Pitacos: política brasileira em foco
   Avacalhou geral

 

Há uma avacalhação geral da vida política nacional da qual a grande vítima é o Parlamento, que se encontra exposto à execração pública.

É verdade que o Congresso Nacional - manietado pelo Executivo graças à ação da maioria governista - não tem se dado ao respeito e tem sua parcela de culpa. Mas o grande responsável pelo clima de achincalhe que tomou conta do país é o presidente Lula.

O menor dos seus pecados é a forma debochada com que ele se referiu ao Poder Legislativo. Isto é grave e não se deve subestimar o fato de o chefe do Poder Executivo não respeitar a liturgia do cargo e tratar de forma pejorativa os senadores, tachando-os de “pizzaiolos”.

Claro que a imprecação de Lula conspira contra a harmonia entre os poderes da República e revela a sua enorme capacidade de distorcer a verdade. Afinal de contas, todas as pizzas produzidas no Congresso Nacional nos últimos seis anos ocorreram por ordem direta do palácio do Planalto e por ação da maioria parlamentar que ele construiu à base da cooptação e do clientelismo- para utilizar palavras brandas.

Não há como dissociar a degradação da vida política nacional do triste episódio do “mensalão”. A avacalhação começa aí, quando pela primeira vez na história da República aqueles que estão no Poder promoveram a compra orgânica de parlamentares e partidos. À época, o presidente foi o primeiro a dar o mal exemplo, ao distorcer a realidade e minimizar o episódio. Não satisfeito, passou a mão na cabeça da “companheirada”, que nas palavras de Lula apenas fez o que todo mundo sempre fez.

O espetáculo circense que assistimos no Senado para preservar o cargo de Sarney seria absolutamente impossível de acontecer se Renan Calheiros e o oligarca do maranhão não contassem com o enorme apoio de Lula. É daí que vem a força do todo poderoso líder do PMDB que faz e desfaz no Senado.

Renan Calheiros só escapou da degola, em 2007, porque Lula deu ordens diretas ao PT e aos partidos aliados, para preservar o mandato do senador alagoano, em nome da governabilidade. O mesmo pretexto que Lula utiliza agora para “ blindar” Sarney e ignorar que o atual presidente do Senado é hoje a maior expressão do patrimonialismo e do clientelismo da política brasileira.

Na república lulista, Collor voltou ao pícaro da glória, com direito a foto ao lado de Lula e a elogios presidenciais, em palanques oficiais. De fato, Lula não é nenhum ingrato e soube agradecer a Renan e Collor pela enorme “ajuda” que vem dando ao seu governo.

A ajuda de Renan, está na cara. Graças ao trator comandado pelo senador alagoano, o suplente do suplente do governador Sérgio Cabral foi eleito presidente do Conselho de Ética com a missão de salvar, a qualquer preço, a cabeça de Sarney.

O deboche maior da história não são as declarações de Paulo Duque, que não leva em conta a opinião pública por considerá-la volúvel. Afinal de contas, sua afirmação de que não há nada demais no clientelismo político está em absoluta sintonia com a escala de valores do governo Lula.

Não há muita diferença entre as palavras do folclórico presidente do Senado e a afirmação de Lula de que Sarney não poderia ser tratado como uma pessoa comum e que estava sendo vítima do “ denuncismo” promovido pela mídia e pela oposição.

A quem serve esta avacalhação, que transforma os brasileiros em palhaços e dilacera as instituições da República?

Não serve à democracia, que não se fortalece com o nivelamento por baixo da vida política nacional.

Mas ela beneficia alguns. Afinal de contas, se não há mais fronteira ética na política, nada mais natural do que Lula andar de braços dados com Renan, Collor e Sarney. Isto cai como uma luva para o cesarismo de Lula, para que ele possa exercer o poder absoluto diante de instituições fragilizadas, como vem acontecendo com o Parlamento brasileiro.



Escrito por pitacos às 11h28
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   Pitacadas (15/07/2009)

Não é cachorro morto

 

Sarney está nas cordas, acuado.

 

As denúncias e a ação dos senadores de oposição, e de alguns da situação, praticamente inviabilizaram politicamente o ex-presidente, como um dos condutores da “governabilidade” e da aliança majoritária do PMDB com Dilma Rouseff.

