Plano Real: antes e depois dele
 "Aqui jaz a moeda que acumulou, de julho de 1965 a junho de 1994, uma inflação de 1,1 quatrilhão por cento. Sim, inflação de 16 dígitos, em três décadas. Ou precisamente, um IGP-DI de 1.142.332.741.811.850%. Dá para decorar? Perdemos a noção disso porque realizamos quatro reformas monetárias no período e em cada uma delas deletamos três dígitos da moeda nacional. Um descarte de 12 dígitos no período. Caso único no mundo, desde a hiperinflação alemã dos anos 20." Joelmir Beting Dois foram os principais acontecimentos da segunda metade do século passado, em nosso país: a redemocratização e o fim da inflação. O fim da ditadura militar retomou o longo caminho da construção da democracia brasileira. Instauraram-se as mais amplas liberdades democráticas de nossa história, em todos os planos, apesar de todos os entraves amplamente conhecidos. O período da redemocratização marcou-se, no terreno econômico, pela agudização do processo inflacionário. Nesta quarta-feira, 1º de julho de 2009, completam-se quinze anos do início da vigência do Real. A inflação nos anos noventa era quase de três dígitos ao mês e de quatro dígitos ao ano. A grande maioria da população recebia vencimentos fixos e os viam derreter-se ao longo dos dias e meses, até serem reajustados pela inflação passada, sem restituirão do que se perdera para trás. A corrida recomeçava num ciclo infindável. O extrato superior da sociedade possuía ativos que podiam beneficiar-se da inflação, tais como imóveis, moedas estrangeiras e aplicações diárias no sistema financeiro. Quem não lembra do overnight, exclusivo para os que possuíam moeda nacional em determinada quantia? Da noite para o dia, rendiam percentuais hoje quase vigentes anualmente. O governo também perdia vultosas quantias, porque recebia valores fixos, degradados. Sua capacidade de investimento reduzia-se na exata medida dos índices inflacionários. As pessoas comuns, assalariadas ou com baixos rendimentos, eram obrigadas a aplicar o que recebiam imediatamente, em bens de consumo, cujo valor de face crescia a cada dia, às vezes mais de uma vez por dia. O ruído das máquinas remarcadoras nos supermercados era o símbolo dessa era. A transferência brutal de renda dos mais pobres para os mais ricos, dos setores produtivos e comerciais para o sistema financeiro e para os aplicadores individuais continha um bomba atômica, a ser detonada no médio prazo. Eram impossíveis os investimentos em massa, tanto do Estado, quanto da iniciativa privada. Mesmo para as grandes empresas, as perdas eram enormes. Ativos em moeda forte evaporavam-se quando convertidos em moeda nacional, apesar do overnight e de toda sorte de proteção para as grandes somas. Este ciclo começou a ser quebrado no governo de Itamar Franco, sob a liderança de seu ministro da economia, Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente teve um papel importante, por dar todo apoio e cobertura a seu Ministro da Fazenda e por ter concordado com a política econômica implantada. Em 1994 o ex-ministro de Itamar Franco foi eleito Presidente da República, numa aliança sob a hegemonia do PSDB. Ao contrário das tentativas anteriores frustradas de debelar a inflação, o Plano Real foi brilhante, do ponto de vista técnico. Fernando Henrique Cardoso e sua equipe de economistas tucanos implantou o plano por fases, que o tornou viável no curto prazo, com massivo apoio da população. A moeda intermediária, ORTN, Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional, construiu a paridade entre os custos, salários e vencimentos, até que tornou possível o Real. A população progressivamente sentiu o gosto da moeda que tinha no bolso. O resto da história é conhecido. O símbolo concreto do Real foi o frango. Seu consumo explodiu. Dezenas de milhões de brasileiros passaram a ter acesso à proteína animal, pela primeira vez na "história destepaiz", nesta escala. De janeiro a julho de 1994 a inflação acumulada foi de 815,60%. A primeira inflação registrada sob a nova moeda foi de 6,08%. Mesmo oscilando e atingindo dois dígitos anuais em alguns anos posteriores, o ciclo inflacionário tinha sido posto abaixo. O posterior mais importante foi a Lei de Responsabilidade Fiscal, que estancou os gastos desproporcionais às arrecadações dos governos municipais e estaduais. O Plano Real não foi perfeito nem acabado. O câmbio flutuante, por exemplo, só foi implantado anos depois, no auge de uma mega crise da economia internacional. Lula e seu PT, para variar, foram contra o Plano Real e também contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Tachavam o Plano de irreal. Beneficiaria o patronato, pela limitação nominal dos salários dos trabalhadores. Tiveram de se calar, tamanho o apoio popular ao Plano. Se mais nada realizassem, Fernando Henrique Cardoso e os tucanos passariam à história como aqueles que debelaram, em favor da população e do Brasil, o maior processo de transferência de renda, dos pobres para os mais ricos, em toda a nossa história. Paralelo deste processo perverso só pode ser encontrado na Alemanha pré-nazista. Esse crédito incorporou-se à história do Brasil.
Escrito por pitacos às 11h03
[]
[envie esta mensagem]
|