Pitacos: política brasileira em foco
   Aos navegantes


O núcleo duro de Pitacos mais uma vez se somará às práticas da esmagadora maioria dos paulistanos, paulistas e brasileiros de todos os rincões.

Pernas para o ar, de logo mais até o final da segunda-feira.

 

Na terça, nossos teclados serão desengavetados, ou melhor, religados.



Escrito por pitacos às 10h43
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   Chavez vetará?



As concepções, a política e as pressões do lulo-petismo levam a Venezuela a ingressar no Mercosul.

 

Diante das críticas das oposições e dos formadores de opinião, os governistas argumentam que não se trata do governo de Chavez, mas do Estado venezuelano. E que é melhor a fera ficar dentro do círculo sob a pretensa hegemonia brasileira, do que em alhures.

 

É preciso muito contorsionismo para separar, no momento político concreto, o país vizinho enquanto Estado e governo.

 


O Mercosul tem como uma das cláusulas pétreas a democracia em seus membros. A realpolitik faz vistas grossas ao quadro político da Venezuela. Está aberto o precedente.

 

Uma das cláusulas essenciais do Mercosul é a de que não se pode celebrar acordos de comércio internacional, a não ser pela unanimidade da aquiescência de seus membros.

 

Dizendo de outra forma: um único membro do pacto pode vetar acordos comerciais do bloco ou de seus membros.

 

Chavez tem uma política internacional completamente diversa da brasileira. Não reconhece e não negocia com o Estado de Israel. Bate de frente com os americanos. Desdenha a Comunidade Européia. Morre de amores pelo Irã. Esses são, apenas, alguns exemplos.

 

Terá poder de veto na política externa brasileira em termos de comércio internacional?

 

Com o ingresso do governo chavista no Mercosul, torcemos de todo coração para que a cláusula do veto nos acordos comerciais também vá para a cucuia.



Escrito por pitacos às 10h30
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   O Real e o futuro

Parece simples, mas não é.

Quanto mais valorizado o real frente às moedas dos seus parceiros comerciais, maior é a renda, em real, gerada pelas exportações, com consequências geralmente benéficas para o país, até mesmo em termos de reservas cambiais.

Inversamente, quanto mais desvalorizada a moeda, mais volumosas as importações, com a tendência à perversa substituição da produção nacional pelo aporte de produtos estrangeiros.

Para se exportar, há que se importar. Elementar, meu caro Watson. O que o país não produz, pelo menos ainda, sobretudo de bens de capital, só é obtido por meio da troca internacional.


Há, no entanto, um ponto de equilíbrio, entre as exportações e importações, determinado pelo valor da moeda. Se rompido, em detrimento das importações, a chiadeira dos parceiros comerciais será desencadeada e a pressão política operará em direção ao equilíbrio.

Se rompido em detrimento das exportações, a enxurrada de produtos estrangeiros, de todos os tipos e portes, operará no sentido do enfraquecimento e quebra de setores inteiros da indústria nacional. No caso brasileiro, poderá acontecer a absoluta predominância de produtos agrícolas, grande parte deles de baixo valor agregado, na pauta de importações.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, um tucano de boa cepa, ex-ministro de FHC, daqueles que não carregam sectarismo, tem sido um crítico dos que veem ou viam o apocalipse na era lulo-petista. Foi um dos primeiros a apontar os indícios de superação da recente crise sistêmica do capitalismo e a prever que o Brasil não estaria entre as economias mais afetadas.

Tem sido, porém, um crítico impiedoso da falta de uma política de longo prazo para a economia brasileira, em termos dos binômios exportação/importação e valorização/desvalorização do real. Teme pelo futuro do parque industrial.

Na Folha de São Paulo, desta sexta-feira, 31.10.2009, ele publica um alentado artigo, “Câmbio: mais lenha na fogueira”, que ultrapassa as mesmices e projeta as preocupações de longo prazo.

Pitacos reproduz a matéria na nota abaixo.

Na euforia da saída da crise e do dólar barato, é leitura mandatória.



Escrito por pitacos às 10h05
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   Câmbio, mais lenha na fogueira

Folha de São Paulo

Sexta-feira, 30.10.2009

 

Câmbio: mais lenha na fogueira

 

Por Luiz Carlos Mendonça de Barros, na Folha:



ENTRE AS inúmeras questões que dividem os economistas, uma das mais importantes é a que envolve o cálculo da chamada taxa de câmbio de equilíbrio. Esse valor corresponde àquela que estabiliza o balanço de pagamentos de um país ao longo do tempo. Como o valor de uma moeda nacional nos mercados de câmbio é formado a partir de transações comerciais e financeiras das mais variadas origens, não existe uma regra precisa para a determinação do que seria o ponto de equilíbrio. Mesmo assim, os economistas têm mecanismos de certa forma eficientes para estimá-lo a partir de alguns parâmetros econômicos.


