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Pitacos: política brasileira em foco |
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Sem medo do embate ideológico
 Diga-se o que quiser de Fernando Henrique Cardoso, mas reconheça-se o seu mérito de não temer o embate ideológico. O ex-presidente é mesmo uma ave rara em uma oposição, que por temer a popularidade de Lula, muitas vezes cai na inércia e não exerce o seu papel.
Seu artigo “Para Onde Vamos?” (reproduzido em Pitacos) teve o dom de chacoalhar a roseira e de interromper a pasmaceira que tem tomado conta da política brasileira. Até antes dele, tanto a oposição como os governistas estavam focados nas questões políticas de curto prazo vinculadas à disputa presidencial que se avizinha.
Para os oposicionistas, as grandes questões colocadas são saber em que data seu candidato deve ser escolhido e qual o melhor nome, se Serra ou Aécio. Já para o lulo-petismo, a grande “questão nacional” é como contemplar a fome insaciável do PMDB para que ele esteja no palanque de Dilma Roussef. Convenhamos que reduzir o embate político a tais questões é de uma pobreza sem limites.
Fernando Henrique trouxe a discussão para um cenário mais amplo, para o que está sendo gerado no país e os riscos que a nossa democracia está correndo a partir da gestação daquilo que ele chamou de “autoritarismo popular” que pode desaguar em um “subperonismo, caso o lulo-petismo se consolide no poder com a vitória de Dilma.
O destemor intelectual e político de FHC incomodou aos dois lados. Os petistas acusaram o golpe e tentaram desqualificar as críticas de FHC, como produto da “inveja” e da “amargura”, como a caracterizaram Ricardo Berzoini e Cândido Vacarezza. O xingatório representa a própria confissão de que este embate ideológico lhe é adverso, porque o lulo-petismo não tem argumentos teóricos para refutar a crítica consistente do ex-presidente.
Mas não foram poucos os oposicionistas que ficaram pisando em ovos por causa do artigo “Para Onde Vamos?” Outros se sentiram altamente incomodados com as cobranças de Fernando Henrique, que quer que a oposição saia da inércia e não se furte à polarização ideológica em nome de um pragmatismo eleitoral.
Este é o grande risco que as oposições correm. Elas ficarão de mãos atadas se aceitarem a lógica de que se fizer o enfrentamento ideológico com o governo Lula, seu candidato será derrotado, tal a popularidade do atual presidente.
Uma coisa é evitar a armadilha de Lula, que quer fazer da próxima disputa presidencial um plebiscito entre o seu governo e o de seu antecessor. Outra coisa é brincar de avestruz e deixar de mostrar ao país o que representa o atual modelo e quais são os riscos a democracia está correndo.
O mérito de Fernando Henrique é exatamente este. Não subordina tudo à tática eleitoral e olha para um horizonte mais amplo, exigindo que a oposição cumpra seu papel histórico.
E nada indica o embate ideológico é o caminho inevitável da derrota. É bom lembrar que em 2006 Geraldo Alckmin não fez a defesa política das privatizações e deu no que deu.
Não há, portanto, porque temer o embate ideológico. Fernando Henrique fez a sua parte. Que o PSDB e os outros partidos oposicionistas sigam seu exemplo.
PS: reproduzimos abaixo o artigo de Fernando de Barros e Silva, da Folha de São Paulo, que repercute os textos que FHC está publicando. O ex-presidente comprou a briga. Saiu do comezinho. FHC busca polarizar o debate político, num patamar superior, para além da disputa bipolar, Serra e Aécio, Aécio e Serra. A oposição tem de mirar mais alto e criar as bases para um amplo movimento para superar o continuísmo. Pelo interesse do aprofundamento da democracia, da República, da superação das mazelas sociais via a universalização das políticas públicas e de um capitalismo sob controles democráticos. Estas colocações parecem declarações de intenção? Antes fossem. Folha de São Paulo, 6.11.2009
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FHC, PSOL e Dilmita
SÃO PAULO - Fernando Henrique Cardoso provocou certo barulho com o artigo do domingo último em "O Estado de S. Paulo" e "O Globo". Sua crítica ao novo "bloco de poder" organizado pelo lulismo e a análise do que pode representar a manutenção do PT no comando do país sem a figura de Lula acenderam um debate necessário num ambiente de triunfalismo político. Um espírito maldoso poderia dizer que o texto é uma versão adulta e informada do que dizia Regina Duarte na TV em 2002: "Tenho medo do PT". Mas a companhia de FHC, aqui, parece ser outra. Ao perguntar "Para onde vamos?", ele retoma muito de perto argumentos que foram desenvolvidos antes pelo sociólogo Francisco de Oliveira, seu ex-colega no Cebrap, um dos fundadores do PSOL depois que rompeu com o PT. É um caso de convergência intelectual entre rivais políticos.
