Pitacos: política brasileira em foco
   Operação Satiagraha II

 


De novo não cabe entrar no mérito. Nem podemos fazê-lo, a não ser se tivéssemos acesso ao processo da Camargo Corrêa.

 

Qualquer informação ou juízo que veiculemos carecem de base real.

 

O que salta aos olhos é a repetição dos métodos da operação Satiagraha.

 

Informações sigilosas vazam para a imprensa. Virou rotina. Os suspeitos não podem se defender, devido ao processo e por ele lhes ser inacessível, pelo menos por ora.

 

Juiz, delegados, promotores revezam-se sob a luz dos holofotes. O juiz De Sanctis, por exemplo, entrevistado por uma emissora de rádio, disse que não poderia se pronunciar. Acrescentou, porém, que os indícios de crimes eram muito densos. É preciso mais? Até mesmo o presidente Lula viu-se forçado a fazer declarações condenando estas atitudes.

 

No que foi veiculado até agora há questões relevantes.

 

Misturam-se legalidade e a ilegalidade. A construtora Camargo Corrêa contribuiu com dezenas de candidaturas de praticamente todos os partidos. Ela é acusada de contribuir “por fora”. “Por fora” e “por dentro” são informações veiculadas como se fossem idênticas.

 

A conseqüência dessas acusações é que a Camargo Corrêa tem um prato cheio para se defender, bem como os políticos supostamente corruptos.

 

No caso Daniel Dantas foram as ilegalidades, mesmo que ele tenha culpa no cartório, terá chances de escapar ileso.

 

Não existe uma só criança “nestepaiz” que acredite, caso se confirme as ilações do juiz De Sanctis, que o PT transformou-se em Madre Teresa de Calcutá.

 

Ora, este partido está no governo há exatos 7 anos. A Camargo Corrêa, supostamente ao praticar ilícitos, não procurou os donos do cofre, mas as oposições e partidos menores. Acredite se quiser.

 

Não é crível que esta empresa, uma mega-construtora, e uma das poucas multinacionais brasileiras, ao, supostamente, jogar em todas as posições, teria passado ao largo do partido de Lula.

 

O caso do PPS deveria estar nos horários humorísticos das televisões.

 

Esse partido é pequeno, com influência zero na máquina governamental federal, perto de zero nas máquinas estaduais e ínfimo nas prefeituras.

 

Qual seria a razão dele ser citado como suposto desaguadouro da Camargo Corrêa, cuja atividade supostamente ilícita visava troca de favores e benefícios com a máquina estatal?

 

Uma hipótese é que os executivos da Camargo Corrêa miraram o futuro. Alguma bola de cristal lhes disse que o PPS terá um futuro radiante nas máquinas estatais. Então, a Camargo Corrêa teria semeado para colher lá na frente.

 

O que de fato aconteceu foram investigações da Polícia Federal que chegaram a indícios. Esse é o papel deste órgão de Estado. Um juiz federal, no caso De Sanctis, deu cobertura legal às atividades policiais.

 

As investigações deveriam correr em sigilo e se transformarem em processo, se os indícios justificassem.

 

Até aí, nada demais.

 

Repetiu-se, nos métodos, a Operação Satiagraha.

 

Informações vazaram para a imprensa, de novo.

 

O juiz discorreu sobre a corrupção de partidos, como organismos nacionais. Colocou dedo em riste paras as oposições, PSDB, DEM e PPS e para um ou outro partido da base governamental, quem sabe para supostamente tentar dar veracidade às tais “ilações”.

 

O ministro Tarso Genro não consegue ser original. Assegurou que as investigações não tiveram caráter ou uso político e que a Polícia Federal sofreu assepsia.

 

Infelizmente, se houve crime praticado por dirigentes da Camargo Corrêa, as ilegalidades cometidas pelos, infelizmente, de sempre, correm o risco real da impunidade.

 

Passar por cima da democracia e da legislação produz uma aliança estreita e objetiva com o crime, do colarinho branco ao chinelo.



Escrito por pitacos às 15h20
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   Sai a marolinha, entra a gripe

 
A qualquer preço.

Em matéria de subestimação da crise, Lula é incorrigível. Sua bola de cristal errou feio com aquela história da marolinha. Mas ele não se deu por satisfeito e agora comparou a crise a uma gripe que só mete medo em cabra frouxo.

Pois é, o Lula cabra-macho lembra em muito a bazófia de Collor que dizia ter aquilo roxo e prometia matar o tigre da inflação com um só tiro.

