Pitacadas 2009: 27/2
Sinais invertidos São inquestionáveis as declarações de Gilmar Mendes, presidente do STF sobre as práticas ilegais de diversos movimentos sociais rurais, destacadamente o MST (mas não só ele). Gilmar Mendes põe o dedo na ferida. Esses movimentos passam por cima da Constituição, gozam de impunidade e são financiados quase na totalidade pelos repasses de verbas públicas. O presidente do STF vai mais longe. De um lado, há que se processar e penalizar os ditos movimentos. E por outro, também processar e penalizar os órgãos governamentais e as autoridades públicas que irrigam as práticas ilegais. O mais importante do pronunciamento de Gilmar Mendes é que ele não faz as costumeiras colocações genéricas, do tipo, “há que se defender a Constituição”, “as formas de luta desses movimentos não podem extrapolar a legalidade” e tautologias do gênero. Ele aponta o caminho para o Ministério Público agir, com destaque para a responsabilização dos autores, mandantes e cúmplices. Por outro lado, o pronunciamento de Gilmar Mendes denuncia um perigoso grau de degeneração dos poderes da República. Os ministros do STF (e de qualquer tribunal) devem se pronunciar exclusivamente nos autos dos processos que julgam. Eles não foram eleitos em cima de concepções políticas. Muito menos representam parcelas da sociedade. A politização do judiciário, sob qualquer matiz, é inaceitável num regime democrático. Na verdade, Gilmar Mendes ocupou um espaço que caberia às oposições. Os acontecimentos do Rio Grande do Sul, do Portal do Paranapanema e de Pernambuco foram os estopins. As oposições, acanhadas, dispersas e desorientadas, abrem espaço para a politização crescente do judiciário. Sérgio Guerra, Rodrigo Maia e Roberto Freire e outros, sem abdicar da luta pela penalização de Lula e de Dilma Rousseff na questão eleitoral do encontro dos prefeitos, têm a obrigação de ocupar e ampliar o espaço aberto por Gilmar Mendes. Do contrário, a conseqüência poderá ser a insignificância das oposições. Globalização mitigada Os Estados Unidos marcam-se como um país aberto às importações, quase irrestritas. A exceção é os subsídios agrícolas, um anacronismo na maior nação capitalista do planeta. Em seu discurso, Barack Obama propõe dois movimentos. Pela primeira vez, em décadas, a presidência americana defende a “substituição de importações”. É um filme que já conhecemos, bem como suas conseqüências. Obama cita o exemplo da indústria automobilística. As baterias dos veículos americanos são compradas na Coréia. Absurdo!!!! Há muitas “baterias” em questão. Na verdade, Obama acena com concessões a setores atrasados do capitalismo americano. Se este é um movimento “tático”, ou “estratégico”, só os próximos anos dirão. Dependendo da sua extensão, as conseqüências poderão alterar em parte o sentido da globalização, ao desencadear uma onda protecionista. Por outro lado, Obama toca numa questão que há décadas polariza a economia americana: o fim dos subsídios agrícolas. O outrora chamado “terceiro mundo” aplaude, por razões óbvias. As grandes empresas agrícolas e a agricultura familiar partem para a ofensiva, mas dificilmente sairão vitoriosas. Ao contrário das “baterias”, cuja escala não é tão expressiva, pelo menos por ora, a questão agrícola coloca-se noutra dimensão. A modernização e a racionalização certamente levarão à extinção de muitos, à especialização e à abertura (sem sobretaxas, ou com sobretaxas inexpressivas) da importação de produtos agrícolas sobretudo das nações menos desenvolvidas. As previsões que davam a gestão democrata como generalizadamente protecionista batem com os burros nágua. Pelo menos em perspectivas. A “ditabranda”, tempestade em copo dágua “Daí a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus”. Fiquem tranquilos. Não passamos a misturar religião com política (mesmo porque ....). Queremos meter a colher nessa discussão sobre o editorial da Folha de São Paulo, do dia 17/2, que já causa manifestos, abaixo-assinados e coisas do gênero. “Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente." (Editorial da Folha, 17/2) O editorialista quis opor a ditadura brasileira (64-85) às proto-ditaduras em construção na América Latina, notadamente a de Chavez, na Venezuela. No Brasil, a ditadura foi fruto de um rompimento das instituições e criou as suas, sob total controle, embora com uma margem microscópica de liberdade policiada. Nos países citados no editorial, Venezuela e Peru, o movimento foi o contrário. Líderes populistas foram eleitos em contextos democráticos e partiram para instituir mecanismos liberticidas, sob seu controle. O termo “ditabranda” para caracterizar o Brasil da época foi desastroso. Não expressou o conteúdo da matéria. Poderia ter sido algo como “ditadura auto-institucionalizada”, ou “ditadura auto-legalizada”, dentre outros. Elio Gaspari foi preciso: “ditadura escancarada” e “ditadura envergonhada”. As expressões buscaram caracterizar os dois grandes períodos da ditadura brasileira. O centro do editorial é a questão de Chavez na Venezuela. Trata da construção de mecanismos antidemocráticos via a própria democracia. Em lugar desses veementes protestos contra a Folha, o correto seria exigir a reparação do termo, sem muita marola. Para que não prospere a máxima “não li e sou contra”, Pitacos reproduz o editorial da Folha, na nota abaixo.
Escrito por pitacos às 11h54
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