Em recente trabalho, um dos maiores bancos de investimento dos EUA atualizou -incorporando os dados mais recentes- o cálculo desse valor de equilíbrio nas economias mais importantes do mundo. Os resultados apontam os desvios das cotações de mercado em relação a seus valores de referência para países na Ásia, na Europa e na América Latina, em relação ao dólar e ao euro.


A publicação desse relatório, no momento em que a questão do real esquenta o debate no Brasil, é muito bem-vinda. Tenho muito respeito pelo trabalho de pesquisa desse banco e confio na qualidade de suas conclusões. Além disso, por ser uma instituição internacional com foco no mercado financeiro global, fica difícil associar suas conclusões com interesses ou posições de natureza ideológica. De fato, a equipe que realizou esse trabalho não faz juízo de valor em relação aos resultados obtidos.

 


A mais importante observação para nós, brasileiros, é que o real é hoje a moeda mais valorizada dentro de uma cesta de 30 países. O valor correto do real seria de R$ 2,63 por dólar, ou seja, hoje ele estaria 51% sobrevalorizado em relação à moeda americana. Segundo esses mesmos critérios, o euro deveria valer hoje US$ 1,20, estando atualmente nos mercados 23% acima de seu valor de equilíbrio. Assim, mesmo em relação ao valorizado euro, o real estaria 23% acima de seu valor de referência.


Outros números interessantes em relação à taxa de câmbio no Brasil: o desvio em relação ao peso argentino está hoje em 80%, ou seja, as empresas brasileiras têm um fardo pesadíssimo nas suas relações comerciais com nosso vizinho e parceiro.



Escrito por pitacos às 09h57
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   Pane no UOL

O núcleo duro de Pitacos bem que trabalhou a tempo. Produzimos as duas notas desta quarta-feira, somadas à indicação do texto sobre as divergências no governo.

 

Publicamos sem as ilustrações, porque os serviços de blog do UOL entraram em pane. Os servidores que guardam as ilustrações subiram no telhado. E aqueles que guardam as páginas dos blogs, também.

 

Não foi possível acessar o blog, pelo menos até o meio da tarde desta quarta-feira.

 

A bem da verdade, registre-se que ao longo desses anos de vida de Pitacos, é a primeira vez que ocorre uma pane geral dessas.

 

Não dá para culpar nem Lula, nem Dilma, nem sua área de infraestrutura de telecomunicações.

 

Mas que dá vontade, dá.

 

Atualização (18h30): Tudo resolvido no final da tarde. Pitacos volta ao ar, plenamente.



Escrito por pitacos às 14h26
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   Bate-cabeça estúpido

 

Lula deve estar erguendo as mãos para os céus e agradecendo a Deus. E tem razão para tal. Nada mais estúpido do que o bate-cabeça público entre partidos e dirigentes da oposição, que não conseguem chegar a um ponto comum sobre o nome do seu candidato a presidente e qual o timing necessário para que isto se dê.

 

Em vez disso, assistimos, a 15 dias, a um festival de desacertos e de declarações extemporâneas que em nada contribuem para a costura da unidade oposicionista. Do lado do PSDB, deixa-se vazar uma pesquisa na qual, numa das simulações, Aécio aparece como vice da chapa de Serra. É evidente que isto deixopu o governador mineiro transtornado, pois transmitiu para o público a clara impressão de que nem mesmo seu partido leva a sério seu desejo de ser candidato a presidente da República.

 


Publicamente, o governador paulista não assume sua candidatura a presidente. Mas autorizou um dirigente do DEM a divulgar para sua tropa que ele quer ser candidato a presidente e quer ter Aécio como seu vice. Imaginem o furor do governador mineiro ao tomar conhecimento deste episódio através da mídia.

 

Mas Aécio também não deixa por menos e se movimenta como se fosse movido à base das preferências pessoais do presidente do DEM, Rodrigo Maia. De forma pública, o governador de Minas botou a faca no pescoço de Serra, ao partir para ou dá, ou desce. Publicamente deu um ultimato no governador paulista e no PSDB ao dizer que seu prazo é janeiro. Após isto, Aécio diz que vai tratar da sua vida como candidato a Senador, caso não haja a definição de quem será o candidato a presidente.

 

Constituí-se  capítulo à parte as trapalhadas patrocinadas por dirigentes do DEM, cujo comportamento errático se assemelha a uma biruta de aeroporto, como apropriadamente caracterizou a coluna de Fernando Rodrigues. Que coisa mais sem sentido esta disputa entre Rodrigo Maia e a dupla Gilberto Kassab - Jorge Bornhausen, para ver quem manda mais no pedaço!

 

Pelo visto, ou a oposição não aprendeu nada com as derrotas de 2002 e 2006, ou se acha tão favorita na próxima disputa presidencial, que se dá ao luxo de se desentender publicamente.  Nunca é demais repetir as duas últimas derrotas se deram, em parte, por causa das divisões internas e do fogo amigo que levou à paralisia das candidaturas de Serra e Alckmin, em vários estados.