Já Lula afirma que a crise é como “uma gripe. Uma gripe, num cabra muito fino, deixa ele de cama. Num cabra macho ele vai trabalhar e não perde uma hora de serviço”.

A título de curiosidade, gostaríamos muito de saber como Lula avalia a capacidade de Michele Bachellet, presidente do Chile, e de Cristina Kirchner, presidente Argentina, de enfrentarem a crise. Ao que nos consta, elas não se enquadram na categoria de “cabra-macho”.

Mas deixemos o machismo de Lula de lado. O mais grave é que nosso Presidente não adota uma postura de estadista diante da crise. Dá uma de vendedor de ilusões. A quem ele pensa que engana ao dizer que “o pior da crise já passou”?

Esta não é a avaliação do mercado, segundo o último relatório Focus, do Banco Central, que apontou para uma estagnação da economia. De acordo com este levantamento, a estimativa é de que o PIB brasileiro, em 2009, cresça 0,01%!

Isto significará mais queda na arrecadação do governo, mais retração do consumo e mais desemprego. Mesmo assim, Lula se comporta como Poliana. Seu governo continua com a cabeça nas nuvens ao avaliar que a economia brasileira crescerá 2% neste ano.

Nenhum Chefe de Estado pode semear a desesperança em seu povo. Até por dever de ofício, ele deve ser otimista. Mas de maneira responsável, sem esconder o quanto as crises são sérias e preparar seus cidadãos para os sacrifícios e esforços para superar a crise. Jamais contribuir para aliená-los.

Este é por exemplo, o comportamento de Barack Obama. Ele arregaça as mangas, vai ao Congresso e mobiliza a população do seu país. E não apela para gracinhas ou para o grotesco.

Seria exigir demais que Lula se mirasse em Churchill, aquele que prometeu sangue, suor e lágrima aos ingleses, diante do combate ao nazismo. Apenas reivindicamos que ele tenha uma postura mais responsável.

Aparentemente, nada explica o comportamento de Lula. Mas ele tem sua lógica. Na verdade, ao apelar para a bazófia e para o machismo, Lula quer passar a impressão de que seu governo está fazendo de tudo para derrotar o dragão da crise. E que não tem nem um pouquinho de culpa nas dificuldades pelas quais o país passa.

Pura conversa. No governo Lula, os investimentos públicos representam tão somente 1% do PIB. E o PAC, que ele canta em prosa e verso, tem um grau de execução pífio. No ano passado, foi executado apenas 26% dos investimentos que estavam programados. Anunciar é mais do que fácil. Decidir e mobilizar os recursos, enfim, governar, não é parte do cardápio presidencial.

Não pensem que ele pisou no acelerador no início deste ano. Ao contrário, a execução do PAC continua em marcha lenta, uma vez que no primeiro trimestre do ano só foram executados R$ 150 milhões, dos 20 bilhões de reais previstos para todo o ano.

A crise é de tal ordem que está levando de roldão a esmagadora maioria dos municípios brasileiros, em função da brutal queda do repasse do Fundo de Participação dos Municípios e de suas receitas próprias.

O mais grave é que as bazófias de Lula não têm efeito apenas jocoso. Se essas são a crença do seu governo, como parece que são, a parte que cabe ao governo na austeridade dos gastos de custeio, no enfrentamento das corporações do funcionalismo, que pedem e no enquadramento do Banco Central, este sob a égide do Palácio do Planalto, poderão ficar para as calendas gregas e produzir os efeitos que todos previmos e tememos.

Os dados indicam que a economia brasileira está ameaçada por uma doença muito mais grave do que uma simples gripe. Enfrentá-la com a aspirina receitada por Lula, além de tudo, é deboche.

 


 

PS: hoje o governo anuncia o programa habitacional de exceção, para ajudar a construção civil, a economia em geral e, conseqüentemente, as pessoas de baixa rendam. Pitacos só conseguirá analisar quando todas as informações estiverem disponíveis. Duas questões se apresentam, de cara: 1) 1, 2 ou 3 milhões. Tanto faz. O governo anuncia o que quiser. Apresenta o orçamento, de onde vem o dinheiro e ....... contigencia. Assim é fácil, não. Se o governador Serra cantasse na mesma toada, poderia apresentar um programa de 5 milhões de habitações populares a 1 real. De onde viria o dinheiro? Da exploração do sal do litoral sul, por exemplo. 2) Continua a lógica populista. Prestações a preço de cafezinho. O Estado entrando com praticamente 100%. A viabilidade destas propostas é conhecida. Os efeitos para 2010, também. Para a dupla, Lula-Dilma, isto é o que importa.