Oliveira foi quem chamou a atenção, ainda em 2003, no ensaio "O Ornitorrinco", para a "nova classe social" formada pela elite sindical que, atrelada ao Estado, geria os fundos de pensão, uma das principais fontes de recursos do país.
FHC, por sua vez, vê o lulismo como um amálgama entre Estado, sindicatos, movimentos sociais, fundos de pensão e grandes empresas a eles associadas -todos "fundidos nos altos-fornos do Tesouro". E escreve que, se Dilma Rousseff vencer em 2010, "sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão". Em 2006, falando à Folha, Oliveira dizia o mesmo: "O PT ficou dependente de Lula e não vai se libertar mais. Talvez o PT tenha o destino do peronismo. (...) O partido peronista pós-Perón se tornou uma confederação de gangues. Não descarto esse cenário para o PT.". Rusgas à parte, os sociólogos veem no Perón de São Bernardo um fator de regressão política e pacificação social. O êxito desse arranjo de poder depende da sua figura. Sem ele, o que será de Dilmita?
Escrito por pitacos às 11h40
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De estinlingue a vitrine

Não deixa de ser reconfortante a posição da cúpula governista do PT em relação ao projeto que tramita no Congresso, de vincular o aumento das aposentadorias ao aumento do salário-mínimo. A cúpula do governo é contra. Alega, com razão, o estouro das contas da Previdência, agora e no futuro. Só em 2010, isto teria um impacto de R$ 6,9 bilhões na conta da Previdência, cujo déficit bateu novo recorde em setembro. Oportunismo da base O senador Paulo Paim, PT/RS, autor do projeto da vinculação, também é autor de outra proposta que poderá jogar para a estratosfera o rombo da previdência. Quer acabar com o Fator Previdenciário, criado na gestão de FHC e graças ao qual foi possível ter um mínimo de equilíbrio nas contas previdenciária. Mas ele não é o único a fazer demagogia de olho na sua reeleição. Michel Temer quis ficar bem na fita. Decidiu colocar na ordem do dia o projeto do senador gaúcho, para que ele fosse votado nesta quarta-feira, o que só não vai acontecer graças a um artifício regimental utilizado, na undécima hora, pela liderança do PT. Mas o clima no Congresso é bem esse: “só um suicida para votar contra os aposentados”, como disse o líder do “bloquinho”, deputado Márcio França. Ou seja, tudo indica que a bomba atômica irá para o colo de Lula. Ficará com a lucidez da cúpula do seu governo ou levará em conta a geral para não provocar rombos na candidatura de sua ungida?  O próprio Palácio do Planalto pisa em ovos ao ter que enfrentar parlamentares de sua base, que agem irresponsavelmente e pensam apenas em seu projeto eleitoral. Lula e sua equipe política temem que ao vetar o projeto de Paim, forneça à oposição o argumento de que a candidatura de Dilma é contra os aposentados. Dá para entender porque o presidente deixou a coisa correr frouxa e só agora tomou dimensão do tamanho da irresponsabilidade articulada por um parlamentar do seu próprio partido.
