Pitacos: política brasileira em foco
  

 


Marina e o novo xadrez eleitoral

 

 

Inicialmente confessamos uma enorme curiosidade. Estamos doidos para saber quem foi o “Kasparov” que inventou a candidatura de Marina Silva. O cara é um gênio. Com um só movimento mudou todo o xadrez eleitoral. Será que Penna,  presidente nacional do PV, é o “ pai da criança”? Ou isto é muita areia para o seu caminhão?

 

Deixemos a curiosidade de lado. Vamos ao que interessa. Muda o novo xadrez eleitoral do país, a partir da entrada em campo da quase certa candidatura de Marina Silva, pelo PV. Interessa saber também quem ganha com este fato novo e quem arca com as perdas e danos.

 

Essas vão principalmente para Lula e Dilma. Com sua entrada em campo, Marina Silva implodiu a estratégia de Lula de transformar a disputa presidencial em plebiscito, entre os oito nos do seu governo e os oito anos do governo de FHC, ou melhor, entre Serra, que representaria o “ mal” e as “elites” e Dilma - que seria a expressão do bem e a “mãe dos pobres.” Espertamente, o presidente queria explorar também o confronto de gênero para resolver a parada já no primeiro turno.

 

Tudo isto foi para o espaço. Marina Silva não se coloca nesta polarização. Pinta como uma “terceira via“, que pode atrair uma fatia do eleitorado cansado da eterna disputa entre o PT e o PSDB e profundamente desencantada com o “pragmatismo” do governo Lula e do abandono, pelos petistas, da bandeira da ética. Deste ponto de vista, ela herda o houve de melhor na história do PT e tem capacidade para tornar-se a opção para uma parte do eleitorado que foi “reserva de mercado” dos petistas, mas que está órfã há quase oito anos.

 

Também vai para o vinagre a questão de gênero. Aqui a entrada de Marina é terrível para Dilma Roussef. A senadora acreana tem muito mais identidade com a luta das mulheres do que a Ministra da Casa Civil. Aquele papo de Lula de que o Brasil terá uma mulher na presidência deixou de ser monopólio da candidatura oficial. Teremos duas mulheres candidatas, mas com estilos diferentes e com desvantagens para a Ministra. Dilma tem aquele jeito de “sargentona”, que dificulta a conquista de corações. A transparência não é uma marca de sua trajetória política, assim também como não o é o seu apreço à verdade. Já Marina Silva é aquela figura meiga e de uma vida política reta, que todo mundo sabe o que quer e o que pensa.

 

Não é gratuito o fato de que o PT e o Palácio do Planalto fazem insinuações, como a de que “Marina vai para o PV de Zequinha Sarney”. Sussurram que o desmatamento da Amazônia só diminuiu quando ela deixou o Ministério do Meio-Ambiente. Tais afirmações são a própria confissão que o Palácio do Planalto e os petistas acusaram o golpe e começaram a tomar consciência do tamanho do estrago que a senadora poderá fazer nas fileiras da candidatura continuísta.

 

E este parece não ser pequeno. De acordo com a pesquisa comandada pelo sociólogo Antônio Lavareda, Marina Silva tem mais intenções de voto do que Dilma Roussef, em duas simulações. Ainda que também “roube” votos de Serra, Marina Silva desidrata principalmente a candidatura de Dilma Roussef.  A tendência é que Marina tente polarizar com Dilma, não só em decorrência de suas concepções antagônicas, mas também porque, para crescer, a senadora terá que “roubar” mais eleitores de Dilma. De qualquer maneira, a simples hipótese de que Marina pode alcançar 10% do eleitorado é motivo suficientemente forte para tirar o sono de Lula e de Dilma.

 

O PV também só tem a lucrar com a iniciativa. Sem ela, se dividiria na disputa presidencial, com Gabeira e Penna no palanque de Serra e Juca Ferreira, ministro da Cultura, e Zequinha Sarney na campanha do lulopetismo. Ao entrar, de forma competitiva, na disputa presidencial, o PV pode eleger um número maior de deputados, com a vantagem de passar a contar com uma bancada mais afinada com o discurso ambiental, o que não acontece hoje com seus deputados. Para não falar que pode se erigir em poder em um estado estratégico como o Rio de Janeiro, se Fernando Gabeira sair vitorioso na disputa do governo do Estado.

