Pitacos: política brasileira em foco
  

 



Escrito por pitacos às 11h36
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   A reabilitação de Palocci

 


A história do comunismo é cheia de exemplos de personagens que entraram em desgraça e foram reabilitados mais adiante.

Kruschev, por exemplo, promoveu a reabilitação de várias vítimas de Stalin. Muitas delas postumamente, porque já tinha sido assassinadas, como foi o caso de Bukharin.

Na China maoísta, o pragmático Deng Hao Ping revelou ter fôlego de sete gatos. Caiu em desgraça e foi reabilitado em quatro ocasiões. Ao final, entrou para a história como o pai das quatro modernizações que transformaram a China em uma potência mundial.

Há um traço comum entre todos os comunistas reabilitados: não cometeram os crimes dos quais eram acusados e foram apeados do poder por divergência política. No mais das vezes, foram vítimas de perseguições, calúnias e, em certos casos, de torturas.

Suas reabilitações representaram, portanto, a reparação de injustiças e a restauração da verdade, tão necessárias para o acerto com a história.

Não há a mais leve semelhança entre a nobreza de tais reabilitações e o movimento revisionista patrocinado pelo PT para reabilitar seus quadros, que foram para o limbo em função de sua participação em escândalos.

Peguemos o caso do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci. O Partido dos Trabalhadores quer vê-lo no primeiro time do lulopetismo, independentemente do julgamento do Superior Tribunal Federal sobre a sua participação na quebra do sigilo do caseiro Nildo.

Ao contrário dos dissidentes soviéticos, Palocci não é nenhum inocente. São fortes as impressões digitais que o ligam a este crime, assim como são robustas as evidências de irregularidades cometidas por sua turma, quando ele era Prefeito de Ribeirão Preto.

Mas quem disse que o PT está preocupado com essa questão moral? Assim como no caso de Delúbio, o que a cúpula petista analisa é qual o momento político mais oportuno para promover o retorno dos “companheiros que cometeram crimes em nome da causa.

Quanto a Delúbio Soares, há dúvidas se a sua “reabilitação” não seria uma afronta à sociedade e se não traria prejuízos para o projeto maior: a eleição de Dilma.

No caso de Palocci, a avaliação é que vale a pena correr o risco de pisar no acelerador e lançar a sua candidatura a governador de São Paulo, antes mesmo de seu julgamento pelo STF. É uma guinada a tática preconizada por Lula, segundo a qual a candidatura do seu ex-ministro da Fazenda só deveria ser lançada se ele fosse absolvido pela Corte Suprema.

Dá para entender porque o PT está querendo queimar etapas na reabilitação de Palocci. Em São Paulo, os petistas estão órfãos em matéria de candidato competitivo ao governo do Estado. Marta simboliza a derrota antecipada. Zé Dirceu, Genoíno e Mercadante foram tragados pelos escândalos. Quem restou?

Restaram nomes de densidade eleitoral zero, tipo Fernando Haddad ou o prefeito de Osasco, Emídio de Souza. Ou seja, ao PT não resta muitas alternativas a não ser a de correr o risco de Palocci, na esperança de que ele reconstrua as pontes com as camadas médias que Marta Suplicy tanto se esmerou em implodir.

A favor da candidatura do ex-ministro da Fazenda de Lula, pesa o fato de que ele é muito bem quisto pelo pessoal da Avenida Paulista, particularmente pelo restrito time do sistema financeiro. Outra vantagem: seu nome unifica as diversas correntes do PT paulista, porque evita que o candidato do partido seja um
“estranho no ninho”, tipo Fernando Haddad.

Mesmo assim é uma jogada de alto risco, fruto da estratégia do “seja o que Deus quiser.” Palocci tem um enorme telhado de vidro e não será fácil se livrar da imagem de que foi o responsável pela violência cometida contra o caseiro Nildo. As barbaridades cometidas pela “República de Ribeirão Preto” serão relembradas na campanha eleitoral. Sem dúvida, elas provocarão náuseas nos eleitores das camadas médias e nos formadores de opinião.

Sem contar que do outro lado estará uma candidatura respaldada pela aliança entre o PSDB, PMDB, DEM, PTB, PV, PPS e outros partidos. Imaginem a suadeira de Palocci se o candidato de Serra for Geraldo Alckmin...

Voltemos ao início desta nota. De fato a reabilitação de Palocci não pode ser equiparada ao que aconteceu nos partidos comunistas que galgaram o poder. Nestes, ainda que de forma tardia, fez-se justiça.

No caso do ex-ministro de Lula, sua reabilitação é um prêmio à impunidade. É, também, mais uma gorda contribuição do PT ao rebaixamento da moral na política a zero.



Escrito por pitacos às 00h21
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   Triste sina do Maranhão

Triste sina do Maranhão, um Estado azarado, sem dúvidas. Por mais de quarenta anos foi uma espécie de quintal do clã dos Sarney, que mandava e desmandava na política local.

Sob o tacão da família Sarney, o Maranhão não se desenvolveu e virou campeão nacional em alguns indicadores de miséria e de pobreza.