O mérito Uma coisa é o aumento das pensões e demais benefícios previdenciários de acordo com a inflação. O objetivo é o de refazer o poder aquisitivo, em relação à época em que o benefício tiver sido concedido. A sociedade como um todo não pode conviver com a erosão do poder de compra das aposentadorias. Se houver risco de quebra da Previdência, faz sentido a mobilização para se tapar os eventuais rombos, em nome da justiça social. Completamente diferente é a questão do salário-mínimo, para os trabalhadores da ativa. Aqui duas questões se embaralham. A primeira é a defesa do poder aquisitivo, com reajustes que recuperem o poder de compra corroído pela inflação desde o último reajuste, seja qual for o percentual. Sem tais reajustes, de fato o que estará acontecendo é a brutal transferência de renda dos trabalhadores que recebem o salário-mínimo, ou têm seus rendimentos vinculados a ele, para o patronato e as parcelas da população melhor aquinhoadas. Simultaneamente, o salário-mínimo tem de obter ganhos de produtividade, para além dos reajustes recuperadores da inflação. Cresceu o país, em termos reais, tem de crescer o salário-mínimo. As formas e os percentuais dos aumentos reais não são objetivo desta nota. É bonita a defesa da vinculação entre os aumentos reais do salário-mínimo dos ativos e dos aposentados. Parece, à primeira vista, uma medida essencial de justiça social. Puro engano. Demagogia, e das grandes Havendo a vinculação, o que haverá de fato será a limitação dos aumentos reais. Os mecanismos para fazê-lo são mais do que conhecidos. Para não estourar a Previdência, em níveis insuportáveis pela sociedade, e para os buracos não serem tapados com recursos críticos de outras áreas, haverá redução dos percentuais de aumentos reais. Como dois mais dois são quatro. Serão prejudicados os trabalhadores da ativa, justamente aqueles que pagam as contas da Previdência, hoje e no futuro próximo. Com a redução do poder de compra, ou com o não aumento real nas proporções em que a sociedade pagaria, reduz-se a massa salarial. Saem prejudicados não apenas os trabalhadores da ativa, mas também aqueles que se queria beneficiados pela vinculação. Alternância das vitrines É reconfortante, não resta dúvida, assistirmos o PT no governo, agora como vitrine, defender posições sensatas, assumir os riscos e enfrentar seus amalucados. Pena que esse não seja seu comportamento geral. E que, no caso concreto da vinculação, ainda haja dubiedades oportunistas e “lulo-dilmistas”. Se a vinculação passar, a bomba atômica estará no colo de Lula. Reza o ditado popular: “nada como um dia depois do outro”. Acrescentamos. Na democracia, nada como a sucessão de governos na vitrine. Por caminhos nem sempre retos, assentam-se as bases para consensos nacionais e isolamento dos Pains da vida. E dos seus Temers de ocasião.
Escrito por pitacos às 10h22
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Chupando dedo
Qase tudo já foi dito sobre o acordo em Honduras. O Editorial da Folha de domingo, 1.11.2009, é quase definitivo.
Pitacadas, porém, não fazem mal a ninguém.
Queremos destacar a derrota de Chavez, do Brasil e de Zelaya, em relação à Obama, Hillary Clinton e sua gente.
Tudo que a frente Chavez-Lula-Zelaya desejava era reduzir a influência dos americanos na América Central. Chavez, com a instalação de mais um aliado bolivarianista. O Brasil, como o candidato a novo gigante, sob o manto do qual nada poderia fugir do seu controle na região, de olho no Conselho de Segurança da ONU. Zelaya sonhava com a Constituinte e a instauração da reeleição.
A trinca acreditava que o ingresso triunfal de Zelaya no território hondurenho lhe devolveria a Presidência em dias, talvez em horas, tamanha seria a sublevação popular. Os golpistas teriam a escolha de jogar-se no Caribe ou no Pacífico.
Acreditava que os Estados Unidos ficariam paralisados, pois não poderiam colidir com o pleito da restauração plena da democracia.
 Chavez, esperto, colocou-se por trás do Brasil. Se derrotado, teria acumulado forças para batalhas ulteriores. Se Zelaya fosse vitorioso, cobraria as faturas por todos os apoios dados ao longo dos últimos anos e meses.
O Brasil quis se adiantar ao caudilho venezuelano. Cedeu sua embaixada como bunker de Zelaya. Passou a fatura de que era essencial para a derrubada dos golpistas. Não teve como conferir a mercadoria.
Chavez privado de um protagonismo, por razões óbvias; o Brasil de mãos amarradas por ser fornecedor de recursos estratégicos para Zelaya; este confinado na Embaixada, sem o apoio que imaginava ter.
Por outro lado, Micheletti encurralado, pelo quadro internacional e por não ter força interna para liquidar politica e militarmente com Zelaya.
