos dos países do antigo bloco soviético surgiram o “ nacionalismo” mais atrasado, e conflitos de ordem étnica e religiosa. Sob o comando de Boris Yeltsin - ao final um alcóolotra - a primeira pátria do socialismo fez uma conversão selvagem ao capitalismo, com grupos mafiosos dominando sua economia e a sociedade; até que Puttin pôs órdem na casa da forma que a Russia conheceu ao longo de sua história: pela via autoritária.

 

Claro que o fim do muro de Berlim abriu espaço para um novo mundo e confirmou que o grande valor que afirmou ao final do século vinte foi o da democracia como valor universal, como patamar necessário para a universalização das conquistas da humanidade.

 

O mundo dourado, glorificado quando do desmoronamento do socialismo real,  contudo, não apareceu. Mas isto já assunto para Gorbatchev e seu texto que publicamos na nota abaixo.



Escrito por pitacos às 10h24
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   Capitalismo precisa de sua perestroika

 


No aniversário da queda do muro de Berlim, pululam tipos e tipos de análises.

Existem aquelas que ignoram, não por acaso, os blocos que de fato estiveram em luta do início do Século XX ao Pós Segunda Guerra mundial. Fazem de conta que inexistiu o nazi-fascismo, a besta fera que ameaçou a civilização e foi derrotada pelo amplo leque de alianças que envolveu o que Gorbachev chama, corretamente, de socialismo burocrático, baseado em ideologia totalitária.

O muro de Berlim não pode ser compreendido fora do contexto do resultado da Segunda Guerra mundial, da derrota do nazi-facismo e da implantação, manu militari, de regimes pró e a moda soviética.

A derrocada do socialismo real, nas duas últimas décadas do século passado,  resultou da vitória dos modelos políticos e econômicos do capitalismo real.

Os vitoriosos, como coloca com precisão o ex-líder soviético, não conseguiram avançar fundamentalmente na resolução dos problemas que, lá trás, foram a base objetiva para o surgimento do regime soviético e de seus agregados e que, exarcebados pelo terrorismo, por conflitos étnicos e outros, continuam como sendo os desafios para a roda girar para a frente.


O artigo de Gorbachev salta além da discussão da queda do Muro de Berlim como consequência da inviabilidade da Alemanha Democrática e de resto, de todo o bloco soviético. Coloca a necessidade da reforma democrática do capitalismo.

Pitacos vê-se obrigado a replicar a matéria e a discuti-la. Continua no nosso DNA o sonho que Gorbachev descreve para sua geração, e para a nossa, que é “um mundo em que a humanidade poderia, enfim, esquecer o absurdo da corrida armamentista, conflitos regionais e disputas ideológicas estéreis, e entrar num século dourado com segurança coletiva, uso racional de recursos, fim da pobreza e da desigualdade.” Retiramos o adjetivo “dourado”.


Estadão, 8.11.2009,

Capitalismo precisa de sua perestroika

 

Mikhail Gorbachev (*)



Vinte anos se passaram desde a queda do Muro de Berlim, um dos símbolos vergonhosos da Guerra Fria e da divisão do mundo em esferas de influência antagônicas. Hoje, podemos revisitar esses acontecimentos de maneira menos emocional.


O anunciado "Fim da História" não se concretizou. Contudo, tampouco se concretizou o mundo em que muitos de minha geração acreditavam, um mundo em que a humanidade poderia, enfim, esquecer o absurdo da corrida armamentista, conflitos regionais e disputas ideológicas estéreis, e entrar num século dourado com segurança coletiva, uso racional de recursos, fim da pobreza e da desigualdade.


Outra consequência do fim da Guerra Fria é a realização de um dos postulados centrais do novo pensamento: a interdependência de elementos importantes que chegam ao coração da existência humana. Isso envolve não só processos e eventos em diferentes continentes, mas a conexão orgânica entre mudanças nas condições econômicas, tecnológicas, sociais, demográficas e culturais que determinam a existência diária de bilhões no planeta. A humanidade começou a se transformar em uma civilização única.


Naturalmente, nós políticos do século passado podemos nos orgulhar de termos evitado uma guerra nuclear. Mas, para milhões de pessoas, o mundo não se tornou mais seguro. Ao contrário, surgiram inúmeros conflitos locais e guerras étnicas e religiosas, como uma maldição no novo mapa-múndi da política, produzindo uma quantidade imensa de vítimas.


