Pitacos: política brasileira em foco
   Lula tem culpa no cartório

Faz parte da estratégia de Lula dizer que seu governo não é o pai da criança e não tem responsabilidades pelo agravamento da crise.

Para ele, a culpa da crise foi de Bush. As demissões ocorrem por causa da ganância de maus empresários. Os juros são estratosféricos por culpa exclusiva dos banqueiros. As exportações despencam por causa dos países desenvolvidos.

O objetivo desta estratégia é óbvio: manter a popularidade do presidente nas alturas, para turbinar a candidatura de sua predileta, Dilma Roussef.

Do ponto de vista do marketing, é uma jogada esperta, embora não corresponda à realidade. Lula tem, sim, culpa no cartório, obviamente não pelo surgimento da crise internacional e de sua inevitável chegada ao país, mas pela magnitude dos erros seu governo cometeu e continua cometendo.

Vejamos o primeiro deles, a política de juros altos, que perdurou ao longo dos últimos seis anos.

Essa medida pode ter sido importante no primeiro mandato e contribuiu, até determinado momento, para o controle inflacionário e a estabilidade econômica.

Mas a partir de 2007, nada justificava a sua continuidade porque estavam dadas as condições para a adoção, de forma paulatina, de uma política com taxas de juros mais civilizadas. O céu de brigadeiro da conjuntura internacional favorecia esta mudança. No entanto, o governo Lula preferiu apenas surfar na onda e fez do Brasil o campeão mundial dos juros altos.

Quando veio a tempestade, o governo continuou a agir como se estivesse em tempo de calmaria. O Banco Central demorou a perceber o quanto a crise nos atingia. Foi preciso uma verdadeira hecatombe para ele promover, tardiamente, um corte de 1,5% na taxa de juros, após a queda histórica do PIB de 3,6%, no último trimestre de 2008.

Diante da crise, o Banco Central tem sido tímido e lento. Mantém o intervalo de 45 dias entre as suas reuniões e nada abala sua platitude, apesar das evidências óbvias de que o primeiro trimestre de 2009 também será desastroso.

E que faz Lula diante de tudo isto? Finge que não tem nada a ver com a história. Coloca no pelourinho o pescoço dos diretores do BC, como se eles fossem os únicos culpados.

Acontece que no Brasil o Banco Central não é autônomo e sua diretoria pode ser demitida a qualquer momento, se o presidente não concordar com suas decisões. A política monetária, implantada por Henrique Meireles, foi aplicada com o consentimento e a concordância de Lula. Expressa a política monetária de seu governo.

O governo Lula também errou em relação à política cambial ao manter, de forma artificial, o real exageradamente valorizado. Pagamos um preço alto. A enxurrada de produtos importados inviabiliza muitos setores da indústria, alguns, é verdade, pouco competitivos. Outros, porém, de relevância para o país, inclusive em termos de geração de empregos.

Até antes da crise, as exportações bombavam, apesar da diferença entre o dólar captado lá fora e sua conversão para o real ser decrescente, em termos reais. Exportava-se tanto, que essa bomba, embora pudesse explodir logo adiante, perdia visibilidade.

Vivia-se num mar de rosas. Agora, na crise, os erros são evidenciados de forma impiedosa.

O Brasil enfrenta uma situação fiscal precária. Aqui Lula tem muita culpa. Ao longo do seu governo, os gastos correntes aumentaram de forma estúpida. As despesas de pessoal e encargos sociais eram de quase R$ 99 bilhões, em 2003. Em 2008, passaram a ser de cerca de R$ 131 bilhões. Também tiveram saltos extraordinários as despesas com a previdência e os gastos com o custeio.

Já na crise, ao final de outubro, de forma irresponsável o governo Lula concedeu uma série de aumentos salariais a diversos setores do funcionalismo e promoveu novas contratações. Tudo isto implicará em uma despesa adicional, até 2012, de cerca de 100 bilhões de reais, dos quais 29 bilhões só neste ano.

A atual peça orçamentária foi aprovada já em plena crise. Lula e Guido Mantega insistiram na fábula de que o PIB do Brasil cresceria 4%, em 2009. Pois bem, como a oposição alertou à época, isso não vai acontecer. Agora o governo tem que se virar para efetivar um corte no orçamento da ordem de R$ 40 bilhões.

Consideremos, ainda, que na crise, pela retração da economia, o governo tem queda expressiva na arrecadação. Para navegar na crise, o governo Lula ou aumenta os impostos ou corta na carne. A primeira alternativa é inviável, por sufocar ainda mais a atividade econômica e, conseqüente, poder produzir ainda mais queda na arrecadação. A segunda implica em mudanças essenciais no rumo do governo lulopetista.

Onde cortar? Técnicos do Ministério da Fazenda aconselham o cancelamento dos aumentos salariais dos funcionários, previstos para este ano. É pule de dez que Lula e Dilma não deixarão isso acontecer, por uma razão muito simples.

O funcionalismo é uma espécie de eleitorado cativo do lulopetismo. Contrariá-lo implica em trazer danos para a candidatura de Dilma. Portanto, servidores públicos da União, durmam tranquilos. Lula prefere estourar o orçamento a criar problemas eleitorais diretos para Dilma.

