Frederico Sanches vive!
Viva! Frederico Sanches está vivinho da silva, aos 85 anos de idade. E lúcido, como sempre. Como que descobri isto? Graças a César Maia, que em seu ex-blog atirou no que viu e matou o que não viu. O ex-prefeito reproduziu em sua página a belíssima entrevista do site euronews com Jorge Semprún, uma testemunha da história. Da revolução antifranquista da Espanha dos anos 30, até os dias de hoje. Das esperanças despertadas, das frustrações acontecidas. O que tem Jorge Semprún com Frederico Sanches? Tudo. Eles são uma espécie de dois em um. Afinal de contas, se trata de uma só personagem que assumiu dois nomes, em um dado momento da história. Quanto a Jorge Semprún, César Maia reproduziu a apresentação do “euronews”, que disse muito pouco de uma personalidade tão extraordinária. O que está lá é verdade. Sémprum era um espanhol exilado na França, após a derrota da revolução republicana da Espanha. Participou da resistência francesa, quando a pátria de De Gaulle foi invadida pelas tropas nazistas de Hitler. O “euronews” não diz, mas o campo de concentração no qual Semprúm esteve confinado foi o de Buchenwald, um dos poucos em que houve uma resitência dos prisioneiros, voltada para a libertação de Buchenwald, que finalmente ocorreu com a chegada das tropas americanas. Registre-se: Jorge Semprún participou da estrutura clandestina de Buchenwald, articulada e dirigida pelos comunistas. Seu livro “Um belo domingo”, não relata muito como foi esta resistência, mas mostra bem o cotidiano de Buchenwald. Existem outras informações sobre Semprúm. Foi o roteirista de três filmes marcantes. O primeiro, “A Guerra Acabou”, dirigido por Alain Rasnain, conta a história de “Diego', um dirigente do Partido Comunista Espanhol, que tenta evitar que seus companheiros voltem para a Espanha, onde seriam exterminados pelo regime franquista. O filme mostra que a guerra tinha acabado, mas o Partido Comunista da Espanha se portava como se a vitória da Revolução Espanhola estivesse ali na esquina. Roteirista da melhor cepa, Semprún fez o roteiro de dois filmes dirigidos por Costa-Gravas: “Z” –cujo foco foi a ditadura dos coronéis da Grécia – e “Estado de Sítio”, thriller apaixonante sobre a ação dos Tupamaros, que no Uruguai sequestraram e “justiçaram” o agente da CIA Dan Mitrione, que viera para a América do Sul para ensinar às ditaduras do Cone Sul como torturar com eficácia. Onde entra Frederico Sanches nesta história toda? Calma, a gente chega lá. Além de roteirista, Semprún foi autor de dois livros históricos. O primeiro deles foi “A segunda morte de Ramon Mercader”, um dos nomes adotados pelo assassino de Trotsky, cuja identidade real até hoje é motivo de controvérsias. O Ramon Mercader de Semprún é um homem em seu final de vida e acometido de câncer e gozando de uma “aposentadoria” em Cuba, graças à sua firmeza em não revelar quem deu a ordem para o assassinato do segundo lider de revolução bolchevique de 1917. O marcante mesmo é seu outro livro: “A autobiografia de Frederico Sanches”. É aqui que as duas personalidades se encontram. Por anos a fio “Frederico Sanches” foi o nome de guerra adotado por Jorge Semprún, durante o largo período em que atuou na clandestinidade, como membro da Comissão Executiva do Comitê Central do Partido Comunista da Espanha. Semprún fez mais detrinta anos de oposição ao ditador Francisco Franco, após a derrota das forças republicanas em 1939. O que conta a “Autobiografia de Frederico Sanches?” Ela não é uma hagiografia do movimento comunista espanhol ou internacional. Ao contrário. As mazelas, para não falar nos crimes políticos e atitudes estúpidas cometidas em nome da causa, aparecem com todas as letras. Enquanto serviu à linha oficial do Partido Comunista Espanhol, Frederico Sanches foi uma figura legendária. E reverenciada. De repente, tornou-se herege, ao lado de Fernando Claudin, também membro da Executiva do PCE, autor de outra obra monumental, “A crise do Movimento Comunista Internacional”. É a partir daí que surge a saga de Frederico