 

Hoje, mais do que no passado, a unidade da oposição é condição imprescindível para que ela tenha chances de vitória. Só ela não basta. Mas sem ela, a derrota será líquida e certa.

 

Não é o fato de Serra liderar as pesquisas, a um ano das eleições, que o transforma, automaticamente, em favorito  da próxima disputa presidencial.  Mesmo que Lula não consiga transferir sua popularidade para sua ungida e que ainda  Serra tenha razão no seu vaticínio de que no Brasil não existe mais capitania hereditária, não se pode subestimar a candidatura governista.

 

O lulo-petismo vai para a próxima disputa presidencial em condições mais vantajosas do que as últimas duas disputas. São fortes as possibilidades de a candidatura de Dilma contar com uforte leque de alianças que lhe dê um tempo televisivo imenso e lhe assegure palanques estaduais competitivos. É sempre bom lembrar que não é nada fácil enfrentar nas urnas um governo com alto índices de popularidade, ainda que isto não seja impossível.

 

Conta ainda, a favor da candidatura governista, a conjuntura que vai se descortinando, onde é visível a retomada do crescimento econômico e a melhoria dos indicadores sociais, como aumento do emprego, da renda e do consumo. Por último não se pode subestimar o enorme poder financeiro da campanha do lulo-petismo, que deve bater na casa de 190 milhões de reais, conforme avaliação do próprio PT.

 

Com todas estas adversidades, a oposição pode derrotar o lulo-petismo, até porque tem dois candidatos altamente competitivos. Se houver uma composição entre os dois na mesma chapa, a vitória se tornará mais factível.  Claro que é um alento o desempenho de Serra em todas as pesquisas, apesar da sua pouca exposição em termos midiáticos.

 

Mas para que esta vitória aconteça, vale a velha regra: só se ganha uma guerra o exército que estiver unido e não tenha que envolver em duas frentes: a externa e a interna.

 

Chega, portanto, de bate-cabeça estúpido.



Escrito por pitacos às 14h11
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   Preconceito e autoritarismo

"A ação do governo não é só em defesa do interesse público. É da saúde da mulher, também. Embora hoje câncer de mama seja uma doença masculina também. Deve ser consequência dessas passeatas gay."
Governador Requião (Paraná), 27.1.2009, durante programa na TV Educativa do seu estado.

“É preconceito contra a mulher. Eu posso ir para a cozinha, cozinhar os projetos. Agora, na hora de servir, não posso nem ver?”
Ministra Dilma Roussef, domingo, 25.10.2009, ao rebater as críticas de que estaria em campanha antecipada, valendo-se de recursos públicos.

 

As duas declarações têm em comum o reforço do preconceito, cada uma a seu modo.

Requião, por meio de uma brincadeira estúpida, mas que pode revelar suas concepções, bateu na tecla da existência de doenças típicas de homossexuais.

De quebra, ironizou as passeatas dos movimentos gays, que por todo o mundo contribuem para a desmistificação de suas “inferioridades”. É quase certa a total ignorância do histriônico governador. Essas passeatas originaram-se em São Francisco, Califórnia, nos anos 80 do século passado, em protesto contra o assassinato de um homossexual e se tornaram um movimento dos gays e dos não gays, pela tolerância e diversidade.

A ministra Dilma nada tem de ignorante. Fugiu da resposta às críticas com toda consciência. Tentou “vitimar-se”. É criticada por ser mulher. Se estivesse na cozinha, seria certamente elogiada.

Tudo o que o movimento feminista não quer é a vitimização das mulheres. Mulheres e homens vivem e disputam o mesmo universo, sem que o gênero de um ou de outro deva ou possa contribuir para qualquer impedimento de suas atividades e funções na vida. Claro, isso sem prejuízo das particularidades que os gêneros têm na construção e reprodução da vida. Tudo com a devida ternura.

O pronunciamento de Dilma busca rebaixar a mulher à condição infantilizada. Além do mais, atacou um dos pilares da vida democrática, a crítica. E também a obrigação dos governantes justificarem cada um de seus atos. Pode-se criticar homens e não mulheres? E se o fizerem, estará sendo agredido o gênero?

É provável que Requião proceda como todos os que atacam os homossexuais. Diga que não disse o que disse e que, ainda assim, foi mal interpretado, e que, se atingiu alguém, roga mil desculpas.


Já a Ministra está muda a respeito e permanecerá muda. Se retirar da frente a questão do gênero, terá de responder ao uso dos recursos públicos para realizar campanha eleitoral extemporânea. É tudo que não quer agora.

De comum entre a Ministra e o Governador também está o fato de terem assentado mais tijolos na muralha que semeia preconceitos e estigmas contra as mulheres (que jamais podem ser chamadas de minorias) e contra os gays.

