Briga besta

Foi inteiramente inoportuno o arranca-rabo, ao vivo e a cores, entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa. Urge a entrada dos bombeiros em campo para que esta briga não corroa a credibilidade que o Poder Judiciário conquistou nos últimos anos. Bem ou mal, as instâncias superiores da Justiça, particularmente o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal, passaram ao largo da crise moral e ética que atingiu o Parlamento e o Executivo, cuja expressão maior foi o episódio do “mensalão”. Mais do que isto. Em pleno tempo de aviltamento dos valores republicanos, as instâncias superiores da Justiça tomaram decisões históricas que contribuíram para a moralização dos costumes políticos e vida pública do país. O TSE pôs um freio no troca-troca partidário, inibiu a utilização do Caixa 2, que até antes do “mensalão” era ampla, geral e irrestrita, e cassou mandatos de governadores acusados de corrupção eleitoral. Foi uma faxina incompleta, mas representou um grande avanço. Quando provocada, a Suprema Corte avalizou tais decisões da Justiça Eleitoral. Mas a contribuição do Supremo Tribunal Federal não se limitou a isso. Fez história quando o seu plenário aprovou o relatório do ministro Joaquim Barbosa sobre o episódio do “mensalão”, assim como contribuiu para o amadurecimento da sociedade no julgamento da utilização das células-tronco embrionárias e mesmo no julgamento da Reserva Raposa Serra do Sol, quando preservou a soberania nacional. Com Gilmar Mendes na presidência, consolidou-se na Suprema Corte uma maioria que entende como papel essencial do STF a preservação dos direitos individuais assegurados pela Constituição. Sua atuação aguerrida pode ter desagradado a açodados delegados, promotores e juízes, mas foram fundamentais para coibir os abusos cometidos pela Polícia Federal e por outras autoridades e instituições. Talvez isso explique em parte as ásperas palavras do ministro Joaquim Barbosa. Em certo sentido, ele expressou a insatisfação das autoridades que vinham atuando ao arrepio da lei e que ficaram limitados em sua ação graças à atuação de Gilmar Mendes. É simplismo dizer que Gilmar Mendes é o representante de Fernando Henrique na Suprema Corte e que Joaquim Barbosa representa o presidente Lula. A divergência entre os dois não é política, mas sim sobre qual deve ser a linha jurídica adotada pelo Supremo Tribunal Federal. O ministro Joaquim Barbosa é adepto de uma linha de que se “ouça o clamor popular” e que o STF deve ser “flexível” em seus julgamentos para que não iniba a ação da polícia Federal e do Ministério Público. No limite, tal posição pode levar ao “populismo judicial” e à violação dos direitos individuais. Não há nada de grave no fato de ministros do STF terem concepções jurídicas diferenciadas. Pode até ser salutar porque estimula o debate e evita uma postura monolítica. Como é normal e rotineiro nas instituições democráticas, as divergências devem ser enfrentadas no voto. No caso do STF, através da votação em plenário de cada caso julgado. O que deve ser evitado a todo custo é a troca de insultos e agressões verbais entre ministros, que em nada contribuem para as atividades próprias da Justiça, nem para a consolidação das instituições democráticas no geral. A “fulanização” do enfrentamento verbal ou, o pior, sua falsa politização chegam ao mesmo porto, que é a tentativa de nivelamento por baixo da crise moral entre os poderes e autoridades públicas federais. Já chega a crise do Poder Legislativo, cujas vísceras estão expostas a oitenta dias. Brincam com fogo tentativas de arrastar para a crise o Judiciário. Isto pode ser bom para Lula, que assiste de camarote o esgarçamento da imagem dos outros dois poderes, enquanto vende a imagem de que seu governo trata adequadamente a superação da crise econômica e está “acima da carne seca”. Há risco de a crise moral contaminar o Supremo Tribunal Federal, criando o caldo de cultura para o enfraquecimento em larga escala da institucionalidade democrática. É tudo que não interessa ao país em meio à crise econômica planetária e às vésperas do processo sucessório. É hora, pois, de por um freio nesta briga besta.
Escrito por pitacos às 11h35
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