Escrito por pitacos às 11h46
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   Esqueletos querem sair do armário

 

 

Delúbio Soares e Marco Valério ressurgem na cena, cada um a seu modo.

 

Delúbio deixa claro seu desejo de sair do ostracismo. Ronda os gabinetes dos parlamentares do PT, em busca do seu retorno à vida política nacional.

 

O ex-tesoureiro do PT sempre foi homem do partido, fiel, pau para toda obra. Se as portas lhe forem fechadas pelas conveniências do lulopetismo, aceitará, resignado, mesmo porque é quase impossível que seus pares não arrumem sua vida, em supostos termos da sobrevivência material.

 

O caso de Marco Valério é exponencialmente mais complexo.

 

Até antes da explosão do mensalão, ele era um homem rico e, a seu modo, realizado.

 

Acertá-lo não é fácil. Sempre esteve, desde então, debaixo de mil refletores, perseguido pela imprensa investigativa nos mínimos detalhes. Sua vida foi devassada por instâncias da Justiça e do Executivo.

 

Acrescente-se que os supostos acertos, se tentados, envolvem quantias gigantescas. Obtê-las hoje em dia, supostamente por dentro, ou mesmo supostamente por fora, é tarefa que beira a impossibilidade.

 

Marco Valério foi deixado à própria sorte. Viu ruir seu patrimônio material, em nome de causas que não têm absolutamente nada com o que pensa ou com seus interesses nada nobres. Atravessa crises familiares.

 

Seus processos se avolumam e transitam na Justiça, inexoráveis, rumo a penalidades para as quais ele não encontra justificativa de vida. Freqüenta prisões, acusado de crimes contra a ordem econômica.

 

O noticiário sobre sua negociação de delação premiada apavora Brasília e também setores da política mineira, de onde se originou o valerioduto, à época um sorvedouro de recursos em prol de campanhas individuais. Quando passou para Brasília, multiplicou-se várias vezes e mudou sua essência, passando a fazer parte de um processo orgânico de desvio de recursos públicos e supostamente dos fundos de empresas estatais para a compra de apoio de dezenas de parlamentares, paras as propostas do lulopetismo.

 

Nesses dias, sobretudo em Brasília, há muito mais o que habitar as mentes de escalões superiores do governo, do que desfazer a teia de interesses parlamentares e corporativos de funcionários, no triste episódio das diretorias do Senado.

 

Esqueletos insepultos, alguns abandonados, mais cedo ou mais tarde cobram a conta.

 



Escrito por pitacos às 16h19
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   Irresponsabilidade sem limites



Paulo Renato Souza*

 

 

Texto publicado no Estadão, neste domingo (22 de março de 2009)

 

 

 

É inescapável a responsabilidade do Governo e em especial do Presidente Lula na crise que assola nossa economia. É evidente que ela começou lá fora, em especial nos Estados Unidos, se estendeu aos demais países desenvolvidos e atinge hoje todo o mundo. Entretanto, o Brasil poderia estar infinitamente melhor e mais preparado para enfrentá-la se tivéssemos um governo lúcido e um Estadista na Presidência, disposto a assumir a sua responsabilidade histórica. Em artigos anteriores neste mesmo espaço já analisei porque a crise chegou aqui antes e mais intensa do que o esperado por culpa do governo. Falei do câmbio, da precariedade da situação fiscal e da insegurança transmitida ao mercado pelo discurso e atitudes contraditórias das autoridades.

 

O primeiro elo da cadeia de transmissão da crise no Brasil foi o câmbio, que deixou o Real inacreditavelmente supervalorizado durante vários anos. A responsabilidade do Banco Central nesse particular é evidente. Entretanto, o Banco Central não é independente no Brasil, e esta política, em particular, teve a aprovação do Presidente Lula. O câmbio supervalorizado foi o antídoto brasileiro para evitar que os preços dos produtos básicos – em elevação no mercado internacional - também subissem em Reais. A inflação – em especial a dos alimentos - foi mantida em níveis baixos, o que foi muito importante na re-eleição do Presidente e nos altos índices de popularidade que ainda hoje desfruta.