Neste diapasão, as demais minorias que se cuidem e mobilizem, em defesa do direito universal da existência em convivência harmoniosa e democrática com os demais humanos.



Escrito por pitacos às 10h36
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   Divergências públicas, insegurança externa

Republicamos a nota “Divergências públicas, insegurança externa”, que saiu na newsletter “Política e economia na Real”, de terça-feira, 27 de outubro, nº 75.

O periódico é assinado por Francisco Petros e José Márcio Mendonça.

A nota alinhava as principais divergências entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central, e entre os diversos ministérios em torno de questões sensíveis.

Divergências públicas, insegurança externa

Em uma de suas passagens por Brasília, Lula provavelmente terá de ditar uma daquelas suas "ordens unidas" para enquadrar alguns auxiliares que andam se estranhando de público. As divergências, em muitos casos, geram insegurança externa, principalmente na área sensível da economia. Outras atrasam mais a ação do governo do que os execrados TCU, MP.

1.     BC e ministério da Fazenda, que divergem a respeito de tudo, resolveram divergir também a respeito da taxação do câmbio. O BC acha que a medida é, no mínimo, inócua. A Fazenda acha que o BC está muito frouxo.

2.     O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, também discorda do IOF na entrada de capital estrangeiro especulativo, posição que é também de parte dos empresários.

3.      O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, passou a defender corte de gastos de custeio do governo e uma reforma da Previdência para que o Brasil possa crescer de forma sustentável. Por falar em ajuste fiscal, em seu boletim trimestral de inflação, a equipe do BC foi tachada de "terrorista" por auxiliares de Mantega. Por sinal, Coutinho é apontado como provável substituto de Meirelles no BC, um estágio probatório antes de assumir o ministério da Fazenda num possível governo Dilma.

4.      Há profundas divergências entre o ministro das Comunicações, Hélio Costa, e as equipes do ministério do Planejamento e da Casa Civil a respeito do Plano Nacional de Banda Larga que o presidente Lula quer ver pronto até o dia 10/11 para levar em seguida para as ruas. Tanto é assim que cada lado está preparando o seu próprio projeto - o de Costa envolvendo as teles, o outro privilegiando a ressurreição da Telebrás. Hélio Costa é um ministro incomodado com a insistência do PT em ter candidato próprio ao governo de MG.

5.      Batem boca ainda os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário por causa da mudança nos critérios para classificação da produtividade das propriedades rurais e os ministérios do Meio Ambiente e Transportes por causa de licenças ambientais.

Estas divergências naturalmente tendem a se acentuar na medida em que mais e mais o político-eleitoral se misturar com o estritamente técnico.



Escrito por pitacos às 09h52
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   Beltrame acerta na mosca


Beltrame, o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, oriundo dos quadros de carreira da Polícia Federal, botou o dedo na ferida da crise de segurança em seu Estado.

 

Abaixo, algumas de suas declarações no recente 21º Encontro do OsteRio:

 

- "Só no Rio existe fuzil e rifle. Só no Rio existe metralhadora antiaérea. Então o país todo precisa saber que, para enfrentar fuzis 762, 556, e .30, precisa haver um nivelamento das forças de combate. Precisa haver uma paridade. Precisamos redimensionar o armamento e os recursos das forças da ordem. Precisa entrar grana. Mas, de que adianta me darem R$ 10 milhões ou R$ 100 milhões se não posso gerenciar essa verba? É para gerenciar as prateleiras com armas não letais? Só posso equipar meus policiais com spray de pimenta?" 


- "Eu quis comprar carros blindados de Israel e da África do Sul. Fiz o pedido. Ah, não pode, porque esses veículos têm características de guerra. E isso que vivemos no Rio é o quê? O governo federal precisa assumir sua responsabilidade, seu compromisso. Não adianta nada, um dia depois de bandidos derrubarem um helicóptero e matarem três PMs, nos telefonarem de Brasília oferecendo mais um helicóptero blindado. Nós recusamos. O que vai resolver mais um helicóptero blindado?" 


- "O combate ao narcotráfico é competência do governo federal. Em nenhum lugar do mundo polícia estadual é encarregada de combater narcotraficantes. Ainda mais traficantes com fuzis importados que entram por nossas fronteiras e nossos portos. O que a população não entende é que o governo federal não tem de ‘ajudar o Rio’ a combater o narcotráfico armado. É o estado do Rio que está ajudando o governo federal em algo que é compromisso de Brasília”. 

- "Os senhores acham que é fácil deixar um policial de noite no Complexo do Alemão ganhando 970 reais por mês e proibir que ele faça bico? Quando, ao fazer segurança para a elite, ele ganha um terço disso numa noite? Não serei eu que tirarei o bico do PM." 


