Pitacos: política brasileira em foco
   Pitacadas (6/fev/2009)




O caso Cesare Battisti deve ser enfrentado pela raiz.

A Itália, na época dos alegados crimes e do julgamento, era ou não uma democracia?

Se a resposta for afirmativa, não há escapatória. É mandatório o respeito às deliberações de sua justiça.

É evidente que o ministro Tarso Genro decidiu de olho em 2010, na intenção de arvorar-se como o unificador da esquerda e da extrema-esquerda petista. Seu posicionamento para rasgar a Lei da Anistia e punir os supostos criminosos do outro lado segue na mesma direção.

Tarso Genro – e o próprio Lula – não faziam idéia do que o caso Battisti iria acarretar, em termos de repercussão política na Itália e na Europa, agora com as primeiras implicações comerciais.

O executivo não tem como recuar, sem desmoralização e prova de irresponsabilidade.

Quem pariu Mateus agora torce para que o Supremo Tribunal Federal encontre alguma filigrana jurídica para resolver a questão.

Tarso Genro é a autoridade máxima e exclusiva nas questões de asilo e de abrigo de estrangeiros. Está na lei. Por esse caminho o STF nada tem a fazer.

Membros da Corte Suprema já acharam pelo em ovo, em termos do que é extradição. Pode ser a luz no fim do túnel.

Se o STF reformar a decisão do ministro, ele pode alegar que foi duro, correto e destemido, mas que a Justiça fez o seu papel e que não cabe questioná-la. Lula caminhará na mesma direção e até louvará a democracia e a independência dos poderes. A Itália talvez aceite, sem reservas, e jogue para debaixo do tapete as agressões de Tarso Genro. Os ministros do STF rirão de lado a lado, por terem, mais uma vez, recolocado a democracia nos eixos.

Por outro lado, todo o exposto irá por água abaixo, se o pelo no ovo não se mostrar consistente.

O contencioso com a Itália aumentará. Berlusconi terá um prato cheio para afirmar-se. As retaliações comerciais – hoje irrisórias – correm o risco de aumentar. Se isto acontecer, a saída seria Tarso Genro cascavilhar sólidos argumentos legais para abrigar Battisti e, ao mesmo tempo, pedir desculpas ao governo e ao povo italiano pelas agressões que fez ao seu sistema político e judicial.

Tarso Genro e sua chefia teriam grandeza para trilhar esse caminho?


Oxigênio curto

As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) estão ainda estão longe do colapso total, mas vivem uma situação dramática.

O Exército Colombiano pôs a narcoguerrilha num cerco estratégico e lhe impõe contínuas e pesadas baixas, em combate e também em deserções.

A narcoguerrilha está isolada da população colombiana, para quem, suas formas de luta são repudiadas de maneira generalizada.

No plano internacional as FARC perderam o apoio financeiro e militar dos países vizinhos da Colômbia, pelo menos no volume em que aconteciam há pouco tempo.

Nesse contexto, em busca de oxigênio, a narcoguerrilha passou a fazer uso da única moeda que ainda tem, os reféns.

De forma unilateral, começou a entregar alguns deles, como sinal de “boa vontade”. A meta é levar o governo de Uribe à mesa de negociações e, de quebra, ter visibilidade nacional e internacional.

É muito bom que reféns voltem à vida normal, independente do motivo de seus carcereiros, sobretudo quando o preço a pagar é pequeno.

É correto que forças militares brasileiras – em cooperação com o governo colombiano – ajudem no resgate.

A pressão agora é pela libertação das centenas de reféns que ainda habitam cárceres na selva colombiana. E também para reprimir ao máximo novos seqüestros e extorsões, instrumentos que as FARC usam na luta desesperada pela sua existência.


Programa de Aceleração da Comunicação

É ocioso neste espaço analisar a nova previsão do PAC e o notável aumento de suas verbas. Ao menos no papel.

O governo pode ser acusado de lesa-democracia.

As oposições demonstraram que obras já programadas ou em andamento foram incluídas (re-incluídas) para inflar o projeto.

Basta a consulta ao SIAFI o confronto entre o real e o alegado. Em praticamente nenhum dos programas do PAC as verbas empenhadas ou anunciadas foram efetivamente aplicadas.

Ontem, no Nordeste, a ministra Dilma Roussef foi confrontada pela imprensa, que lhe apresentou as contestações ao que foi divulgado por ela e por seu chefe.

“O que há é má vontade com o PAC”, afirmou, sem refutar uma única crítica.

Oposições, onde estás?



Escrito por pitacos às 15h53
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   “Crise, que crise?




