Pedras no caminho

Não há apenas uma pedra no meio do caminho da candidatura de Dilma, mas várias. Não se pode dizer que a maior delas é o estado de saúde da Ministra. Sem sombra de dúvidas, a doença não é apenas uma pedra no caminho. É também uma espada de Dêmocles sobre sua cabeça, tais as incertezas que gera quanto ao futuro político da Ministra. Mesmo que esse problema seja superado, existem outras pedras de difícil transposição. Entre elas, as dificuldades para construir palanques regionais necessários à sustentação de uma candidatura que se encontra fragilizada. A situação de Dilma é inteiramente diferente da de Lula, quando disputou, e venceu, as duas últimas eleições presidenciais. Por ter uma relação direta com o eleitor e ser detentor de uma popularidade imensa, Lula se elegeu por duas vezes sem depender diretamente de palanques regionais substantivos. Aliás, o que se viu foi o contrário. Seu favoritismo atraiu o apoio de candidaturas estaduais competitivas, que ficaram ao seu lado para não se colocarem na contramão do eleitorado. Em 2002, Serra foi rifado por candidatos a governador que no início estavam em sua campanha. O mesmo aconteceu na disputa com Alckmin. No caso de Dilma, o que se vê é o inverso. Ela não tem vôo próprio, em matéria de densidade eleitoral. Sua candidatura depende de Lula e da construção de palanques regionais sólidos, o que a faz refém do PMDB. É uma baita pedra no caminho. Até por ser uma federação de caciques regionais, o PMDB define seu posicionamento a partir dos seus interesses estaduais, guiados pela lógica do pragmatismo. Hoje, como informa o blog de Josias, a maioria das seções estaduais do PMDB tende a cair no colo de Serra. Esta mesma avaliação foi passada para Lula, por Michel Temer e pelo líder da bancada peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves. Em vários estados o PT e o PMDB são dois bicudos que não se beijam e estarão em palanques opostos na disputa dos governos estaduais, chova ou faça sol. Além do fator local, pesa também o “realismo político” dos caciques do PMDB, que querem sempre ficar ao lado do vencedor. No seu cálculo político certamente eles estão levando em consideração a avaliação do presidente do IBOPE, segundo a qual 2010 será a vez de Serra, assim como 2002 foi a vez de Lula. Hoje Dilma teria o apoio do PMDB em apenas quatro estados - Ceará, Goiás, Amazonas e Piauí. No palanque de Serra é praticamente certo que estarão as seções peemedebistas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Paraná, dentre outras. Para reverter tais apoios ou para evitar que Serra conquiste o apoio dos peemedebistas de outros estados, Lula e Dilma teriam que dar a garantia de que o PT não lançará candidatos em estados estratégicos – como Minas, Rio, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, só para citar alguns – em troca do apoio do PMDB à candidatura do Planalto. Esta posição é defendida por Lula e por figuras como Berzoini, José Dirceu, Eduardo Cardoso e Cândido Vacarezza, que pregam a prioridade da disputa nacional e a subordinação dos estados ao interesse maior, a eleição de Dilma. Do ponto de vista do projeto de poder do lulopetismo, é uma estratégia correta. O que não quer dizer que seja exeqüível Por mais que seja um partido centralizado, o PT não está imune às realidades locais. É praticamente impossível, por exemplo, enquadrar os petistas gaúchos para que eles desistam da candidatura de Tarso Genro. O mesmo se aplica ao PT catarinense de Ideli Salvatti, que vive às turras com o PMDB do governador Luiz Henrique. E pode o PT de Minas, uma das seções mais fortes do partido, deixar de ter candidato próprio a governador? É tarefa para leão convencer os petistas mineiros que o melhor é apoiar Hélio Costa. Provavelmente, nem mesmo Sérgio Cabral – o maior lulista entre os peemedebistas - terá o apoio do PT do Rio de Janeiro, que deve lançar a candidatura de Lindemberg Faria. No limite, Dilma poderá ter dois palanques no Rio, mas isto será a exceção e não a regra. Se o atual quadro persistir e o PMDB e o PT estiverem em palanques opostos nas disputas dos estados, a tendência é que o mesmo aconteça quanto ao palanque nacional. Como profissionais da política, a cúpula peemedebista tem plena consciência das pedras que existem no meio do caminho de Dilma. Dirão que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Continuarão na base do governo até 2010, cobrando caro, é claro. Mas não assumirão, por enquanto, qualquer compromisso em relação à candidatura de Dilma. Os caciques do PMDB querem ficar com as mãos livres para saber para que lado o vento soprará. Quanto a Dilma, ela que descasque os abacaxis.
Escrito por pitacos às 14h20
[]
[envie esta mensagem]
|