 

O maior beneficiário da mudança da xadrez eleitoral é José Serra, que deve estar soltando fogos. A desidratação do inimigo é um enorme refrigério para seus planos presidenciais. Com a entrada em cena de Marina Silva, praticamente são nulas as chances de uma derrota de Serra no primeiro turno, o que seria uma humilhação. Sem o caráter plebiscitário da disputa presidencial, ficará mais fácil para Serra pescar apoios regionais em partidos que hoje fazem parte da base governista.

 

É previsível que haja uma espécie de “aliança tácita” entre Serra e Marina Silva, com vistas ao enfrentamento do inimigo comum. Dificilmente haverá um confronto entre o candidato dos tucanos e a candidata do Partido Verde. Em alguns estados, haverá pontos de contatos entre as duas candidaturas. No Rio de Janeiro, por exemplo, o palanque de Fernando Gabeira terá espaço para Serra e Marina Silva.

 

Ciro Gomes também está erguendo as mãos para os céus, porque sua candidatura presidencial recebeu uma injeção de cânfora com a mudança do xadrez eleitoral. Ele estava sendo empurrado para aventura da disputa do governo de São Paulo, para deixar o terreno livres para Dilma. Agora anuncia meia-volta. Vai mesmo para a disputa nacional. E já mudou o seu discurso. Passa a criticar a corrupção e as alianças com Sarney, Collor e Renan. Ciro quer ser o “braço esquerdo” do lulopetismo. Acredita que, por esta via, irá para o segundo turno, no lugar de Dilma. É um devaneio, mas sonhar não custa.

 

E o PMDB? Claro que seus caciques não estão achando ruim a mudança do painel político. Ora, se a eleição não será plebiscitária e se a candidatura de Dilma pode sofrer um enfraquecimento, os peemedebistas terão mais argumentos para vender mais caro sua aliança com a candidata de Lula, ou até, para retardar o desfecho do casamento, se é que, ao final, ele de fato venha a acontecer.

 

É inconteste, portanto, que a candidatura de Marina é um golpe no fígado, daqueles potentes, para Lula e Dilma. Na hora do voto, muitos petistas lembrarão que, para trair e gozar, é só coçar.



Escrito por pitacos às 13h32
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   O fim da picada

 

Há fumaça no ar.

 

As onze representações contra Sarney iriam para o espaço, em troca do arquivamento da denúncia contra Arthur Virgílio.

 

Os caminhos para sacramentar os acordos são vários. Passariam pela abertura de processos, para saciar a opinião pública. Depois haveria os arquivamentos, sob a argumentação de tecnicalidades mil.

 

O PT livraria sua barra perante a opinião pública. Votaria pela abertura de um ou mais processos contra Sarney e jogaria a culpa pelos arquivamentos no plenário do Conselho de Ética. Mãos lavadas.

 

Sarney e sua trupe seriam contemplados com uma absolvição plena. Nada do tosco senador Duque assumir a trama. O plenário do Conselho, “tecnicamente”, rejeitaria os processos.

 

Arthur Virgílio passaria incólume. Não é de todo difícil achar-se um parecer também “técnico”, que venha a livrar sua barra. Nem haveria advertência.

 

Claro, o Conselho deixaria rolar as decisões por poucas semanas, para que o Senado saísse do olho do furacão.

 

O cenário descrito acima é alardeado pela imprensa. Como sempre, há muita especulação. Mas que há fumaça, há.

 

Os formadores de opinião têm de colocar a boca no trombone. Chamar o acordão de pizza é muito pouco.

 

Arthur Virgílio está com a cabeça na guilhotina. Há chances de Sarney lhe dar um abraço de afogado, caso seja processado no Conselho de Ética, situação que ainda não pode ser descartada.

 

Arthur Virgílio colocaria em primeiro lugar a vocação de homem público, verdadeiramente compromissado com a democratização do país? Estaria disposto a assumir as consequências de ter desviado dinheiro público para atividades particulares, mesmo tendo ressarcido o Senado?

 

Seria o fim da picada as oposições jogarem fora a bandeira da republicanização do Senado.

