Pitacos: política brasileira em foco
   Pitacadas 2009: 20/3


 
Os -5% de Lula

 


É ociosa a análise das razões maiores, ou menores, da queda da popularidade de Lula, bem como se esmiuçar em quais classes sociais as perdas aconteceram e como se encontram as tendências.

O fato é que caiu a popularidade de Lula. Simples, assim. 

A queda é expressiva por ser a primeira no segundo mandato e por constituir-se em aproximadamente 8% da assombrosa margem que o presidente tinha – e ainda tem.

Caiu a popularidade de Lula porque a crise econômica começa a atingir setores importantes da sociedade brasileira, que não vêem salvação nas políticas governamentais, pelo menos a curto prazo.

A queda da popularidade presidencial continuará, ao menos no curto prazo. Só arrefecerá ou voltará a crescer se e quando o vendaval lá de fora perder força e, aqui dentro, forem adotadas políticas econômicas que amenizem e revertam a crise.

No contexto de queda da popularidade, qual o caminho que Lula tomará?

Se tiver traços de estadista, arcará com os ônus de medidas impopulares e de difícil compreensão no curto prazo, para sedimentar as bases da recuperação do país.

Terrível será se o populismo rastaqüera der as cartas, em defesa da popularidade presidencial e do continuísmo, a qualquer custo, do lulopetismo na presidência.

A aposta é na primeira alternativa. No entanto, o conjunto da obra do governo lulopetista mina as esperanças em dias melhores, que sejam provocados pela liderança de Brasília. 


Patrimônio de Serra

 

 


O fato de José Serra liderar as pesquisas na corrida presidencial, agora com mais folga, segundo o último Datafolha, explica-se pelo longo processo de consolidação de nossa democracia.

Essa situação já aconteceu nas duas últimas eleições presidenciais. Não cabe neste espaço a discussão de detalhes, disputas e mudanças no quadro político-eleitoral dessas disputas.

O fato é que, em ambas, e agora, José Serra tem posição solidificada no eleitorado.

Isso se explica por sua trajetória e farta exposição: secretário de governo em São Paulo, deputado-federal, senador, Ministro da Saúde de FHC, prefeito de São Paulo e agora governador do Estado de São Paulo, além de candidato em 2002. Por sua identificação com propostas de centro-esquerda, capacidade administrativa e ética na política.

Feliz das oposições que têm esse patrimônio.

A situação de Serra se explica também pela tendência que existe em todos os países de democracia consolidada – não é o nosso caso ainda, mas estamos no caminho. Nesses lugares, polarizam-se situação e oposição. Terceiros ou quartos concorrentes existem, mas são raridade e surgem somente em conjunturas atípicas.

Não é o caso, nesse espaço, de analisarmos as possibilidades e perspectivas de Aécio Neves e seus pleitos legítimos pela disputa da indicação do PSDB. Longe dessa situação ser um problema, ela indica que as oposições dispõem de mais de uma alternativa com reais condições de apear o lulopetismo de Brasília.


Laivos de lucidez

 


O governo Lula, do dia para a noite, esbofeteado pela queda do PIB no trimestre, reviu a projeção de crescimento do PIB para 2%.

Não se trata de preferências matemáticas. Qualquer projeção estabelecida não é mero exercício de futurologia. Tem conseqüências imediatas no orçamento e nos gastos da união e dos estados e municípios.

O chamado “mercado” tem projeções bem mais pessimistas. Em média, se é que se pode chegar a um termo desses, a aposta é de crescimento zero.

A situação americana não pode ser parâmetro direto de comparação, mas nos dá uma idéia de como deve ser radical e urgente o combate à crise. O Federal Reserve, o Banco Central deles, reduziu os juros à menor taxa de décadas e injetou no sistema financeiro uma quantia bem superior ao PIB brasileiro. 

O governo Obama partiu para o tudo ou nada. Ou inverte a crise agora, ou .....

Enquanto isso, na Terra de Santa Cruz o presidente Lula esbraveja contra as projeções pessimistas, atribuindo-as ao diabólico sistema financeiro, adota medidas que começam a ser lúcidas, mas tímidas e vê, de braços cruzados, o Banco Central soltar uma ata da reunião do último COPOM, afirmando que as próximas reduções das taxas de juros serão “amenas”.



Escrito por pitacos às 15h19
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   Êta zagueiro bom!

 

 

 

Tibério Canuto foi titular da zaga da seleção dos presos políticos da Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, nos anos de chumbo.