Sanches, que em sua autobiografia compara Dolores Ibarruri, “La Passionária”, à Nossa Senhora de Fátima, um mito cultivado em nome da historiografia oficial do movimento comunista. De forma cáustica, Semprún mostra que o mesmo culto religioso ocorria em relação a Fidel., na Cuba dos anos 70. A lâmina fria de Frederico Sanches corta na carne dos comunistas, quando relata a reunião do Comitê Central do Partido Comunista Espanhol, que redundou na sua expulsão e de Claudin. Os dois cometeram heresia. Disseram, com todas as letras, que, no final dos anos sessenta, estava em curso desenvolvimento econômico na Espanha de Franco- fenômeno que desaguaria numa Espanha democrática, sem uma ruptura violenta. Uma ousadia tão grande, como alguém da esquerda brasileira admitir que o “milagre econômico” da ditadura militar brasileira era real e não apenas uma peça de propaganda. A vida provou que Claudin e Semprún estavam certos. O desenvolvimento econômico tornou o franquismo anacrônico e assentou as bases para a Espanha desembocar na democracia. Por ironia da história, Santiago Carrilho, secretário-geral do PCE, o Torquemada da dupla Claudin-Semprún, desdisse tudo o que afirmou por décadas. Pousou de renovador, aderindo ao “eurocomunismo”, já defendido de forma consistente, bem antes, pelo Partido Comunista Italiano. As proposições e as palavras de Semprún e Claudin foram expropriadas por seus algozes, sem uma única palavra de autocrítica, numa prática que nem de longe foi restrita aos comunistas espanhóis. Antes disto, a “Santa Inquisição” de Carrilo, Dolores Ibarruri e do General Lister reuniram o Comitê Central do PCE em um castelo da então República Socialista da Checoslováquia, para expulsar os dois “heterodoxos”, que teimavam em ver a realidade tal qual ela era. Como era um partido respeitado pelo aparato internacional do movimento comunista, as reuniões da direção do PCE eram gravadas, sob a supervisão de um dos membros de seu comitê central. É nestas circunstâncias que “Frederico Sanches” pede a palavra e começa a falar sobre os crimes cometidos por Stalin, que no seu reinado interveio nos outros partidos comunistas e eliminou, fisicamente, as lideranças que se opuseram a seus ditames para o movimento comunista internacional. Muitas vezes, as vítimas sequer tinham manifestado algum grau de discordância. Elas sumiram do mapa apenas porque o “Grande Ditador” soviético achou que assim deveria ser. “Frederico Sanches” relata então o caso de um dirigente comunista tcheco, que Stalin mandou fuzilar, acusando-o de ter colaborado com o nazismo, quando estava preso no campo de concentração de Buchenwald. Jorge Semprún mostra que a acusação era uma calúnia, uma vez que ele próprio era testemunha, por estar no mesmo campo de concentração, que o comunista tcheco fuzilado era detentor de várias informações às quais o nazismo jamais teve acesso. Ou seja, ele nunca abriu a boca ou colaborou com o inimigo. A reunião é suspensa porque a pessoa que gravava a reunião cai em prantos. Passeando nos jardins, no intervalo, Semprún indaga a Claudin porque aquela companheira chorou tanto. “Você não sabia? Ela era casada com o companheiro tcheco que Stálin mandou fuzilar!” Após o intervalo, se dá a expulsão de Claudin e Semprún. Com o voto favorável da responsável pela gravação que tinha derramado lágrimas ao ver relatada a injustiça da qual foi vítima seu ex-amor assassinado por Stalin! Esse é o Frederico Sanches que agora reaparece, não como uma peça de museu, mas como alguém que continua a pensar o futuro. Mesmo aos 85 anos. Vale a pena ler sua entrevista (Clique aqui.) Houve um tempo em que muitos dos que hoje se digladiam na política brasileira estavam no mesmo barco: o da luta de um mundo melhor, mais fraterno e mais igualitário. Jorge Semprún – o nosso Frederico Sanches – continua fiel a este ideal. Podemos dizer o mesmo dos que deixaram de sonhar o sonho impossível e se dobraram ao pragmatismo? ( Tibério Canuto)
Escrito por pitacos às 10h51
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