Prova da irracionalidade e irresponsabilidade da nova geração de políticos é o fato de que os gastos com defesa de numerosos países, grandes ou pequenos, é hoje maior que durante a Guerra Fria, e as táticas de uso da força são, de novo, a maneira padrão de lidar com disputas.


O mundo, nas últimas décadas, não se tornou um lugar mais justo: as disparidades entre ricos e pobres se mantiveram ou aumentaram, não só entre Norte e Sul, mas também dentro dos países desenvolvidos. Os problemas sociais na Rússia, assim como em outras nações pós-comunistas, são a prova de que o simples abandono do modelo fracassado de economia centralizada não garante a competitividade global e o respeito aos princípios de justiça social ou um padrão de vida digno para a população.


Novos desafios podem ser acrescidos aos do passado. Um deles é o terrorismo. Num contexto em que a guerra mundial já não é mais um instrumento de dissuasão entre as nações mais poderosas, o terrorismo se tornou a "bomba atômica do pobre". A proliferação de armas de destruição em massa, a competição entre os antigos adversários da Guerra Fria para alcançar novos níveis tecnológicos de produção de armas e a presença de novos pretendentes a um papel influente num mundo multipolar, tudo faz aumentar a sensação de caos na política global.


A crise de ideologias, que ameaça se transformar numa crise de ideais e valores, marca outra perda de pontos de referência sociais e fortalece a atmosfera de pessimismo político e niilismo. A verdadeira conquista que podemos celebrar é o fato de que o século 20 marcou o fim de ideologias totalitárias, em particular daquelas que se basearam em crenças utópicas.


Novas ideologias, porém, estão substituindo as velhas. Muitos agora esquecem que a queda do Muro não foi a causa de mudanças, mas a consequência de movimentos profundos de reforma popular. Após décadas do experimento bolchevista e a percepção de que este deixou a sociedade soviética num beco sem saída, um forte impulso pela reforma democrática evoluiu na forma da perestroika (reestruturação), que também se tornou acessível a países do Leste Europeu.


O capitalismo ocidental, contudo, privado de seu velho adversário e imaginando-se o vencedor inconteste e a encarnação do progresso global, corre o risco de conduzir a sociedade a outro beco sem saída histórico.


A crise econômica global de hoje revelou os defeitos do modelo de desenvolvimento ocidental que foi imposto ao restante do mundo como o único possível. Revelou também que não só o socialismo burocrático, mas também o capitalismo ultraliberal precisa de uma reforma democrática profunda - seu próprio tipo de perestroika.


Muitas verdades que já foram consideradas inquestionáveis, tanto no Oriente como no Ocidente, deixaram de ser verdades, incluindo a fé cega no todo poderoso mercado e, sobretudo, em sua natureza democrática. Havia também a fé de que o modelo ocidental de democracia seria disseminado mecanicamente para outras sociedades com experiências e tradições diferentes. Na situação atual, mesmo um conceito como o progresso social, que parece ser compartilhado por todos, precisa ser definido mais precisamente.


(*)Mikhail Gorbachev foi líder da União Soviética de 1985 a 1991



Escrito por pitacos às 09h32
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   Lula, FHC e a mitologia


Siaines, colaborador de Pitacos, continua a discussão da mitologia na Política, no artigo reproduzido abaixo, “Lula, FHC e a mitologia”, inicialmente publicado em 08.11.2009.

É interessante que o já famoso artigo “Para onde vamos”, de FHC, seja repercutido no por Sianes, em um de seus aspectos essenciais, a desconstrução contínua da democracia, por práticas à primeira vista “pequenas”, “democraticidas”, mas que configuram, em conjunto, um projeto que nada tem de acidental. O texto de FHC foi publicado em Pitacos. Para acessar, clique aqui.

Publicado em 08/11/2009

Lula, FHC e a mitologia

Maurício Siaines (*)

Enganei-me na matéria publicada em 24 de outubro quando afirmei ser de Jackson do Pandeiro a música que fazia referência ao sorriso de Getúlio Vargas. Na verdade, trata-se de marchinha de carnaval, feita logo depois da eleição de Getúlio, em 3 de outubro de 1950, de Haroldo Lobo, que tinha o seguinte refrão:

“O sorriso do velhinho
 faz a gente trabalhar”

A música de Jackson do Pandeiro que falava de Getúlio começava da seguinte maneira:

“Ele disse muito bem:
O povo de quem fui escravo
Não será mais escravo de ninguém.”