 

Era deveras inusitado vê-lo disputar com atacantes com duas ou três vezes sua massa corporal. Via de regra, Tibério dava conta do recado.

 

Neste 19 de março de 2009, ele completa 63 anos. Está na luta política desde os 19.

 

Os jogos da Lemos Brito ficaram para trás. No entanto, o destemido e surpreendente zagueiro continua a não hesitar em entrar nas bolas divididas e a defender e ampliar o espaço do que pensa, sem sectarismos, mas com unhas e dentes.

 

Parabéns, Tibério.

 

 

(Antônio Sérgio Martins)



Escrito por pitacos às 10h37
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   O irresponsável ufanismo lulopetista, fase II

 

Já faz parte do folclore nacional a afirmação de Lula de que a crise mundial não nos atingiria, a não ser como uma marolinha.

O estrago causado pela turbulência internacional expôs ao ridículo o otimismo presidencial e os fundamentos nada sólidos da sua equipe econômica, que até bem pouco tempo repetia a cantilena de que nossa economia era tão sólida, que passaria ao largo da crise.

Tanto o presidente como seu ministro da Fazenda são incorrigíveis. Acabam de lançar na praça a mais nova versão do ufanismo irresponsável que tem sido a marca do comportamento do governo.

A bazófia da marolinha deu lugar à afirmação de que o “Brasil foi o último país a ser atingido pela crise e será o primeiro a sair dela”. É mais uma frase de efeito que será desmoralizada mais adiante, quando novos números negativos aparecerem.

Que vantagem há em ser “o último país a ser atingido pela crise”, se quando ela chegou, atingiu-nos em uma proporção bem superior ao que aconteceu em outros países? Ou o governo faz de conta que sabe que a queda do PIB brasileiro do último trimestre de 2008 foi a segunda do mundo, só superada pela queda da Coréia?

Padece de seriedade a crença do Presidente de que seremos o primeiro a sair da crise. Até porque ela só deixará de existir quando for superada em seu epicentro, os Estados Unidos e países da Europa.

As bobagens ditas por membros do governo Lula não param por aí. Há poucos dias, Dilma disse uma pérola. Os juros altos praticados pelo Brasil foram uma benesse, porque representam uma oportunidade ímpar para o Brasil adotar taxas de juros “mais civilizadas, em tempo de crise”.

Estupidez semelhante foi dita por Guido Mantega, na visita aos Estados Unidos. Segundo o ministro da Fazenda, ainda bem que os juros estavam altos, porque desta maneira o Brasil ainda tem gordura para queimar e pode baixar os juros.

A empáfia do Guido Mantega não tem limites. Ele acha que estamos em uma situação melhor do que a dos países que desde outubro, quando começou a crise mundial, passaram a cortar a sua taxa de juros e a adotar ousadas medidas para inverter o curso de queda de suas economias.

O que esperar de um Ministro que acredita viver no país das Maravilhas, afirmando a torto e a direito que o Brasil tem muita bala na agulha para enfrentar a crise?

Vejam o contorcionismo do ufanismo irresponsável. Aquilo que foi um erro é apresentado como virtude. É óbvio que se o governo e o Banco Central tivessem diminuído a taxa de juros há mais tempo, estaríamos em melhores condições para enfrentar a crise econômica.

As previsões idílicas do governo não encontram respaldo na realidade. Lula e sua equipe continuam nas nuvens. Já não são tão megalomaníacos quanto antes, quando, em plena crise, cultivavam a inabalável fé de que o PIB brasileiro cresceria 4,5% em 2009.

Levaram um soco no estômago com o tombo do PIB, mas não perderam a pose. Agora apostam suas fichas em um crescimento da economia brasileira de 2%, em 2009.

São grandes as chances de que a bola de cristal de Lula erre novamente. No mercado, os mais otimistas acreditam em um crescimento do PIB de 0,5% e muita gente séria diz que ao final do ano o Produto Interno Bruto será igual a rabo de cavalo. Crescerá para baixo, em uma queda de 1,5%.

Imaginemos um paciente na UTI, vítima de grave enfermidade. Alguns médicos afirmam que nada é grave, pelo contrário, tudo estará melhor no amanhã breve. Outros, sabem da situação, mas, temerosos das responsabilidades e riscos, comportam-se como o primeiro grupo. Finalmente, o último grupo de médicos tem plena consciência do estado do paciente e propõe a medicação que tem chances reais de recuperá-lo.