- "Na Colômbia, expulsaram 15 mil policiais da corporação acusados de corrupção quando decidiram fazer a limpeza nas forças de segurança. Eu perguntei como eles conseguiram fazer isso em tão pouco tempo. ‘Lei de exceção’, me respondeu e. A Secretaria de Segurança tinha o poder discricionário. Suspeitava, acusava, julgava..., e rua." 


- "O governo federal é sócio deste problema. O Rio de Janeiro ficou febril por causa da queda desse helicóptero, mas esse é um episódio de todo um processo, iniciado há décadas e que começou a piorar nos anos 80. Não me venham com a oferta de mais um helicóptero blindado. Porque não existe meia solução. Não estou dizendo que o Exército tenha de cuidar da segurança pública. O Exército precisa cuidar das fronteiras. O que adianta trazer tropas para o Rio? Se nós todos não nos unirmos e nos mexermos, se não tivermos o apoio do Legislativo e do Ministério Público para que o país enxergue o Rio como é, realmente, esse pessoal virá aqui na janela com o fuzil na nossa cara. Sugiro que a gente faça da queda deste helicóptero nosso 11 de setembro da segurança pública no Rio. Antes e depois." 

 

O governo federal, candidamente, ofereceu um novo helicóptero blindado, para substituir o que foi abatido pelos traficantes.

 

Beltrame acertou o centro do alvo. Nem cem helicópteros escondem que a repressão ao tráfico e ao crime organizado, em qualquer país, é atribuição das forças federais.

 


As drogas não são produzidas em território fluminense, nem as armas. Os bandidos não se circunscrevem ao limite do Estado. As fronteiras do Sul e da Bolívia, escancaradas, não estão na jurisdição do governo do Rio de Janeiro.

 

Cabe ao governo federal assumir seu papel e responsabilizar-se como o principal agente no combate ao tráfico no Rio de Janeiro. Simples, assim.

 

Em todos os lugares onde o embate contra o narcotráfico foi vitorioso, ele começou pela limpeza das fileiras policiais, no seu todo, local, estadual e federal.

 

Beltrame reivindica uma legislação de exceção, cujo centro é o afastamento liminar dos suspeitos nas polícias, concomitante às suspeitas. Legislação extraordinária, deste tipo, cabe na democracia, em situações excepcionais, sobretudo de guerra. Não é que o existe no Rio de Janeiro?

 

O Secretário tocou no tema sensível dos armamentos. As forças armadas não permitem que as polícias estaduais tenham armas iguais ou superiores a ela, para o tipo de ação que praticam. O fundamento é uma concepção arcaica. Suspeitava-se que as polícias locais poderiam ser utilizadas em movimentos separatistas ou de rebelião contra o governo federal, décadas e décadas lá trás.

 

A continuação dessa política, hoje sem base na realidade, leva ao desequilíbrio e desvantagem tática. O narcotráfico não obedece aos limites do armamento imposto pelas forças armadas. É de novo simples, assim.

 

Para que não haja a militarização do combate ao narcotráfico, é urgente e necessário o armamento moderno e suficiente das polícias estaduais, sobretudo a fluminense. É aceitável que essa mudança possa ser revertida mais na frente. Hoje, aqui e agora, é mandatória.

 

Beltrame não tapa o sol com a peneira. Sem salários mais adequados, o policial carioca não pode ter dedicação exclusiva. Em São Paulo, o salário de um militar é superior em mais de 50%.

 

Concorde-se ou discorde-se do Secretário, é obrigatório conferir-lhe o atributo da coragem política.



Escrito por pitacos às 11h07
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   Paulo Renato: contra o corporativismo (1)


Nitroglicerina pura. Esta é a definição da entrevista de Paulo Renato, Secretário de Educação do governo Serra e deputado-federal pelo PSDB/SP, publicada nas Páginas Amarelas da Veja desta semana. O Secretário joga para a sociedade as contradições entre as propostas do governo estadual em relação ao professorado e as corporações sindicais dirigidas por micro agremiações de extrema esquerda. Posiciona-se também sobre algumas questões gerais da educação, de maneira clara, sem meio-termo, polêmica e enriquecedora do debate. Leitura mandatória (Antônio Sérgio Martins).

 

Veja, Edição 2136, 28 de outubro de 2009

 

Contra o corporativismo

 

O secretário da Educação de São Paulo diz que semmeritocracia não haverá avanços na sala de aula - e que os sindicatos são um entrave para o bom ensino

 

Monica Weinberg

 

Criar um sistema capaz de atrair os melhores alunos para a carreira de professor é imperativo para um ensino de alto nível. Daí a relevância da aprovação, na semana passada, de um projeto concebido pelo economista Paulo Renato Souza, 64 anos, secretário estadual da Educação em São Paulo. Trata-se de um plano de carreira para os professores inteiramente baseado na meritocracia, conceito ainda raro nas escolas brasileiras e repudiado pelos sindicatos, seus principais adversários. "Os sindicalistas são um freio de mão para o bom ensino", resume o ex-ministro da Educação no governo Fernando Henrique, que reconhece avanços na implantação dos rankings no Brasil e da cobrança de resultados com base neles, mas adverte: "É preciso discutir a educação com mais objetividade e menos ideologia".

