A reabilitação de Palocci
 A história do comunismo é cheia de exemplos de personagens que entraram em desgraça e foram reabilitados mais adiante.
Kruschev, por exemplo, promoveu a reabilitação de várias vítimas de Stalin. Muitas delas postumamente, porque já tinha sido assassinadas, como foi o caso de Bukharin. Na China maoísta, o pragmático Deng Hao Ping revelou ter fôlego de sete gatos. Caiu em desgraça e foi reabilitado em quatro ocasiões. Ao final, entrou para a história como o pai das quatro modernizações que transformaram a China em uma potência mundial. Há um traço comum entre todos os comunistas reabilitados: não cometeram os crimes dos quais eram acusados e foram apeados do poder por divergência política. No mais das vezes, foram vítimas de perseguições, calúnias e, em certos casos, de torturas. Suas reabilitações representaram, portanto, a reparação de injustiças e a restauração da verdade, tão necessárias para o acerto com a história. Não há a mais leve semelhança entre a nobreza de tais reabilitações e o movimento revisionista patrocinado pelo PT para reabilitar seus quadros, que foram para o limbo em função de sua participação em escândalos. Peguemos o caso do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci. O Partido dos Trabalhadores quer vê-lo no primeiro time do lulopetismo, independentemente do julgamento do Superior Tribunal Federal sobre a sua participação na quebra do sigilo do caseiro Nildo. Ao contrário dos dissidentes soviéticos, Palocci não é nenhum inocente. São fortes as impressões digitais que o ligam a este crime, assim como são robustas as evidências de irregularidades cometidas por sua turma, quando ele era Prefeito de Ribeirão Preto. Mas quem disse que o PT está preocupado com essa questão moral? Assim como no caso de Delúbio, o que a cúpula petista analisa é qual o momento político mais oportuno para promover o retorno dos “companheiros que cometeram crimes em nome da causa. Quanto a Delúbio Soares, há dúvidas se a sua “reabilitação” não seria uma afronta à sociedade e se não traria prejuízos para o projeto maior: a eleição de Dilma. No caso de Palocci, a avaliação é que vale a pena correr o risco de pisar no acelerador e lançar a sua candidatura a governador de São Paulo, antes mesmo de seu julgamento pelo STF. É uma guinada a tática preconizada por Lula, segundo a qual a candidatura do seu ex-ministro da Fazenda só deveria ser lançada se ele fosse absolvido pela Corte Suprema. Dá para entender porque o PT está querendo queimar etapas na reabilitação de Palocci. Em São Paulo, os petistas estão órfãos em matéria de candidato competitivo ao governo do Estado. Marta simboliza a derrota antecipada. Zé Dirceu, Genoíno e Mercadante foram tragados pelos escândalos. Quem restou? Restaram nomes de densidade eleitoral zero, tipo Fernando Haddad ou o prefeito de Osasco, Emídio de Souza. Ou seja, ao PT não resta muitas alternativas a não ser a de correr o risco de Palocci, na esperança de que ele reconstrua as pontes com as camadas médias que Marta Suplicy tanto se esmerou em implodir. A favor da candidatura do ex-ministro da Fazenda de Lula, pesa o fato de que ele é muito bem quisto pelo pessoal da Avenida Paulista, particularmente pelo restrito time do sistema financeiro. Outra vantagem: seu nome unifica as diversas correntes do PT paulista, porque evita que o candidato do partido seja um “estranho no ninho”, tipo Fernando Haddad. Mesmo assim é uma jogada de alto risco, fruto da estratégia do “seja o que Deus quiser.” Palocci tem um enorme telhado de vidro e não será fácil se livrar da imagem de que foi o responsável pela violência cometida contra o caseiro Nildo. As barbaridades cometidas pela “República de Ribeirão Preto” serão relembradas na campanha eleitoral. Sem dúvida, elas provocarão náuseas nos eleitores das camadas médias e nos formadores de opinião. Sem contar que do outro lado estará uma candidatura respaldada pela aliança entre o PSDB, PMDB, DEM, PTB, PV, PPS e outros partidos. Imaginem a suadeira de Palocci se o candidato de Serra for Geraldo Alckmin... Voltemos ao início desta nota. De fato a reabilitação de Palocci não pode ser equiparada ao que aconteceu nos partidos comunistas que galgaram o poder. Nestes, ainda que de forma tardia, fez-se justiça. No caso do ex-ministro de Lula, sua reabilitação é um prêmio à impunidade. É, também, mais uma gorda contribuição do PT ao rebaixamento da moral na política a zero.
Escrito por pitacos às 00h21
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