Finalmente eles foram apeados do poder em 2006, com a eleição de Jackson Lago. Foi um sopro de esperança quanto às possibilidades de o Maranhão deixar de ser refém do coronelismo e ingressar na modernidade.

Dois anos após a sua posse, Jackson Lago dá demonstrações exaustivas do quanto  está longe de ser o que dele se esperava.

Prestes a perder o poder, porque o Tribunal Superior Eleitoral cassou o seu mandato por abuso de poder econômico, o atual governador partiu para dilapidar as finanças do Maranhão e queimar suas reservas de 600 milhões, para que sua substituta, Roseana Sarney, encontre o cofre vazio quando assumir o cargo, por decisão da Justiça.

No alto da sua irresponsabilidade, Jackson Lago deu aumento  salarial de 100% aos professores do Estado e passou a inaugurar obras inacabadas, como uma ponte que, por enquanto, liga o nada ao nada, porque não há acessos em sua cabeceira.

Ainda bem que a 4ª Vara da Fazenda Pública de São Luiz acatou pedido de antecipação de tutela e determinou a suspensão de todos os créditos suplementares liberados pelo governador. Se ficasse com as mãos livres, ele torraria o último tostão.

Para justificar sua gastança, ele diz que o Maranhão é um estado rico, cujos cofres estão abarrotados de dinheiro! Suas idiotices não param aí.

Se diz fã de carteirinha de Hugo Chávez, a quem recebeu com todas as pompas e circunstâncias. Os dois têm traços em comum: o antiamericanismo pueril e a demagogia. O governador do Maranhão orgulha-se de ter participado diretamente da queima de uma bandeira dos Estados Unidos durante uma manifestação de estudantes e de sem-terra.

Propositadamente, Jackson Lago vem criando um clima de radicalização e tenta vender o peixe de que está em curso no Maranhão uma nova balaiada, só que desta vez contra a oligarquia dos Sarney.

Passando ao largo da avaliação do TSE segundo a qual ele cometeu crime eleitoral, Jackson Lago adota o discurso de que este tribunal está fazendo o jogo do clã dos Sarney e diz que não abandonará o palácio dos Leões em hipótese alguma.

É ver para crer. Muito provavelmente não passa de  blefe a sua ameaça de insuflar uma reação popular e de “resistir contra o golpe”. Ou ele pensa que, de fato, o MST e a UNE pegarão em armas para defender seu mandato?

Um dos pressupostos do Estado de Direito Democrático é o acatamento das decisões das instâncias finais da Justiça. Isto vale para todo mundo. Para Cássio Cunha Lima,  já foi cassado, para Jackson Lago prestes a perder seu mandato, para o próximo da fila, o governador do Tocantins, Marcelo Miranda e para os mais quatro que ainda serão julgados pelo TSE.

De uma maneira geral, esta corte tem se colocado acima das querelas da política local e tem adotado uma postura de endurecimento contra crimes eleitorais. Nos dois casos já julgados, o da Paraíba e o do Maranhão, TSE entendeu que são robustas as provas de abuso de poder econômico cometido por quem se elegeu governador.

Não se pode acusar a Justiça Eleitoral de fazer o jogo dos adversários dos governadores eleitos em 2006. Se problema há, está na lei que em casos de perda destes mandatos determina a posse do segundo colocado, em vez da convocação de uma nova eleição.

Enquanto o Poder Legislativo não aprovar outra lei, vale a atual, mesmo que com isto o clã dos Sarney volte ao poder.

Não morremos de amor pela oligarquia que deu as cartas no Maranhão, por quarenta anos, e torcemos para que eles sejam derrotados nas urnas, em 2010.

Mas não achamos que os fins justificam os meios. Não concordarmos que, em nome da luta contra a oligarquia, quebrem-se as finanças de um Estado e se passe por cima de uma decisão final da Justiça.

Triste do Estado que tem que optar entre a oligarquia dos Sarney e o populismo demagógico de Jackson Lago. O Maranhão merece uma sina melhor.



Escrito por pitacos às 12h57
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   Luz, afinal?

 

 



Fernando Henrique Cardoso

 

 

Estadão, 5/4/2009

 

 

A reunião do G-20 em Londres está sendo saudada com alívio. Finalmente os líderes mundiais começam a acertar o passo. Foi preciso uma crise dessa gravidade para despertá-los para a natureza da questão: há um descompasso no plano mundial entre as formas institucionais e o mercado. Disso há muito se sabia. Nos anos 90, quando a globalização financeira começara a se fazer sentir com força, o problema já se colocava: a falta de regras internacionais mais objetivas complicava a situação de vários países que, eventualmente, nada tinham que ver com o estopim da crise. Desde então não faltaram vozes isoladas a clamar por uma reordenação global, não só do mercado, mas das instituições financeiras e da sua regulação.