O governo Lula pode ser criticado ainda por ter perdido a oportunidade de ouro, quando a conjuntura internacional era um mar de rosas e por não ter levado adiante as reformas estruturais. O presidente limitou-se a surfar na onda, a promover factóides como o PAC. Portos, aeroportos e estradas continuam obsoletos. O Brasil pouco avançou em matéria de infra-estrutura, ao longo dos anos dourados.

O governo de Lula conseguiu surfar na onda da economia dourada. Apenas surfou, sem ter plantado as bases do futuro próximo e mediato. Mas surfou.

A crise é a hora da verdade. Ruiu o castelo de cartas.

Como não somos do time do quanto pior, melhor, apostamos que a oposição consiga pressionar o governo para que ele trilhe, pelo menos, o caminho menos ruim.

Se olharmos para o passado recente veremos que nossas esperanças têm poucos pilares sólidos.



Escrito por pitacos às 11h26
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   Tragédia anunciada

 

 

Os erros da crise

 

De Miriam Leitão

 

A crise é externa; veio de fora. Não há dúvida. Mas os erros do governo são: ele subestimou o impacto na economia brasileira; confundiu desejo com a realidade, aposta com análise; tem atuado ao ritmo dos lobbies que aparecem em Brasília; antecipou a disputa eleitoral; ainda não tem uma estratégia para enfrentar a crise. Não há sinal de mudança de atitude.

 

 

As crises são implacáveis. Não adianta dizer que elas são externas, porque isso não torna menos concretos os efeitos internos. É esse o recado que os frios números do IBGE estão mandando. As economias estão cada vez mais ligadas. Portanto, o que cabe aos governos nacionais é atuar para mitigar ou abreviar seus efeitos. O governo deve ter consciência das virtudes do país em relação a outros países, da mesma forma que é aconselhável ter noção das fragilidades.

 

 

Nos últimos anos, o governo brasileiro aumentou muito o gasto público com despesas que não podem ser reduzidas. Aumentou salários de funcionários, criou fórmulas de ajustes de salário mínimo que impactam fortemente a Previdência, contratou 200 mil novos servidores. Isso, agora, reduz a capacidade de ampliar os investimentos públicos para reduzir o impacto da crise.

 

(a íntegra da matéria está em O Globo)”

 

 

 

O texto de Miriam Leitão é praticamente irretocável.

 

O tsunami chegou ao Brasil. Não cabe, nesta nota, a repetição dos dados. Eles estão em toda parte.

 

O governo Lula vende, desde que a crise mundial do sistema capitalista eclodiu, a quimera de que ela não teria impactos importantes, ou drásticos, no Brasil.

 

Se essa “venda” obedecia a uma estratégia de não contaminar a economia com expectativas negativas ou se expressa uma alienação da realidade, os efeitos são parecidos.

 

O país tinha de ser preparado para a crise, tanto do ponto de vista de políticas econômicas, quanto nas perspectivas.

 

A “marolinha” é danosa porque a realidade não apenas choca e desespera empresariais e de consumidores, mas reverte a confiança para baixo, até mais do que é razoável.

 

Do dia para a noite o Brasil passa de um país imune à crise, ou que sofreria efeitos mínimos, para um país à beira da recessão. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

 

No entanto, a reversão de ânimos pode, por si mesma, agravar o quadro. A culpa é do governo Lula, destacadamente do próprio e de sua área econômica, liderada pelo Ministro Mantega e também por Henrique Meirelles. A venda de terrenos na Lua não é impune.

 

Do ponto de vista econômico, o país tinha de ser preparado para o pior, desde que a crise veio à tona, nos Estados Unidos e na Europa.

 

O governo Lula tinha a obrigação de enxugar os gastos correntes, ao contrário do que praticou. Além da redução de custos, tinha de sinalizar para a sociedade o novo momento.

 

Felizmente agiu certo ao irrigar dinheiro na veia do sistema financeiro. Foi a única grande medida com grau praticamente máximo.

 

Errou na timidez com que os créditos foram jogados na cadeia produtiva e nos consumidores. Quase todos os países desenvolvidos focaram a saída da crise na expansão do consumo, em larga escala.

 

Errou, ainda, por ter renunciado a impostos tão somente num ou noutro setor, como o automobilístico. Medidas mais agressivas nessa área implicariam em fortes impactos no aumento do consumo das famílias. Preso à própria teia, como poderia o governo renunciar a impostos em larga escala, se aumentou e continua aumentando os gastos correntes?

 

O Banco Central, subordinado em 100% ao Palácio do Planalto, apesar de ter os dados desde dezembro, não acertou o passo na redução da taxa de juros, ao contrário dos Bancos Centrais mundo afora.

 

O BC estava de olho na inflação, o que tecnicamente é correto, caso sua volta estivesse no horizonte. Agora sabemos que já dispunha dos dados que apontavam para as tendências reveladas agora.

 

Nesta quarta-feira, o COPOM arbitrará a nova taxa de juros. Uma queda expressiva poderá injetar ânimo nos setores empresariais, além da conseqüente redução da dívida pública.