A degola de Sarney não coloca o Senado plenamente nos trilhos da democratização das instituições brasileiras. Mas que contribui significativamente, contribui



Escrito por pitacos às 12h13
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   Marina contribui

A temática verde, a rigor, não pode ser bandeira de um partido, mas de todos. É como a questão da saúde. Seria um despropósito a existência de um Partido da Saúde ou de coisa que o valha.

 

Na prática, não é o que acontece mundo afora com os verdes, sobretudo na Alemanha.

 

A proposta verde, embora deva expressar-se em todas as agremiações políticas, tem especificidades que levam à existência de partidos temáticos, dada à centralidade da questão.

 

No Brasil, o Partido Verde ainda não adquiriu expressão nacional para sua proposta, embora cresça a cada eleição.

 

Nas demais questões políticas é um partido dividido, como não poderia deixar de ser no caso de um partido temático.

 

Na atualidade do Brasil, Há espaço para que o Partido Verde coloque a defesa do meio-ambiente no plano nacional e releve as demais questões em que possa se dividir. Goste-se ou não.

 

Essa é o caldo de cultura que permeia a filiação da ex-ministra Marina Silva ao PV e o lançamento de sua candidatura à Presidência da República.

 

O PV teria uma proposta nacional clara, levada por uma pessoa inquestionavelmente identificada com a bandeira da defesa do meio-ambiente. Adicione-se o apoio internacional que acarretaria.

 

Qual seria sua expressão em votos e na eleição de bancadas em todos os níveis? Qual seriam as consequências na redução de votos de Dilma Rouseff, e até mesmo de José Serra?

 

Pitacos abordará a questão nesses próximos dias.

 

O mais importante, porém, é a tentativa de colocação da questão ambiental no centro do debate, obrigando o candidato tucano (Serra ou Aécio) e a lulopetista Dilma Roussef a apresentar propostas claras sobre o tema.

 

Isso é Benvindo.



Escrito por pitacos às 11h28
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   Anti-fumo, nota dez, com louvor

 

Com a lei anti-fumo, Serra matou dois coelhos de uma só cajadada.

 

Em primeiro lugar, colocou a saúde pública na ordem do dia. Os malefícios do fumo adquirem dimensão de pandemia, com pesados custos para todos os níveis de governo.

 

Ninguém que não fuma pode ser exposto às consequências de quem fuma. Ponto final.

 

Nada de reprimir diretamente os usuários, pois seria praticamente impossível. A responsabilização dos donos dos estabelecimentos é uma proposta mundialmente vitoriosa. Há exceções, como no Japão, onde usuários são penalizados diretamente.

 

Os detalhes e a exequibilidade da lei são detalhes, diria o Conselheiro Acácio. Importante é a formação de uma cultura majoritária, que segregue os fumantes a espaços que não ponham em risco as demais pessoas.

 

Por outro lado, do ponto de vista político, a lei anti-fumo foi um tiro na mosca. Trata-se de uma questão que atinge e mobiliza toda a sociedade. A proibição do fumo, tal como a lei coloca, é apoiada pela esmagadora maioria da opinião pública, inclusive por parcela importante e generosa de fumantes. Desperta acaloradas discussões. Põe na ordem do dia o conceito de saúde pública, cuja defesa estende-se ao alcance de qualquer pessoa.

 

Politicamente, Serra saiu na frente. Polarizou a defesa da saúde pública, de forma concreta e imediata. Outras cidades e estados seguem na mesma trilha, mas não se fixaram como vanguarda. A liderança da cruzada anti-fumo, no plano nacional, é do governador de São Paulo, José Serra.

 

É evidente que a aprovação da lei anti-fumo, no Estado de São Paulo, não aconteceu pela busca de dividendos políticos. Mas que os trouxe, trouxe.

 

Nota dez, com louvor, para o governador de São Paulo.



Escrito por pitacos às 11h05
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   Pitacadas (segunda-feira, 10/ago/2009)


Tudo para salvar Sarney


Cadeia de comando fictícia?

 

Há poucos dias, publicamos a nota “Nem a Receita escapa” (para ler, clique aqui). Mostramos que esta importante instituição do Estado também tinha sido alvo da partidarização promovida pelo governo do presidente Lula.