 

As empresas brasileiras, notadamente as exportadoras, fizeram o dever de casa. No longo ciclo de crescimento mundial, estruturaram-se para aproveitar as boas oportunidades. A despeito do câmbio desfavorável, das deficiências de infra estrutura e da elevada carga tributária, conquistaram mercados, produziram mais, geraram milhares e milhares de empregos, auferiram lucros, remuneraram os acionistas, e pagaram mais impostos, muitos impostos. O governo, por seu turno, acomodou-se à bonança dos sucessivos recordes de arrecadação, e contratou despesas permanentes, que se repetirão por muitos anos, como salários e benefícios previdenciários.

 

A irresponsabilidade fiscal se traduziu em aumentos desenfreados nos gastos correntes do governo, tanto em pessoal quanto em custeio.  Nos últimos cinco anos, as despesas de pessoal saltaram de R$ 98 bilhões para R$131 bilhões, os benefícios previdenciários cresceram de R$ 140 bilhões para 200 bilhões e os gastos com o custeio pularam de R$ 95 bilhões para 164 bilhões. Em certo sentido, a gastança exacerbada foi camuflada pela maré favorável da economia, que viveu um céu de brigadeiro até bem pouco tempo, apesar do governo e não por sua responsabilidade.

 

De repente, técnicos do Ministério da Fazenda se deram conta de que, em função da queda da arrecadação federal, não haverá recursos para pagar os reajustes salariais já aprovados e sancionados para um milhão de servidores públicos da União. É um caso emblemático da irresponsabilidade sem limites do presidente Lula ao promover a gastança em plena época de crise. A oposição bem que advertiu que era uma insanidade assumir despesas que só em 2009 chegarão à casa dos 22 bilhões de reais, além da despesa realizada em 2007, numa conjuntura em que já se descortinava o desequilíbrio das contas públicas. Juravam, porém, as lideranças do governo no Congresso que não faltaria dinheiro para garantir os reajustes e as novas contratações decorrentes de duas medidas provisórias aprovadas em novembro. Quanto ilusionismo!

 

          A irresponsabilidade de Lula comprometeu até mesmo o equilíbrio orçamentário do governo de seu sucessor, uma vez que as despesas com os reajustes e novas contratações se estenderão muito além de 2011, num total de 35 bilhões de reais anuais acima das despesas de 2007. Estamos, portanto, diante de um problema criado pelo Palácio do Planalto, que não quer assumir a responsabilidade de desatar o nó. Se fosse dotado de bom senso, o presidente adiaria tais reajustes, como a lei permite e aconselham membros de sua equipe econômica. Mas Lula e Dilma Roussef se opõem a tal adiamento. Eles não querem criar nenhum abalo nas suas relações umbilicais com as corporações do funcionalismo, que fazem parte de sua base de sustentação e que já avisaram que irão à guerra, ou à greve, se o Palácio do Planalto não honrar o compromisso assumido.

 

O Presidente pode não ter um projeto nacional para o enfrentamento da crise, mas tem um projeto de continuidade de poder, que passa pela eleição de sua predileta, a quem pretende entregar o trono presidencial. Focado nas próximas eleições, ele não quer problemas para a sua candidata, sobretudo com as corporações dos servidores públicos, uma espécie de “eleitorado cativo” do lulopetismo. Não tenham dúvidas: o lobby dos funcionários falará mais alto, porque conta com interlocução direta com o Presidente, e tem sua representação parlamentar através do PT. Se tiver que optar entre os reclamos dos servidores e o equilíbrio das contas públicas, Lula ficará com os primeiros, ainda que isto seja de uma irresponsabilidade a toda prova.

 

Com o advento da crise, caiu a máscara e ficou patente o quanto o governo foi perdulário em seus gastos. Enquanto as empresas se capitalizaram e dispõem de mecanismos de ajuste, ainda que dolorosos, o governo amarrou as próprias mãos, e agora Lula maldiz a sorte e clama para que os países ricos “resolvam a crise que criaram”. Para ele é mais fácil culpar os outros que assumir suas responsabilidades e tomar as medidas amargas que as crises exigem dos grandes estadistas. Infelizmente, a fatura do desatino presidencial será paga não por quem o cometeu, mas por todos os brasileiros.

  

(*) Paulo Renato Souza, deputado federal por São Paulo, foi ministro da Educação no governo FHC, reitor da Unicamp e secretário de Educação no governo Montoro.

 

E-mail: dep.paulorenatosouza@camara.gov.br

Site: www.paulorenatosouza.com.br



Escrito por pitacos às 10h18
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