Um relatório recente da OCDE mostra que o Brasil foi o país que mais aumentou o investimento na educação em proporção ao total dos gastos públicos - mas muitos se queixam de falta de dinheiro nas escolas. Estão certos?

O maior problema no Brasil não é a falta de dinheiro, mas como esses recursos são empregados - em geral, de maneira bastante ineficaz. Daria para obter resultados infinitamente superiores apenas fazendo melhor uso das verbas já existentes. Prova disso é que, com orçamento idêntico, algumas escolas públicas oferecem ensino de ótima qualidade e outras, de péssimo nível.

O que explica isso?

As boas são comandadas por diretores com uma visão moderna de gestão, coisa raríssima no país. Não existe no Brasil nada como um bom curso voltado para treinar esses profissionais a liderar equipes ou cobrar resultados, o básico para qualquer um que se pretenda gestor. Quem se sai bem na função de diretor, em geral, é porque tem algo como um dom inato para a chefia. A coisa funciona no improviso.


As avaliações sempre chamam atenção para o despreparo dos professores brasileiros. A que o senhor atribui isso?

Às universidades que pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país.

Como isso se reflete nas escolas?

Muitos professores propagam em sala de aula uma visão pouco objetiva e ideológica do mundo. Alguns não dominam sequer o básico das matérias e outros, ainda que saibam o necessário, ignoram as técnicas para passar o conhecimento adiante. Vê-se nas escolas, inclusive, certa apologia da ausência de métodos de ensino. Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. É improdutivo e irracional. Qualquer ciência pressupõe um método. No ensino superior, há também inúmeras mostras de como a deologia pode sobrepor-se à razão.

O senhor daria um exemplo?

Existe um terrível preconceito nas universidades públicas contra o setor privado. Ali, qualquer contato com as empresas é visto como um ato de "venda ao sistema". Como se as instituições públicas fossem sustentadas por marcianos e não pelo dinheiro do governo, que vem justamente do sistema econômico. O resultado é que, distantes das empresas, as universidades se tornam menos produtivas e inovadoras.

Em muitos países, as universidades públicas cobram mensalidade dos estudantes que têm condições de pagar. Seria bom também para o Brasil?

Sem dúvida. Só que esse é um tabu antigo no país. Se você defende essa bandeira, logo o identificam como alguém que quer privatizar o sistema. Preservar a universidade gratuita virou uma questão de honra nacional. Bobagem. É preciso, de uma vez por todas, começar a enxergar as questões da educação no Brasil com mais pragmatismo e menos ideologia.

Na semana passada, foi aprovado em São Paulo um novo plano de carreira para professores e diretores. Esse tipo de medida tem potencial para revolucionar o ensino nas redes públicas?

Planos de carreira são essenciais para tornar essas profissões novamente atraentes, de modo que os melhores alunos saídos das universidades optem por elas. Sem isso, é difícil pensar em bom ensino. O plano de São Paulo não apenas eleva os salários, o que é um chamariz por si só, mas faz isso reconhecendo, por meio de avaliações, o mérito dos melhores profissionais. Ou seja: esforço e talento serão premiados, um estímulo que a carreira não tinha. A meritocracia consta de qualquer cartilha de gestão moderna, mas é algo ainda bem novo nas escolas brasileiras.

Os principais adversários do projeto foram os sindicatos desses profissionais. Que lógica há nisso?

É uma manifestação de puro corporativismo. Pela nova lei, só poderão pleitear aumento de salário aqueles professores assíduos ao trabalho - um pré-requisito mais do que razoável. É o mínimo esperar que, para alguém almejar ascender na carreira, ao menos compareça ao serviço. Apenas o sindicato não vê desse jeito. Ele encara as "faltas justificadas" como um direito adquirido. E ponto. Não quer perdê-lo. Mas repare que eu não estou dizendo que os professores ficarão sem esse direito. Só estou tentando fornecer um estímulo adicional para que eles deem suas aulas. O último levantamento que fizemos mostra que a média de ausências na rede estadual de São Paulo é altíssima: foram trinta faltas por docente apenas em 2008. Ao resistir a uma medida que premia a presença na escola, o sindicato dá mais uma mostra de como o espírito corporativista pode sobrepor-se a qualquer preocupação com o ensino propriamente dito.


 

.......... (continua na nota abaixo).



Escrito por pitacos às 10h03
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   Paulo Renato: contra o corporativismo (2)

(continuação da nota acima).

 

O movimento sindical passa ao largo da preocupação com o bom ensino?