Impasse. E dos grandes.
Entram em campo os profissionais. O impasse já prejudicava interesses ao Norte.
Em dias, os americanos puseram as partes na mesa e impuseram que os acertos que vieram a público, como também os que não vieram.
Saíram aos olhos do mundo, e de fato, como pacificadores. Nem consultaram o Brasil.
Zelaya recebeu o papel da Rainha da Inglaterra hondurenha. Cumprirá o resto de seu mandato cercado e limitado por todos os lados. Nada de Constituinte. Nada de reeleição. E terá de engolir representantes dos golpistas em seu governo. E ainda terá sob sua cabeça a espada do Congresso. Se este tiver juízo, tocará seu julgamento para as calendas gregas e deixará as eleições resolverem tudo.
Os golpistas obtiveram sucesso em barrar Zelaya. Foram vitoriosos no reconhecimento internacional das eleições que marcaram para o final de novembro. Levantaram as restrições internacionais à Honduras. Foram derrotados na desautorização da Suprema Corte e no impedimento sumário de Zelaya.
Como mais uma contribuição do lulo-petismo à nossa política internacional, enfraqueceu-se nosso papel historicamente pacificador na América Latina.
Lula, Amorim, Marco Aurélio e sua turma?
Chupando dedo.
Escrito por pitacos às 11h04
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Para onde vamos

Quando FHC publica seus artigos, não há entrelinhas. O tucano salta adiante do senso comum, mesmo entre os políticos e intelectuais de centro-esquerda.
Em “Para onde vamos”, publicado no Estadão neste domingo, 1.11.2009, Fernando Henrique explicita o que entende serem as características essenciais do lulo-petismo. No terreno político é a lenta e gradual afirmação da Presidência absolutista, com a lipoaspiração (termo de Pitacos) dos partidos políticos e demais instituições democráticas. FHC crava a caracterização de “autoritarismo popular”. A unção de Dilma Roussef como candidata situacionista, por vontade soberana de Lula, enfiada goela abaixo do PT, não é acidental. FHC compara a era Lula ao período da Ditadura Militar, em dois pontos. O trágico “ame-o ou deixe-o” retorna na forma do concorde-se com Lula ou não, resgatando-se a bipolaridade em política.  A segunda identidade são os “projetos de impacto”. Vendem-se terrenos na lua como se já fossem realidade cotidiana. É o novo “Brasil Potência” e a “voragem de novos slogans”. De concreto, muito pouco.
A matéria aponta o novo tipo de capitalismo que se forma, a partir dos fundos de pensão. Trata-se da junção dos sindicatos, das corporações, da máquina política no Estado e daqueles que FHC chama de capitalistas felizardos, que se associam à nova máquina. É verdade que a progressão dos fundos de pensão e da “nova burguesia” têm sido apontados por vários analistas. Não é exclusividade do ex-presidente. O fato, porém, dessa questão ser colocada na matéria, vindo de quem vem, representa um salto no terreno da política e da caracterização do lulo-petismo. São óbvias as implicações desse posicionamento. Nova é a caracterização do “sub-peronismo”, de matiz autoritária, popular, corporativa, neo-estatizante, dirigista e intervencionaista. Salta além da continuidade das políticas de governos anteriores e acréscimo, em larga escala, de políticas sociais não universalizantes. E ultrapassa o senso comum de que Lula apenas tem surfado em conjunturas favoráveis. FHC explicita que há, sim, um projeto em curso.
De novo, matéria mandatória. Para onde vamos?Fernando Henrique Cardoso (*) A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da Terra", de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei? Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.
 É possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o." Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: "Minha Casa, Minha Vida"; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência". Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU - contra a letra expressa da Constituição - vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: "L"État c"est moi." Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o "nosso pré-sal". Está bem, tudo muito lógico. Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no "dedaço" que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas - com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.
(*) Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
Escrito por pitacos às 10h22
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Totemismo e mitos urbanos
 Maurício Siaines nos manda seu artigo “Totemismo e mitos urbanos”, sobre a projeção de desejos dos seres humanos em representações que extrapolam as explicações diretas, mas são físicas, diretas, palpáveis, tais como os totens de indígenas em muitos lugares. Exemplifica e discorre sobre o totemismo no futebol, uma área com significados tão amplos e diletos para todos nós. Pena que não se vale do Peixe e do Tricolor Paulista, amados clubes do núcleo duro de Pitacos. Siaines, como não poderia deixar de ser, projeta a questão para o território da política.