Detectamos o fenômeno, mas não sabíamos que ele tinha sido tão grave, a ponto de a Receita ter sido mobilizada para blindar a figura de Sarney e “proteger” sua família. É o que nos dá conta a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, que em entrevista à Folha de São Paulo, disse ter sido convocada, no final do ano passado, para uma reunião no Palácio do Planalto. Nesta ocasião, a ministra Dilma Roussef lhe pediu para “agilizar a fiscalização do filho de Sarney”. Ou seja, facilitar-lhe a vida.
 


A Receita Federal não tem ligação funcional com a Casa Civil. É ligada diretamente ao Ministério da Fazenda. Inexiste, portanto, qualquer assunto oficial que justificasse a reunião entre a ministra e Lina Vieira. O verdadeiro motivo foi a ação clara e direta de Dilma para abafar as investigações oriundas da operação “Boi Barrica”, na qual foi arrolada a figura de Fernando Sarney, o filho-empresário do oligarca do Maranhão.


Lina Vieira captou muito bem o sentido da reunião. Em sua entrevista à Folha, disse que entendeu o pedido de Dilma como um “recado para encerrar” as investigações. Pelo visto, não é de hoje que o governo Lula dispensa a Sarney um tratamento bem diferente ao que é dado às pessoas comuns.


O precedente é gravíssimo. Quem mobiliza a máquina da Receita para “proteger” aliados, pode mobilizá-la no sentido inverso, que é o de perseguir adversários ou desafetos políticos. Se confirmadas as palavras de Lina Viera, a ministra Dilma Roussef poderá ser indiciada em crimes tipificados no Código Penal e no Estatuto do Funcionalismo Público.


Dilma nega de pés juntos que agiu de forma não republicana e que jamais convocou Lina Vieira para a tal reunião. Seria fácil esclarecer o assunto. Bastaria convocar Lina Vieira para depor numa das comissões do Senado ou em qualquer CPI relacionada ao assunto.


Isso não acontecerá porque os governistas temem que Lina Vieira revele outro fato incômodo para o governo. Tratam-se das manobras contábeis da Petrobras em uma operação de compensação tributária da ordem de R$ quatro bilhões. Lina foi defenestrada da Receita porque tornou pública esta operação, o que desagradou ao governo.




Yeda Crusius

 

 
Chantagem?


Esperamos que
não seja verdadeira a notícia divulgada no “Painel” da Folha desta segunda-feira. A governadora Yeda Crusius teria ameaçado a direção nacional do PSDB de cair atirando. Ameaçou arrastar para o lodaçal o PMDB gaúcho.

Segundo o que foi divulgado, a governadora se empenhará para implodir uma aliança do PMDB com o PSDB, caso seja apeada do poder. A arma da chantagem é típica de quem tem culpa no cartório e cai no desespero ao não ter argumentos para sua defesa.

No caso gaúcho, explicitamos nossa posição favorável à mais ampla investigação na nota “Yeda em estado agônico”, publicada há alguns meses (para ler, clique aqui). Os fatos mais recentes só indicam que é fundamental o aprofundamento das investigações, em todas as esferas. Os indícios são graves e justificam a existência de uma CPI e da ação do Ministério Público.

Yeda Crusius pode estar fazendo bom governo no terreno administrativo. Saneou as contas públicas e recuperou a capacidade de investimento do Estado do Rio Grande do Sul. Mas isto não deve servir de pretexto para o acobertamento de supostas irregularidades.

As CPIs cumprem o papel de investigação, fiscalização e proposição de medidas saneadoras e punitivas para os que resultem culpados. Isto é válido para Brasília, Porto Alegre e no Brasil afora.



Escrito por pitacos às 15h56
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   Execração pública

 

 

  

Apesar de não haver nada de novo, tem sido grande espetáculo a exposição das tramas da família Sarney, que pode ser medido pelo tempo de televisão dedicado ao assunto, o número de páginas dos principais jornais, o grande número de cartas de leitores para esses mesmos jornais. E agora? O que o PT vai fazer? E o Lula, como é que fica? É igual a acompanhar uma novela: o que fará este ou aquele personagem diante do novo fato?

 

Maurício Siaines manda sua contribuição para Pitacos, sobre o “caso Sarney” e seu significado maior.

 

Para ler, clique aqui.



Escrito por pitacos às 08h07
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