Ao tomar conhecimento da pesquisa do Instituto Sensus, Lula deve ter se indagado, com certo ar de desdém: crise, que crise?

De fato, ao menos quanto à imagem do Presidente, a crise ainda não chegou ao Brasil. E não se diga que não surgiram dados negativos que afetam a vida do povão e que poderiam arranhar a imagem presidencial.

A popularidade de Lula passou incólume diante das 600 mil demissões ocorridas em dezembro último, assim como diante de outras notícias não tão perceptíveis pela população, mas de efeitos danosos, como a queda da produção industrial, também em dezembro superior a 12% e o desemprego industrial, que foi o maior desde 2003. Adicione-se ainda o déficit da balança comercial ocorrido em janeiro.

Tiro na mosca


Como explicar o novo recorde da popularidade do Presidente, se a crise já bate à nossa porta e nada tem de suave?

A oposição pode argumentar que estes fatos são recentes e que a população ainda não tomou consciência do quanto sua vida será afetada pela crise. De acordo com esta lógica, a imagem presidencial (e por tabela sua chance de fazer de Dilma a sua sucessora) será profundamente afetada mais para a frente, quando a crise mostrar toda sua brabeza.

Há um pouco de razão neste raciocínio, mas ele não explica tudo. A verdade é que Lula vem se saindo muito bem no enfrentamento da crise, no que diz respeito à batalha pela opinião pública.

De forma populista, ou não, Lula está sendo vitorioso na sua tentativa de convencer os brasileiros de que a crise é coisa de Bush e agora de Obama. A estratégia da bravata dá seus resultados e é inegável que os olhos do povão faíscam quando o nosso Presidente faz afirmações como esta de ontem:

"Precisamos gerar empregos. Nessa crise, vamos dizer para os países ricos, que até ontem diziam o que deveríamos fazer, para eles fazerem o que nós estamos fazendo.”

Música aos ouvidos


Isto soa como música para um povo que não quer saber de ave de mau agouro e que é um otimista, antes de tudo.

Nisto somos radicalmente diferentes dos argentinos. Os portenhos curtem aquela música fossenta e nostágica, o tango. Os brasileiros são do samba e do frevo.

Nossos vizinhos são nostálgicos, acreditam que o passado foi melhor do que o presente e que o futuro será ainda pior. Nós, brasileiros, achamos que hoje está melhor do que ontem e que amanhã será melhor ainda.

Isso explica, em parte, porque a pesquisa Sensus detectou que voltou a crescer a confiança dos brasileiros, quanto ao aumento de sua renda e de manter o seu emprego. E tudo isso em um mês em que aconteceram 600 mil demissões!

O novo recorde da popularidade de Lula é também rescaldo da época das vacas gordas e dos acertos de seu governo de dar continuidade ao que estava dando certo em matéria de política econômica. Tivesse ele seguido o caminho do populismo, poderia estar numa situação muito similar à de Cristina Kirchner, cuja popularidade despencou ladeira abaixo, em pouco mais de um ano.

Elites nas alianças


Ao contrário de Chavez, Evo Morales e Rafael Correa, Lula fez das tripas coração, mas não rompeu com as forças políticas tradicionais, nem com as elites. Ao contrário, se compôs com elas e montou uma base aliada ampla.

O governo Lula também não deu grandes derrapadas no enfrentamento da crise. Pode não ter sido inovador, mas não cometeu nenhum grande desastre. Na primeira besteira que fez, recuou rapidinho, deixando de lado a bobagem de impor barreira protecionista para as importações.

A crise também deixa a oposição em saia justa, o que, indiretamente, beneficia Lula. Os partidos oposicionistas não podem aparecer como pescadores de água turvas, como se estivessem torcendo para que o país degringole.

Ao contrário, são forçados a atuar na estreita faixa da “oposição construtiva”. Não podem combater as iniciativas do governo voltadas para o enfrentamento da crise. Ao contrário, são obrigados a apoiá-las e a tentar melhorá-las por dentro.

Ninguém tem bola de cristal para afirmar se Lula continuará a ser o dono da bola e que sua popularidade, em 2010, será a mesma dos dias de hoje. Mas é bom não subestimar sua capacidade de influenciar, de forma decisiva, a eleição de seu sucessor.

Não pescar em águas turvas


O que dá para constatar e que, por enquanto, ele está toureando a crise e sua popularidade está inabalável. A esfinge a ser decifrada é se ela continuará a mesma se a crise se transformar em um imenso oceano de águas turvas e perigosas. Torcemos para que esta desgraça não aconteça.



