Embraer e jogo de cena

Em matéria de jogar para a platéia, Lula é impagável. Assim que a Embraer anunciou a demissão de 4.200 trabalhadores, o Presidente montou o maior circo. Alegou que foi traído pela empresa e que tudo faria para reverter as demissões. O encontro entre o presidente e os diretores da empresa, que disputa com a Bombardier o status de terceira maior construtora de aviões do mundo, comprovou que o presidente fazia de cena. Lula sabia que estas demissões eram irreversíveis, porque são decorrentes de um fator sobre o qual o seu governo não tem quase nenhum poder de fogo para evitar seus efeitos devastadores. Grave é a informação, divulgada por vários órgãos de imprensa, não desmentidos, de que Lula e vários ministros tinham conhecimento prévio das demissões. A Embraer depende quase exclusivamente do mercado internacional. Os grandes clientes são os Estados Unidos, países da Europa e a China, exatamente as economias mais afetadas pela crise mundial. Com a atual crise, o mercado internacional de aviões despencou ladeira abaixo. Encomendas foram canceladas. Outras, postergadas. No caso da Embraer isso representou uma diminuição de quase 30% da produção que estava praticamente contratada. Rapidamente, a empresa viu-se diante da diminuição do seu faturamento da ordem de um bilhão de dólares. A Embraer é uma empresa que, quando era estatal, estava á beira da falência, Representava um saco sem fundo para o Estado, que a toda hora tinha que injetar recursos do Tesouro. Privatizada, a Embraer conquistou uma importante fatia do mercado internacional e se transformou na terceira exportadora do país, atrás apenas a Vale e da Petrobrás. Com um detalhe: ela exporta um produto altamente sofisticado e de alto valor agregado. Seus aviões são um dos poucos produtos da pauta de exortação do país que não são commodities. A empresa de São José dos Campos tornou-se a terceira maior empresa do mundo, atrás apenas da Boeing americana e da Airbus da Comunidade Européia. Fabrica aviões de quase todos os portes, inclusive militares. É líder mundial em alguns segmentos da aviação, tais como nos caças subsônicos, os tucanos e os supertucanos. Para continuar desempenhando um papel de ponta, a Embraer tem que se ajustar com o novo momento mundial, que não é um céu de brigadeiro. Suas concorrentes estão seguindo esse caminho, com uma diferença: o governo dos seus países, como faz o Canadá com a Bombardier, ajuda na busca de uma solução, em vez de atrapalhar. Para se manter na disputa, a Embraer teve que enxugar seus quadros de funcionários, em função de uma realidade que Lula fingiu ignorar. Quanto mais numa empresa que depende diretamente do mercado internacional. Aqui, o governo é impotente para ajudar na sua reativação. É irrisório acreditar que o futuro da Embraer estará garantido com a aquisição de algumas naves pela nova companhia aérea brasileira, a Azul e através de financiamentos do BNDES. Essas aquisições, se ocorrerem, serão positivas, mas não passarão de uma gota no oceano: a compra de quatro aviões. Isso é muito pouco, quando comparado com o que a Embraer deixará de produzir para os mercados de ponta. As perdas são estimadas em 80 aeronaves a curto prazo, num universo de 250. É por isto que Lula amansou a voz, quando na reunião com os diretores da empresa brasileira. Ele sabia que suas bravatas não alavancariam o mercado internacional e que a emenda poderia ser pior do que o soneto. Se tomasse medidas retaliativas, como a suspensão de financiamentos do BNDES, só estaria agravando o quadro e criando condições para novas levas de demissões, além de injetar sangue diretamente na veia da Bombardier canadense. Ou seja, Lula teve que se contentar em fazer um apelo patético para que a empresa ajude os demitidos. Resolveu dar o dito por não dito. Afinal de contas, para aquilo que lhe interessa – a preservação de sua popularidade – ele já tinha conseguido o seu objetivo. Mais uma vez, Lula se safou ao vender a imagem segundo a qual não tinha culpa pelas demissões, que ocorreram por obra de “empresários e empresas gananciosos.” Empregos não são gerados por decreto presidencial ou por atos da Justiça. O Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo resolveu dar uma liminar às centrais sindicais. Suspendeu as 4.200 demissões da Embraer, sob o pretexto de que a empresa se recusou a negociar com as entidades sindicais. Não temos condições, nesta matéria, de avaliar qual deveria ter sido o número de demissões, nem se deveriam ter sido demissões ou redução da jornada de trabalho e dos salários da totalidade dos trabalhadores da Embraer. Ou, ainda, os benefícios que deveriam ser dados aos demitidos. A questão é de fundo. Uma empresa privada deve ter o direito de contratar e de demitir, desde que o faça rigorosamente dentro dos termos da Lei. É recomendável, evidentemente, que negocie com os sindicatos. Essa última questão não é exigência legal, mas uma questão de bom senso, apenas. A liminar da Justiça é do tipo populismo judicial, que mais atrapalha do que ajuda. Do ponto de vista legal, a empresa estará respaldada se tiver cumprido as obrigações trabalhistas e indenizatórias. Esse tem quase 100% de chances de ser o entendimento da instância superior do Justiça do Trabalho. As concorrentes internacionais da Embraer devem estar adorando a decisão da Justiça do Trabalho do Brasil. Se for mantida tal decisão, a empresa brasileira ficará em situação adversa para disputar e manter fatias de um mercado altamente competitivo e exigente. Mas é possível que as centrais sindicais estejam também fazendo um jogo de cena e objetivem ampliar os benefícios concedidos aos demitidos da Embraer e que, ao final, concordem com as demissões. Se isso for verdade, a Justiça do Trabalho está sendo o fórum para que hajam medidas compensatórias e para que os demitidos não fiquem de mão abanando. Se for assim, menos mal, até porque a disputa e a barganha fazem parte do jogo entre patrões e empregados. Agora o que não pode é ignorar as condições objetivas que ditam o ritmo da economia e das empresas. O capitalismo tem sua lógica. A maior delas é de que ele se guia pelo lucro. Está para nascer o capitalismo samaritano, aquele que ignora as crises econômicas e a retração do mercado. Nesse capitalismo real, as empresas contratam ou demitem funcionários, de acordo com a conjuntura. Quando há um crescimento da demanda, elas ampliam investimentos e contratam novas levas de trabalhadores. O inverso também é verdadeiro. Quando há a retração do consumo, investimentos são suspensos e empregos são eliminados. O trágico do capitalismo é que os empregos perdidos em tempo de tempestade nunca são recuperados na mesma proporção, quando vier a bonança. É possível que partes dos demitidos da Embraer jamais voltem a trabalhar na indústria de aviação, o que será uma realidade cruel. Em tempos de tempestade, compete ao governo ampliar o guarda-chuva do seguro-desemprego e adotar uma política de reciclagem profissional da mão obra demitida, para que ela encontre outro nicho do mercado formal de trabalho. O resto é farisaísmo, do mais rastaqüera.
Escrito por pitacos às 09h57
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