 

Sarney, no entanto, é do ramo. Jogou na opinião pública a anulação de todos os atos secretos no Senado.

 

Obviamente tal medida é inviável, se tomada de chofre. Precisa ser aprovada pela Mesa do Senado, que terá de examinar cada decreto individualmente. Seus posicionamentos têm de basear-se nos conselhos ponderados da assessoria jurídica.

 

Qualquer medida de afogadilho pode desencadear uma enxurrada de recursos judiciais, que certamente acarretarão despesas ainda maiores para a Viúva.

 

Imagine-se um decreto que demitiu funcionários. Se ele for anulado, esses funcionários retornarão ao Senado? Surrealismo completo.

 

Sarney está se lixando para a posição da Mesa, ou para os recursos judiciais. Sabe, mais do que ninguém, da inviabilidade da medida que tomou.

 

Seu objetivo é retirar de seu colo a “defesa” dos atos secretos. Não engana a parcela da população mais bem informada. Nem os formadores de opinião.

 

As arquibancadas e a geral são outra história.....

 

Escárnio

 

Num discurso em Alagoas, Lula defendeu com todas as letras a candidatura de Dilma Roussef. Fazer sua “sucessora” é mais do que líquido e certo.

 

É a enésima vez que o Presidente faz campanha eleitoral no uso de seu cargo.

 

É a enésima vez que faz apropriação privada de recursos públicos. Sem subterfúgios, a máquina pública é sob a luz dos holofotes, câmeras e microfones, a serviço de um ente privado, o Partido dos Trabalhadores.

 

O Supremo Tribunal Eleitoral faz vista grossa?

 

Até as pedras do Anhangabaú sabem da resposta. Será que ele teme uma presidência com grande expressão na sociedade? Será que ele precisa ser provocado, com competência jurídica, para decidir-se em defesa da legislação eleitoral?

 

É absurda a proibição de campanha antes dos tais três meses anteriores às eleições. Essa legislação beneficia quem está no governo. Barack Obama, por exemplo, começou sua campanha eleitoral dois anos antes do pleito.

 

O que está em jogo não é o prazo das campanhas. Essa é uma segunda questão.

 

A questão de princípio é o uso de recursos públicos da presidência para campanha eleitoral. Lula estava em Alagoas, supostamente, para inaugurar obras e comunicar atividades da presidência.

 

As oposições devem travar uma guerra de posições. A questão não é provocar o TSE e vencer, mas demarcar posições, conceitos e, com apoio da opinião pública, trazer Lula e seu séquito para os limites da República. O TSE, provocado e pressionado, poderá agir de acordo com suas funções constitucionais. E ouvir as pedras do Anhangabaú.

 

Lições do Norte

 

Para quem acha que o governo Obama é só retórica, os acontecimentos recentes em relação ao serviço secreto devem mexer com “as lamparinas do juízo”, expressão em voga em certa novela.

 

Na luta contra o terrorismo, Bush deu carta-branca às ações secretas da CIA e demais agências. Leia-se, liberdade para matar, torturar, agir em países estrangeiros à revelia de seus governos, etc.

 

Criou-se um poder paralelo, à revelia do Congresso e do Judiciário e de toda a legislação norte-americana.

 

Esse braço clandestino age, a princípio, contra o terror islâmico fundamentalista. Onde termina, ninguém sabe. É mais do que o ovo da serpente. Isso sem falar nos crimes contra a humanidade.

 

A pressão do Congresso e do Judiciário dos Estados Unidos é para por um fim nas atividades secretas não autorizadas e não controladas, bem como para punir os responsáveis. Na punição, Obama balança, mas é colocado cada vez mais contra a parede.

 

O resultado dessa batalha ainda é incerto, no que diz respeito à punição dos responsáveis.

 

Já na terra da jaboticaba os serviços secretos subordinados ao Executivo não têm licença para matar. No mais, agem quase livremente. A operação Satiagraha está aí para não nos desmentir.

 

O Congresso brasileiro estabeleceu algum limite? O judiciário enquadrou os agentes do governo?

 

Nem tudo o que é bom para o Norte é bom para o Brasil, diria o Conselheiro Acácio. Esse personagem de Eça de Queiroz acrescentaria, com toda certeza, que não é bem assim.



Escrito por pitacos às 12h47
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   Frederico Sanches vive!