Totemismo e mitos urbanos
Maurício Siaines (*)
No caderno Light de A VOZ DA SERRA, deste sábado, 31 de outubro, Wanderson Nogueira fala de sua paixão vascaína. Começa dizendo o seguinte: “Eu não sei se o Vasco me escolheu ou se eu escolhi o Vasco, o fato é que sou vascaíno antes mesmo de conhecer a história do gigante da colina, pois se assim fosse escolheria o Vasco e pelo Vasco me deixaria ser escolhido”. Mais adiante ele diz o seguinte: “É impossível abandonar o Vasco. Deixar o Vasco de lado é como se tornar deficiente, mas não se trata de perder um membro do corpo, trata-se de algo mais intenso e profundo, é como perder o coração, a alma, a família”. Em outras palavras, ele diz três coisas fundamentais em todos os torcedores de clubes de futebol: (a) por mais que se esforce não sabe dizer por que escolheu o clube, o que empresta um caráter meio mágico à opção; (b) sente que jamais poderá deixá-lo, sob pena de perder algo muito grande, maior que uma parte do corpo, “o coração, a alma, a família”, isto é, a identidade; (c) a, digamos, ‘vascainidade’ de Wanderson está fora dele e existe desde muito antes de seu nascimento, é como se fosse ‘uma verdade’ a que ele adere e que o faz integrar-se a um agrupamento humano com características próprias.  O mecanismo é praticamente o mesmo que os antropólogos que estudam povos indígenas chamam de totemismo, fenômeno de um agrupamento de pessoas, dentro de determinada etnia, considerar-se de determinado totem, comumente representado por um animal ou por uma espécie vegetal. Quando alguém se diz uma arara ou uma capivara, não significa que essa pessoa se sinta um desses bichos. O que ele está fazendo é afirmar sua identificação com determinado grupo, cuja representação é aquele animal. Da mesma maneira, o torcedor. Não são mais determinações nacionais ou étnicas, nem de cidades ou bairros que levam as pessoas a se dizerem torcedoras de clubes de futebol. Como o Wanderson deixou a entender, é difícil explicar o que faz alguém ser torcedor. E é interessante observar que dizemos: ‘sou Vasco’ ... ou Flamengo, ou Palmeiras, ou Grêmio. A identificação é tão grande que usamos o verbo ser. Os argentinos, igualmente ligados no futebol, dizem: “Yo soy de Boca”, “Yo soy de River”. Nesta fórmula está presente a ideia de pertencimento.
E não é só no futebol que o fenômeno se repete, dentro de sociedades que costumam acreditar que se orientam pela racionalidade e pelas leis racionalmente elaboradas. As identificações totêmicas acontecem em outros campos, como a política, onde figuras de pessoas costumam ser elaboradas coletivamente como símbolos, aos quais se agregam identidades de grupos.
Vejamos as figuras populares de nossa história política. Getúlio Vargas foi o ‘pai dos pobres’. Podemos fazer várias interpretações para essa escolha popular, as leis trabalhistas entre elas, a política nacionalista. Estes elementos racionais parecem insuficientes para explicar essa identificação popular, que aparecia na musica de Jackson do Pandeiro, que ficou famosa, com o seguinte estribilho: “O sorriso do velhinho faz a gente se animar”. Da mesma maneira, no caso de Vargas, o entendimento de traços característicos de seus opositores, associados às elites, a definição, na consciência popular, dos traços característicos do tipo de gente que o ‘perseguiu’ no final da vida, também acaba sendo a identificação de um tipo de figura totêmica. E, é claro, o suicídio e a carta-testamento, dizendo “o povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém”. A mesma reflexão pode se aplicar a outras figuras da política. Nas representações totêmicas da política, assim como nas do futebol e de outras atividades humanas, estão cristalizadas complexas emoções, que não podem ser postas de lado quando se tenta entender a vida social. (*) Jornalista – mauriciosiaines@gmail.com
Escrito por pitacos às 09h34
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