Incoerência

Jarbas Vasconcelos chutou o balde, em sua entrevista nas páginas amarelas da Veja deste fim de semana (para ler, clique aqui).
Sem papas na língua, descreveu seu partido, o PMDB, como um antro de corruptos. Segundo ele, “a maioria de peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral.” Temos o maior respeito pelo senador pernambucano. Mas não podemos fazer vistas grossas diante sua incoerência. Afinal de contas, se o PMDB é tudo o que ele falou, por que Jarbas Vasconcelos continua filiado a ele? Aliás, depois que ele queimou todas as pontes, esse é o único caminho que deveria adotar: a desfiliação imediata do PMDB. Como não adotou esta via, ficou sujeito a ser chamado de incoerente pelo líder do partido na Câmara, Henrique Alves, que estranhou o fato de ele desancar o PMDB, mas continuar filiado a ele. Não vamos entrar aqui no mérito de se Jarbas está certo no seu diagnóstico do PMDB. É possível que ele tenha razão em muitos aspectos, embora o clientelismo e o fisiologismo não sejam monopólios do PMDB e se manifestem em praticamente todos os partidos. O problema é que Jarbas Vasconcelos se assemelhou a uma metralhadora giratória. Atirou para todos os lados. No fundo, fez o jogo dos seus adversários internos ao colocar todos os peemedebistas no mesmo saco, como se indistintamente fossem todos eles corruptos. Esta pecha não pode ser aplicada indistintamente. Citemos só alguns: José Fogaça e seus companheiros do Rio Grande do Sul; Luiz Henrique e os peemedebistas de Santa Catarina e mesmo o ministro da Saúde, Temporão, de quem se pode discordar, mas não pode ser acusado de corrupção. Toda acusação genérica leva à injustiça. Em nome da coerência, exige-se que o senador pernambucano individualize suas acusações. Seria recomendável também que ele cite fatos concretos, para que sua denúncia tenha credibilidade. Em certo sentido, a entrevista de Jarbas só reforça o descrédito na política. Se o PMDB, na totalidade, é o que ele descreveu, se os outros partidos são mais ou menos a mesma coisa, como crer na política? Esse é o lado ruim de sua acusação ao PMDB como um todo . Reforça a apatia política e o sentimento da população de que “todo político é ladrão”. Há outro risco adicional. Sem querer, Jarbas Vasconcelos pode ter jogado o PMDB inteirinho para os braços de Lula. Esperto como ele é, o presidente da República poderá assumir a defesa dos peemedebistas, dizendo que seus ministros e demais aliados peemedebistas são os mais éticos do mundo. Ora, se Lula defendeu até os mensaleiros, quem dirá o PMDB, do qual ele espera obter o apoio para a candidatura de Dilma. No mundo real da política, não dá para ignorar o peso do PMDB. Com seus defeitos (e são muitos) e virtudes. Façamos uma pergunta singela: Serra e Aécio dispensariam o apoio desse PMDB que está aí, com Geddel Vieira, Michel Temer e demais? Claro que não. Qualquer candidato que queira ser competitivo em 2010 quer contar com esse partido, ou ao menos com o apoio de sua parcela majoritária. Pelo que se deduz de suas palavras à revista Veja, Jarbas Vasconcelos está profundamente desencantado com a política e anuncia que não será candidato a mais nada. Como opção individual, ela tem que ser respeitada. Para o Senador, pode ser uma alternativa, mas não o é para o país. O niilismo não nos levará a lugar algum. O aumento do descrédito nas instituições – entre os quais os partidos – só ajuda a aumentar os elementos corrosivos da vida política nacional, dentre os quais o clientelismo, o fisiologismo e a visão patrimonialista do Estado. Jarbas Vasconcellos tem muito crédito na luta pela democracia e pela República em nosso país. Não é demais esperar que ele, corajoso como sempre é, corrija seus posicionamentos e, se quiser, individualize e prove as acusações que faz, para que elas tenham conseqüências positivas.
Escrito por pitacos às 12h39
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