É exatamente isso. Está claro que os sindicatos estão focados cada vez mais no próprio umbigo e menos nas questões relativas à educação. Entendo, evidentemente, que lutem pelos interesses da categoria, propósito de qualquer organização do gênero. Mas a qualidade do ensino, que é de responsabilidade social deles, deveria vir em primeiro lugar. Em 1984, quando fui secretário da Educação em São Paulo pela primeira vez, já se via essa forte tendência nos sindicatos. Em reuniões com os professores, palavras como aluno ou ensino jamais eram mencionadas por eles. Apenas se discutiam ali os interesses da categoria. E esse problema só piora.

O que causa a piora?

O movimento sindical politizou-se a um ponto tal que não se acham mais nele pessoas realmente interessadas em educação. Estas debandaram. Hoje, os sindicatos estão tomados por partidos radicais de esquerda sem nenhuma relevância para a sociedade. Para essas agremiações insignificantes, o sindicalismo serve apenas como um palanque, capaz de lhes dar uma visibilidade que jamais teriam de outra maneira. É aí que tais partidos aparecem e fazem circular seu ideário atrasado e contraproducente para o ensino. Repare que esses sindicalistas são poucos - e estão longe de expressar a opinião da maioria. Mas têm voz.

Com a nova lei fica determinado que, para pular de nível na carreira, o professor seja submetido a uma prova. Por que os sindicatos rejeitaram a ideia?

É lamentável que um grupo de professores critique a existência de uma prova. Veja o absurdo. Eles alegam que um exame os obrigaria a estudar mais e que não têm tempo para isso. A crítica expressa também uma resistência à avaliação, que até hoje se vê arraigada em certos setores da sociedade brasileira.

Nisso o Brasil destoa de outros países?

Em culturas mais individualistas e competitivas, como a anglo-saxã, as aferições do nível dos professores e do próprio ensino não são apenas bem-aceitas como têm ajudado a melhorar as escolas, na medida em que fornecem um diagnóstico dos problemas. Os professores brasileiros que agora resistem a passar pela avaliação certamente não estão atentos a isso. Sua maior preocupação é lutar por direitos iguais para todos - velha bandeira que ignora qualquer noção de meritocracia. Por isso, eles se posicionaram contra uma regra do projeto que limita o número de promoções por ano: não mais do que 20% dos profissionais poderão subir de nível. É um teto razoável: evita um rombo no orçamento e, ao mesmo tempo, promove uma bem-vinda competição. Demandará mais empenho e estudo dos professores - o que não lhes fará mal.

No campo salarial, premiar o mérito significa romper com o conceito da isonomia de ganhos para todos os funcionários. Esse não é um valor que deveria ser preservado?

Não. Já é consenso entre especialistas do mundo todo que aumentos concedidos a uma categoria inteira, desprezando as diferenças de desempenho entre os profissionais, não têm impacto relevante no ensino. O que faz diferença, isso sim, é conseguir premiar os que se saem melhor em sala de aula. A isonomia é uma bandeira velha.

Há experiências no Brasil com a concessão de bônus aos melhores professores. Isso funciona?


Sem dúvida. Quando há um sistema feito para reconhecer e premiar os talentos individuais, a eficácia das políticas públicas para a educação aumenta. Coisa de quinze anos atrás, o Brasil estava a anos-luz disso. Não havia informação sobre nada - nem mesmo se sabia o número de escolas no país. O dado variava entre 190 000 e 230 000 colégios, dependendo da fonte. Hoje, já dá até para comparar o ensino de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, com o das escolas da Finlândia. Desse modo, é possível traçar metas bem concretas para a educação e cobrar por elas - alicerces para uma boa gestão em qualquer setor.

Já se formou um consenso no Brasil de que esse é o caminho acertado?

Acho que sim. Nos primeiros anos de governo Lula, os petistas chegaram a pôr em xeque a ideia de que a qualidade do ensino precisa ser aferida com base em dados objetivos. Foi um retrocesso. Mas hoje o MEC norteia suas políticas com base em avaliações, metas e cobrança de resultados. Diria que eles chegam até a exagerar na dose, divulgando rankings que, como ministro, eu mesmo preferia não trazer a público. É o caso do Enem.

O Enem não é um bom indicador da qualidade do ensino em escolas públicas e particulares?

O problema é que, como só faz o exame quem quer, ele não necessariamente traduz a qualidade de ensino na escola como um todo. E se apenas os bons alunos de determinado colégio se submeterem à prova? O retrato sairá distorcido. Grosso modo, o Enem até espelha bem a realidade. Mas, como a amostra de alunos de cada escola é aleatória, há espaço para que se cometam injustiças. Em tese, qualquer colégio particular que se sentisse prejudicado pelo ranking poderia processar o MEC. De modo geral, porém, sou absolutamente favorável a que se lance luz sobre os resultados. O monitoramento deve ser constante.