 

Esse órgão, isoladamente, não tem o condão que poderá levar o governo Lula a sair da incompetência, da irresponsabilidade, da pasmaceira e do jogo para a platéia.



Escrito por pitacos às 11h55
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   Estado paralelo

É grave, ou pior, gravíssima a matéria da Veja, dando conta  de que o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz montou uma rede de investigação clandestina, da qual foram alvos um ex-presidente da República, ex-ministros, ministros do atual governo e, pasmem, os dois principais candidatos a presidente da República em 2010, Dilma e Serra.

Segundo a revista, tudo isso está no computador portátil e em um pendrive apreendidos em um apartamento do delegado no Rio de Janeiro. Com que objetivo o delegado Protógenes montou um estado paralelo e inteiramente fora de controle?

Não é crível que ele mirava apenas no banqueiro Daniel Dantas, ainda que este fosse um de seus alvos. Protógenes ampliou o seu leque de bisbilhotados ao infinito. Nem mesmo a vida amorosa de Dilma Roussef ficou livre de suas garras, ou mais precisamente, de sua arapongagem.

O delegado araponga passou a ser assim detentor de informações que poderiam muito bem ser utilizadas ou manipuladas de acordo com as suas conveniências e interesses, que não estão muito claros quais são. Tanto em relação a membros do governo, como da oposição, porque nisso ele foi “democrático”. Espionou os dois lados.

O que leva a um delegado da Polícia Federal a não ter limites e a operar inteiramente à margem da lei e criar um aparato particular de investigação?

Os Protógenes da vida nascem da impunidade, da certeza de que ele pode se colocar acima da lei, porque nada lhe acontecerá. A proliferação da arapongagem não é de hoje e agora mesmo o senador Jarbas Vasconcelos denuncia que está sendo vítima de espionagem e lança a suspeita de que isto seja obra de integrantes do PMDB.

Esta impunidade vem de longe. Durante o processo da privatização das teles, o então presidente da República, FHC, teve conversas gravadas ilegalmente e nada aconteceu com o araponga ou com quem ele estava a serviço.

Também estão impunes os autores do grampo do qual foi vítima o presidente do Supremo Tribunal Federal, porque a Polícia Federal foi incapaz de apontar quem praticou o crime.

Há a falência das instituições responsáveis pelas investigações, inclusive de instituições como as CPIs, inteiramente desmoralizadas no governo Lula. A CPI dos Grampos iria encerrar seus trabalhos nesta semana com um relatório pífio no qual seria indiciada apenas a arraia-miúda. Terá, a toque de caixa, de retomar seus trabalhos, em função da matéria da Veja e dar contas das traquinagens de Protógenes.

A prática ilegal do delegado Protógenes é produto também da balcanização da Polícia Federal e de sua divisão em grupos e subgrupos, além da partidarização da instituição. No governo Lula, a PF tem sido eficiente no combate ao crime organizado, mas tem sido de uma incapacidade terrível quando teve que investigar membros do governo.

O envolvimento da ABIN nas investigações sobre o banqueiro Daniel Dantas é parte desta história. Certamente o Delegado Protógenes Queiroz sentiu-se com costas quentes para ir além da lei e criar o seu aparato particular de investigação, às custas do erário, é evidente.

A impunidade provoca frustrações na sociedade, que desprotegida, acredita que a salvação virá de “justiceiros” do tipo do delegado Protógenes Queiroz. Aliás, ele próprio se acha uma lenda viva e atribui a si próprio o papel de representante do bem na luta contra o mal, ou seja, a corrupção.

Esse discurso do “paladino da justiça” encontra ressonância, infelizmente, em forças de esquerda, como o PSOL. O partido de Heloísa Helena peregrina pelo país. Leva o delegado a tiracolo. Apresenta-o  como o Dom Quixote a serviço da verdadeira República.

Protógenes é um prato cheio para a psiquiatria e a psicologia. É daqueles que se vêem acima dos mortais e ao mesmo tempo se acha perseguido por todos os lados, devido à missão que atribuiu a si próprio. A Veja fecha a sua matéria-denúncia informando o título do livro autobiográfico que o delegado está escrevendo: “Protógenes, a lenda”. Mais emblemático, impossível.

Em condições normais, importa muito pouco a personalidade do delegado.

Preocupante de fato é assistir como uma pessoa dessas prosperou dentro de um regime democrático e republicano e causou os danos que agora vêm à tona, embora vários deles já emergiram anteriormente.

As fragilidades do nosso sistema político e policial estão escancaradas. Para se combater e destruir essa e outras tentativas de construção de estados paralelos, não se pode restringir as investigações a um delegado que não pertence aos quadros dirigentes da Polícia Federal. Há mais gente no andar de cima,  possivelmente em mais de uma das instituições republicanas e em mais de um dos Poderes.

A questão Protógenes (e dos que lhe estão acima) é suprapartidária. As instituições e forças políticas democráticas e republicanas têm de matar a serpente que acaba de sair do ovo.

Do contrário, as conseqüências são conhecidas.



Escrito por pitacos às 11h21
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