 

 

 

Viva! Frederico Sanches está vivinho da silva, aos 85 anos de idade. E lúcido, como sempre. Como que descobri isto?

 

Graças a César Maia, que em seu ex-blog atirou no que viu e matou o que não viu. O ex-prefeito reproduziu em sua página a belíssima entrevista do site euronews com Jorge Semprún, uma testemunha da história. Da revolução antifranquista da Espanha dos anos 30, até os dias de hoje. Das esperanças despertadas, das frustrações acontecidas.

 

O que tem Jorge Semprún com Frederico Sanches? Tudo. Eles são uma espécie de dois em um. Afinal de contas, se trata de uma só personagem que assumiu dois nomes, em um dado momento da história.

 

Quanto a Jorge Semprún, César Maia reproduziu a apresentação do “euronews”, que disse muito pouco de uma personalidade tão extraordinária. O que está lá é verdade. Sémprum era um espanhol exilado na França, após a derrota da revolução republicana da Espanha. Participou da resistência francesa, quando a pátria de De Gaulle foi invadida pelas tropas nazistas de Hitler.

 

O “euronews” não diz, mas o campo de concentração no qual  Semprúm esteve confinado  foi o de Buchenwald, um dos poucos em que houve uma resitência dos prisioneiros, voltada para a libertação de Buchenwald, que finalmente ocorreu  com a chegada das tropas americanas. Registre-se: Jorge Semprún participou da estrutura clandestina de Buchenwald, articulada e dirigida pelos comunistas. Seu livro “Um belo domingo”, não relata muito como foi esta resistência, mas mostra bem o cotidiano de Buchenwald.

 

Existem outras informações sobre Semprúm. Foi o roteirista de três filmes marcantes. O primeiro, “A Guerra Acabou”, dirigido por Alain Rasnain, conta a história de “Diego', um dirigente do Partido Comunista Espanhol, que tenta evitar que seus companheiros voltem para a Espanha, onde seriam exterminados pelo regime franquista. O filme mostra que a guerra tinha acabado, mas o Partido Comunista da Espanha se portava como se a vitória da Revolução Espanhola estivesse ali na esquina.

 

Roteirista da melhor cepa, Semprún fez o roteiro de dois filmes dirigidos por Costa-Gravas: “Z” –cujo   foco foi  a ditadura dos coronéis da Grécia – e “Estado de Sítio”, thriller apaixonante sobre a ação dos Tupamaros, que no Uruguai sequestraram e “justiçaram” o agente da CIA Dan Mitrione, que viera para a América do Sul para ensinar às ditaduras do Cone Sul como torturar com eficácia.

 

Onde entra Frederico Sanches nesta história toda? Calma, a gente chega lá.

 

Além de roteirista, Semprún foi autor de dois livros históricos. O primeiro deles foi “A segunda morte de Ramon Mercader”, um dos nomes adotados pelo assassino de Trotsky, cuja identidade real até hoje é motivo de controvérsias. O Ramon Mercader de Semprún é um homem em seu final de vida e acometido de câncer e gozando de uma “aposentadoria” em Cuba, graças à sua firmeza em não revelar quem deu a ordem para o assassinato do segundo lider de revolução bolchevique de 1917.

 

O marcante mesmo é seu outro livro: “A autobiografia de Frederico Sanches”. É aqui que as duas personalidades se encontram. Por anos a fio “Frederico Sanches” foi o nome de guerra adotado por Jorge Semprún, durante o largo período em que atuou na clandestinidade, como membro da Comissão Executiva do Comitê Central do Partido Comunista da Espanha. Semprún fez mais  detrinta anos de oposição ao ditador Francisco Franco, após a derrota das forças republicanas em 1939.

 

O que conta a “Autobiografia de Frederico Sanches?” Ela não é uma hagiografia do movimento comunista espanhol ou internacional. Ao contrário. As mazelas, para não falar nos crimes políticos e atitudes estúpidas cometidas em nome da causa, aparecem com todas as letras.

 

Enquanto serviu à linha oficial do Partido Comunista Espanhol, Frederico Sanches foi uma figura legendária. E reverenciada.

 

De repente, tornou-se herege, ao lado de Fernando Claudin, também membro da Executiva do PCE, autor de outra obra monumental, “A crise do Movimento Comunista Internacional”.