E segue recorrendo a outros trechos da carta-testamento de Vargas.

Fui alertado para o erro pelo leitor Jorge Miguel Mayer, historiador e organizador, junto com o também historiador João Raimundo de Araújo, do livro Teia Serrana. Agradeço a ele, lembrando, porém, que o engano não altera o sentido geral da reflexão que propus sobre os mitos na vida urbana.

Continuando a falar de mitos, é importante observar que eles cumprem uma função na vida social, prescrevem comportamentos socialmente aceitáveis, estabelecendo o que está certo fazer e o que está errado.


Na época do suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, além do próprio Getúlio, outra figura inflamava a opinião de outra parte da sociedade, o então jornalista Carlos Lacerda, que viria a ser deputado federal, governador do estado da Guanabara, que se formaria com a mudança da capital para Brasília, e uma das principais lideranças civis do golpe de 1964.

Os mitos da política cumprem a mesma função de criar alinhamentos. Mais do que os partidos políticos, ainda são figuras como Getúlio Vargas que definem alinhamentos políticos. Mais facilmente reconhecem-se os perfis de getulistas ou lacerdistas do que os partidos PTB ou UDN. Dentro da mesma lógica, hoje, assistimos à figura de Lula tornar-se cada vez mais independente do PT no entendimento popular.

Partidos deveriam ser identificados por suas ideologias e seus projetos políticos para o conjunto da sociedade. No entanto, em nada se diferenciam uns dos outros, tornaram-se apenas agências de cargos políticos lideradas por antigos caciques, semelhantes às agências de empregos. Pelo menos é cada vez mais esta a visão que se tem deles. O que, mais que lamentável, é algo que põe a democracia em risco.

Alguém já lembrou que, ao final do governo Lula, o Brasil terá completado 16 anos com estabilidade financeira e institucional rara em sua história. Continua com imensa dívida social, em função da escravidão, dos deslocamentos de seres humanos com as migrações internas, aproveitadas por um processo de crescimento urbano irracional e sem infraestrutura. Mas sem as instituições democráticas funcionando e com a moeda instável fica muito mais difícil trabalhar no sentido de pagar essa dívida. Já tivemos a experiência.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo publicado em jornais de circulação nacional no domingo, 1º de novembro, criticando o governo atual, fala de como as pequenas transgressões, os arranhões na legitimidade institucional, abrem caminho para uma espécie de acomodação que lentamente vai levando ao descrédito todo o sistema democrático. E, nessa situação, o que acaba acontecendo é o crescimento das tentações autoritárias conjugadas com a antiga tradição coronelista. É um filme que não vale a pena ser revisto.

Um exemplo notável de desrespeito às normas da sociedade democrática aconteceu mais uma vez, recentemente, no final de outubro, no Senado, que simplesmente promoveu uma manobra, bem no estilo ‘jeitinho brasileiro’, tentando não cumprir uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O senador Expedito Júnior (PSDB-RO) havia sido cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de seu estado por “abuso de poder econômico e compra de votos” na campanha de 2006. Recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que era um direito seu, que manteve a decisão do TRE de Rondônia. Recorreu, então ao STF, que manteve as decisões anteriores. Depois de tudo isto, o ex-senador recorreu à Mesa Diretora do Senado, que se julgou no direito de sobrepor-se à maior corte de Justiça do país e encaminhou a questão à Comissão de Constituição e Justiça do próprio Senado, atribuindo assim a ela mais importância do que ao Poder Judiciário. Ou seja, a “casa do compadrio”, como já foi chamado o Senado, tentou ‘dar um jeito’ de salvar um dos compadres. O ex-senador dignou-se, enfim, na última quinta-feira, dia 6, a cumprir a decisão do STF, depois de muitas idas e vindas.

Coisas como esta precisam ser banidas da vida nacional, as eleições de 2010 são um dos caminhos para esse banimento. Mais importante, ainda, é o dia a dia das relações sociais, o espaço onde será possível abandonar essas práticas.

(*) Jornalista – mauriciosiaines@gmail.com
 



Escrito por pitacos às 09h24
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