No começo do ano, flagraram-se em material que seria distribuído às escolas pela Secretaria Estadual da Educação erros crassos, tais como a inclusão de dois Paraguais num mapa da América do Sul. Faltou fiscalização por parte do governo?

Sem dúvida. Ainda que o material não seja produzido pela secretaria, é de responsabilidade dela que não passem erros. Não há o que argumentar aí. Depois do episódio, os cuidados foram redobrados. Cada livro é revisado de três a quatro vezes. Apostila com erro é um desserviço à educação - e desperdício de dinheiro público.



Escrito por pitacos às 10h01
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   O medo do outro e a ação


Maurício Siaines (*)

 

O povo que vivia na região de Lumiar, em grande parte descendente dos suíços e alemães que vieram para Nova Friburgo no início do século 19, era muito ligado à religião católica, que orientava o modo como a comunidade se organizava, não só pela visão de mundo que trazia, como também, pelas práticas diárias.

Em meados dos anos 50, um grupo de pessoas ligadas à igreja Assembleia de Deus tentou se estabelecer na localidade e acabou sendo expulso, num ato de extrema violência. Os católicos se reuniram na Praça Carlos Maria Marchon, onde está o coreto, no centro de Lumiar, e dali partiram para o caminho que leva a Boa Esperança, onde estava a igreja evangélica, que derrubaram, ateando fogo ao que fosse possível queimar. Os atacantes voltaram, em seguida, ao coreto – que não era o atual, mas estava no mesmo lugar –, onde rezaram uma Ave Maria, oração exclusiva dos católicos, diferentemente do Pai Nosso, compartilhado por todos os cristãos. Ou seja, o grupo afirmou sua diferença em relação ao outro que tentava se estabelecer.

Embora alguns dos participantes do assalto estejam vivos, o episódio é difícil de reconstituir, inclusive as datas, porque uma espécie de conspiração de silêncio se formou a respeito dele. Há quem diga que havia a convicção entre os lumiarenses de que os evangélicos chegados ameaçavam os locais, dizendo que puniriam aqueles que não se convertessem à sua religião castrando os homens e arrancando os seios das mulheres. A ameaça pode hoje ser entendida como inverossímil: como um grupo minoritário que chega poderia esperar convencer alguém com tal tipo cartão de visitas? Mas o fato é que o grupo estabelecido viu naqueles que chegavam um perigo, algo relacionado com o mal, que precisava ser extirpado da localidade. 

O sociólogo Norbert Elias (1897-1990) tem um livro que, tratando de acontecimentos aparentemente banais de uma pequena cidade inglesa, propõe questões que ajudam a pensar o porquê do fenômeno da discriminação. Trata-se de Os estabelecidos e os outsiders, de 1994, publicado no Brasil por Jorge Zahar Editor, em 2000.

Elias analisa a rejeição que parte da população da cidade, a que ele dá o nome fictício de Winston Parva, nutre em relação à outra, sendo que o único fato que diferenciava esta última era ter se estabelecido mais recentemente no lugar. No resto, tanto o grupo que rejeitava, quanto o rejeitado eram formados de ingleses, protestantes e, em grande parte, operários. Apesar dessa aparente homogeneidade, Elias observa que existem fronteiras entre as comunidades, “o desrespeito a essas fronteiras pode ser fatal”. 

Tentando dar uma explicação para o fenômeno, diz o seguinte:

“Os grupos humanos vivem na maioria das vezes com medo uns dos outros, e frequentemente sem conseguirem articular ou esclarecer as razões do seu medo. Eles se observam mutuamente, enquanto se tornam mais fracos ou mais fortes. Sempre que possível, tentam evitar que um grupo vizinho alcance um potencial maior do que o próprio.” Ele acredita que este fato não é ocasional, nem acidental, mas algo a que os grupos precisam se apegar, “traços estruturais” daquilo que o grupo pensa de si próprio. E isto leva a que o grupo procure fortalecer sua autoestima coletiva porque esta favorece sua integração.

Neste século 21, tido e havido como o tempo da integração entre os povos, do que foi chamado de globalização, quantas atitudes de repúdio ao diferente podemos encontrar em nosso dia a dia? Diferente pela história de vida, pela cor da pele, pelo modo como usa a sexualidade. “Não gosto de paulistas”, “os baianos são preguiçosos”, “o povo do Sul é mais civilizado”, “isso é coisa de favelado”: quantas frases como estas, de conteúdo discriminatório, circulam por aí? Será o medo que as faz nascer? Seja o que for, vale a pena fazer esforço para superar esses preconceitos, pois os gestos violentos que surgem da atitude discriminatória precisam ser evitados. 

(*) jornalista, contribui regularmente com Pitacos. Publica seus textos em A Voz da Serra, de Nova Friburgo, Rio de Janeiro.
mauriciosiaines@gmail.com

 



Escrito por pitacos às 09h26
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