 

É a partir daí que surge a saga de Frederico Sanches, que em sua autobiografia compara Dolores Ibarruri, “La Passionária”,  à Nossa Senhora de Fátima, um mito cultivado em nome da historiografia oficial do movimento comunista. De forma cáustica, Semprún mostra que o mesmo culto religioso ocorria em relação a Fidel., na Cuba dos anos 70.

 

A lâmina fria de Frederico Sanches corta na carne dos comunistas, quando relata a reunião do Comitê Central do Partido Comunista Espanhol, que redundou na sua expulsão e de Claudin.

 

Os dois cometeram heresia. Disseram, com todas as letras, que, no final dos anos sessenta, estava em curso desenvolvimento econômico na Espanha de Franco- fenômeno que desaguaria numa Espanha democrática, sem uma ruptura violenta. Uma ousadia tão grande, como alguém da esquerda brasileira admitir que o “milagre econômico” da ditadura militar brasileira  era real e não apenas uma peça de propaganda.

 

A vida provou que Claudin e Semprún estavam certos. O desenvolvimento econômico tornou o franquismo anacrônico e assentou as bases para a Espanha desembocar na democracia. Por ironia da história, Santiago Carrilho, secretário-geral do PCE, o Torquemada da dupla Claudin-Semprún, desdisse tudo o que afirmou por décadas. Pousou de renovador, aderindo ao “eurocomunismo”, já defendido de forma consistente, bem antes, pelo Partido Comunista Italiano. As proposições e as palavras de Semprún e Claudin foram expropriadas  por seus algozes, sem uma única palavra de autocrítica, numa prática que nem de longe foi restrita aos comunistas espanhóis.

 

Antes disto, a “Santa Inquisição”  de Carrilo, Dolores Ibarruri e do General Lister reuniram  o Comitê Central do PCE em um castelo da então República Socialista da Checoslováquia, para expulsar os dois “heterodoxos”, que teimavam em ver a realidade tal qual ela era.

 

Como era um partido respeitado pelo aparato internacional do movimento comunista, as reuniões da direção  do PCE eram gravadas, sob a supervisão de um dos membros de seu comitê central.

 

É nestas circunstâncias que “Frederico Sanches” pede a palavra e começa a falar sobre os crimes cometidos por Stalin, que no seu reinado interveio nos outros partidos comunistas e eliminou, fisicamente, as lideranças que se opuseram a seus ditames para o movimento comunista internacional. Muitas vezes, as vítimas sequer tinham manifestado algum grau de discordância. Elas sumiram do mapa apenas porque o “Grande Ditador” soviético achou que assim deveria ser.

 

“Frederico Sanches” relata então o caso de um dirigente comunista tcheco, que Stalin mandou fuzilar, acusando-o de ter colaborado com o nazismo, quando estava preso no campo de concentração de Buchenwald. Jorge Semprún mostra que a acusação era uma calúnia, uma vez que ele próprio era testemunha, por estar no mesmo campo de concentração, que o comunista tcheco fuzilado era detentor de várias informações às quais  o nazismo jamais teve acesso. Ou seja, ele nunca abriu a boca ou colaborou com o inimigo.

 

A reunião é suspensa porque a pessoa que gravava a reunião cai em prantos. Passeando nos jardins, no intervalo, Semprún indaga a Claudin porque aquela companheira chorou tanto. “Você não sabia? Ela era casada com o companheiro tcheco que Stálin mandou fuzilar!” Após o intervalo, se dá a expulsão de Claudin e Semprún. Com o voto favorável da responsável pela gravação que tinha derramado lágrimas ao ver relatada a injustiça da qual foi vítima seu ex-amor assassinado por Stalin!

 

Esse é o Frederico Sanches que agora reaparece, não como uma peça de museu, mas como alguém que continua a pensar o futuro. Mesmo aos 85 anos. Vale a pena ler sua entrevista (Clique aqui.)

 

Houve um tempo em que muitos dos que hoje se digladiam na política brasileira estavam no mesmo barco: o da luta de um mundo melhor, mais fraterno e mais igualitário. Jorge Semprún – o nosso Frederico Sanches – continua fiel a este ideal. Podemos dizer o mesmo dos que deixaram de sonhar o sonho impossível e se dobraram ao pragmatismo? ( Tibério Canuto)



Escrito por pitacos às 10h51
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