Lula e sua equipe econômica, e também a candidata Dilma, estão no primeiro ou no segundo grupo. Tanto faz. As conseqüências para o paciente serão exatamente as mesmas. Por uma ou por outra situação, será a ele negado tratamento adequado. Não é necessário bola de cristal para se prever para onde sua vida terá grande probabilidade de ir.

As conseqüências diretas e imediatas do delírio ou da sonegação da verdade pelo governo lulopetista já estão por toda parte. E o preço que nos é imposto para a conservação da popularidade do presidente e de sua luta continuísta, a despeito da aceleração do sofrimento da sociedade e da destruição de parte de nossa economia.



Escrito por pitacos às 12h21
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   Ditadura em câmara lenta

 

Têm razão os oposicionistas venezuelanos ao definir como “um golpe de estado em câmara lenta” a ocupação militar, promovida por Hugo Chávez, de três portos localizados em Estados governados pela oposição.

Chávez partiu para o confronto com a oposição, passando por cima do resultado eleitoral de novembro, que colocou nas mãos dos oposicionistas o governo de seis Estados e da prefeitura de Caracas.

Os arautos do chavismo dizem que o caudilho agiu de acordo com as regras democráticas, porque a ocupação dos portos de Carabobo (o maior do país), de Zulia (onde fica Maracaibo) e de Nova Esparta, tem respaldo numa lei aprovada pela Assembléia Nacional.

A Assembléia Nacional da Venezuela é um simulacro de parlamento. Não se constitui em um poder independente. Ao contrário, é inteiramente dominada pelo chavismo, desempenhando um papel meramente decorativo e homologatório da vontade imperial do caudilho. Cabe lembrar, que as eleições para a Assembléia Nacional foram boicotadas pelas oposições, que alegaram restrições de todo tipo para que elas disputassem os votos dos venezuelanos.

Aliás, na Venezuela não existe a independência dos três poderes. Chávez controla todos eles. O Tribunal Supremo proibiu a prefeitura de Caracas de implantar um rodízio de carros, para satisfazer os desejos do caudilho. É óbvio que o Prefeito de Caracas é da oposição. Para Chávez, a independência entre as esferas municipal, estadual e federal, no que lhes diz respeito, é papo das elites antidemocráticas.

A ocupação militar dos portos não é um ato isolado. Faz parte da estratégia de Hugo Chávez de retirar das mãos da oposição a fatia de poder conquistada de forma legítima, nas urnas.

O chavismo adotou a política de cerco e aniquilamento das oposições, buscando retirar-lhes o oxigênio. Até recentemente, seu alvo era a Prefeitura de Caracas. Agora estendeu seu raio de ação para outros estados governados pela oposição.

Na primeira fase de sua ofensiva, transferiu para o governo federal escolas, centros culturais e uma emissora de TV que eram administradas pela Prefeitura de Caracas.

Prepara mais um golpe.

A Assembléia Nacional chavista está prestes a aprovar um projeto que cria o cargo de vice-presidente da República para a região de Caracas. Trata-se de uma autoridade para esta região, hierarquicamente superior ao prefeito e indicado por Hugo Chávez. Quer mais?

A Venezuela de Hugo Chávez é um país praticamente dividido ao meio. Nas últimas eleições, as oposições conseguiram vitórias na maioria dos centros importantes, inclusive em Caracas.

Mesmo no plebiscito no qual o caudilho obteve o direito de se reeleger indefinidamente, as oposições mostraram força. O NÃO ao continuísmo obteve 45% dos votos.

Dividida politicamente, a Venezuela enfrenta uma crise econômica, com o retorno da inflação e desabastecimento de vários produtos. Na nova realidade mundial, o petróleo venezuelano já não é suficiente para financiar o “bolivarianismo” de Chávez e suas aventuras, porque o preço desta commodity despencou ladeira abaixo.

Restou a Chávez o caminho da radicalização, o de esmagar a oposição a qualquer preço para viabilizar seu continuísmo.

O particular da ditadura chavista é que ela se utiliza de um arcabouço institucional e legitima suas ações baseadas em mecanismos aparentemente democráticos. Os plebiscitos e as eleições de fato acontecem. Mas isto não retira o caráter ditatorial do regime que Chávez está implantando.

As consultas populares e instâncias parlamentares subjugadas e amordaçadas não legitimam democracia alguma. Basta a citação da ditadura brasileira e das “eleições” periódicas para todos os níveis parlamentares. No extremo, na Alemanha dos anos trinta, Adolf Hitler e suas hostes nazistas valeram-se desses expedientes.

Chávez, portanto, está longe de ter inventado a roda.



Escrito por pitacos às 12h10
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