Clamava-se, ainda, por uma reordenação comercial (vejam-se os esforços de Doha), pela reordenação das políticas de meio ambiente (os acordos de Kyoto), pela reordenação bélica (com o empenho nos tratados de não proliferação atômica ou no controle dos mísseis), pela reforma do Conselho de Segurança, e assim por diante. Até mesmo os esforços globais de redução da pobreza e de melhoria da qualidade de vida foram objetos dos acordos que resultaram nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aprovados pela ONU em 2000.

 

Tudo isso caminhou a passos de tartaruga porque não é fácil complementar as ações que se devem dar no plano nacional com as que são de outra natureza e dependem de regras e decisões globais. Desde Kant se sabe que a Paz Universal requer um Direito Universal. Por que as finanças globalizadas escapariam dessa condição? Mas também se sabe que o fracasso da Liga das Nações, se não foi responsável pela 2ª Grande Guerra, abriu espaço para que a crise de 1929 despedaçasse o mundo em isolacionismos protecionistas e, no final, em guerras de conquista. Foi pela visão generosa de um mundo de paz e prosperidade que Roosevelt – como se vê em sua correspondência com Stalin durante a guerra – cedeu tanto aos soviéticos. Queria construir a ONU mantendo a União Soviética comprometida com a ordem global. Apesar da guerra fria e de tantos avatares mais, a ONU evitou uma guerra mundial.


Hoje, diante da impossibilidade de os Estados nacionais controlarem a crise financeira, o revigoramento da ordem global começa a ganhar fôlego. Até aqui, com a impotência das instituições de Bretton Woods para enfrentar a maré de papéis tóxicos espalhados pelo mundo, o que vimos foi o banco central dos EUA e o Tesouro americano espalhando recursos aos trilhões de dólares, tentando irrigar o sistema bancário. Os resultados, entretanto, foram magros até agora.O mercado permanece amortecido pelo temor dos bancos em fazer novos empréstimos e pela preferência dos eventuais tomadores em se resguardarem. Só deseja empréstimo quem já está quebrado. Os europeus, ingleses à frente, mais prudentes, injetaram capital nos bancos e assumiram parcialmente o seu controle. Conseqüentemente, surgiu um cisma que poderia paralisar as decisões em Londres: de um lado, a Europa tratando de impedir que os estímulos fiscais arruínem o futuro de sua moeda e, do outro, os americanos, donos da mágica de produzir dinheiro lastreado na confiança no governo e em sua economia, provendo liquidez e aumentando os déficits sem muita preocupação com equilíbrios fiscais.

 

Entretanto, como o mundo agora é mais plano, os chineses deram o grito de alarma pela boca do primeiro-ministro: e se o dólar desvalorizar? Por certo, o problema hoje não é a inflação, mas a deflação; as taxas de juros americanas podem se manter rentes a zero. Mas será assim amanhã, se a dívida crescer a tal ponto que coloque em questão, ao longo do tempo, a capacidade de recuperação dos orçamentos americanos? Foi significativo ver que no G-20 se falou de uma cesta de moedas que sirva de reserva e houve a decisão de aumentar o capital do FMI e até mesmo de utilizar os direitos especiais de saque, uma espécie de dinheiro internacional próprio do FMI. Noutros termos: há no horizonte distante o que Keynes previra e desejava, a formação de uma Autoridade Monetária Central. Não será o Banco Central Europeu uma antevisão do que poderá ocorrer em décadas adiante? O Conselho de Estabilidade Financeira não poderá exercer papel efetivo na coordenação das políticas e em seu controle?

 

Reordenação mais profunda do sistema financeiro global implicaria um novo arranjo político, do qual estamos distantes. Mas assim como o unilateralismo dos neoconservadores e do governo Bush esticou a corda nos dois lados, invadindo países e dando licença aos mercados para fazer o que quisessem sem consultar ninguém, a atitude do governo Obama (Hillary Clinton falando até de incluir os talibãs “moderados” (sic) na mesa de negociações) prenuncia algo melhor para o mundo. Gordon Brown foi perspicaz e procurou os emergentes para aumentar suas chances de liderança, apostando em mais regulamentação. Isso, com maior legitimidade, ampliando-se o número de atores que decidem, talvez seja a fórmula para se falar com mais seriedade em um outro e melhor mundo. George Soros, voz dissidente e clarividente nas finanças, colocou a outra condição para um ponto de partida positivo: será necessário prover muito dinheiro para evitar tragédias maiores nos países pobres e em algumas economias emergentes. O G-20 falou de US$ 1 trilhão. É um começo.

 

Os ativos globais perderam de US$ 30 trilhões a US$ 50 trilhões! Os socorros de todo tipo, incluindo estímulos fiscais, devem roçar os US$ 2 trilhões, as promessas vão aos US$ 5 trilhões. Em Londres os líderes esperam que lá pelo fim de 2010 a economia flua outra vez. Tomara. Isso se houver restabelecimento da confiança e do crédito e avanços no reordenamento político e financeiro do mundo. Se, entretanto, houver fracasso, o protecionismo e o nacionalismo bélicos podem voltar à cena. Espero, por isso, que a reunião do G-20 não se resuma a uma oportunidade fotográfica.



Escrito por pitacos às 10h58
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