Escrito por pitacos às 11h24
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   Renan, o vencedor




O PMDB faturou a primeira, com a vitória folgada de Sarney para presidente do Senado. Mas o vencedor mesmo é Renan Calheiros, que renasceu das cinzas e voltou a dar as cartas na Casa.

Esse é o lado ruim do resultado. O problema não é a figura de Sarney, mas sim as forças que se somaram à sua candidatura, articuladas por Renan Calheiros. Deste ponto de vista, o Senado voltou a dar as costas à opinião pública e pautou-se pelo corporativismo, a exemplo do que fez no ano passado, quando Renan foi absolvido por seus pares.

Foi emblemático o discurso de Sarney. Voltado para dentro, para seus pares e para o conjunto da corporação, inclusive seus funcionários.

Para uma Legislativo refratário a mudanças, as suas palavras soaram como música, porque sua eleição é a garantia de que nada mudará. Ou que se mudanças ocorrerem, serão cosméticas ou técnicas. Jamais irão no rumo de resgatar a credibilidade do Parlamento perante a sociedade.

Concretamente, a candidatura de Tião Viana era a que apontava mais para esta mudança imperiosa, como ficou claro em seu discurso. Talvez por isso mesmo tenha sido derrotado. A maioria dos senadores está profundamente satisfeita com o status quo. Se é assim, por que eles iriam votar em quem prega a mudança?

Por que a frente foi tão folgada, contrariando a avaliação que estava em todos os jornais e blogs de hoje? Ainda é cedo para ter o mapa da "traição”, mas uma coisa ficou clara.

Seguramente o líder do PSDB, Artur Virgílio blefou ao dizer que Tião teria o voto de 12 dos 13 senadores tucanos. Com muito otimismo, pode-se dizer que teve nove votos de tucanos, talvez menos.

É mais um desgaste para o PSDB, que mostra dificuldades para marchar unido em questões elementares.

Com a vitória, a dupla Sarney-Renan se fortalece no interior do PMDB, o que por tabela, não é bom para o PMDB da Câmara, leia-se o de Michel Temer e Geddel Vieira Lima. A conferir como eles vão gerir o partido, se de forma compartilhada com a turma de Renan, ou não.

A conferir também  -logo mais - qual será o impacto da eleição no Senado na disputa da Câmara Federal.

PS: O fator Sarney não interferiu decisivamente no resultado da Câmara Federal. Deu Michel Temer com  folga razoável. Para a instituição, foi melhor a vitória de Temer. A vitória de Ciro Nogueira seria o retorno do " baixo clero', que sempre se move em função dos seus interesses clientelistas e corporativistas. Com o resultado, o PMDB virou o bam-bam-bam do pedaço, comandando as duas Casas Legislativas. Mas os peemedebistas não são um todo. É como se existissem dois PMDB: um no  Senado e outro na Câmara. É previsível uma disputa interna  para saber quem terá maior peso na definição de qual será a posição do PMDB EM 2010. Se  estará ao lado do lulopetismo ou da oposição.



Escrito por pitacos às 14h20
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   Pitacos: periodicidade

A partir desta segunda-feira (02/02/2009), Pitacos muda sua periodicidade.

Passaremos a publicar as notas três vezes por semana, nas segundas, quartas e sextas-feiras. Evidentemente, sempre que o momento político justificar, sairão notas extraordinárias.

Duas são as razões da mudança.

Nosso blog é político e opinativo. Nem sempre é possível, devido à conjuntura, manter essa característica, com qualidade, uma vez que não são todos os dias que têm fatos novos a serem analisados.

A segunda razão é que o “núcleo duro” de Pitacos, que discute a pauta, escreve as matérias, faz as revisões, edições e as e publica tem limites profissionais, na atualidade.

A redução dos dias de publicação pode, por outro lado, ser cúmplice da melhoria da qualidade, em todos os planos, do blog que completa três anos no dia 11/2/2009. 



Escrito por pitacos às 11h46
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   Hipermercado




O Fórum Social Mundial, realizado em Belém, passou ao largo da conjuntura nacional e internacional.

Não se pode negar sua representatividade. Participaram alguns milhares de ONGs e centenas de movimentos sociais de todos os continentes, além de milhares de participantes individuais. Quatro presidentes latino-americanos também estiveram presentes.

Criticam-se o esquerdismo desenfreado, se é que pode ser assim caracterizado, o “folclorismo” de parcela significativa dos seus participantes e o caleidoscópio de suas reivindicações.

A marca do Fórum é a negação das instituições estatais, de todos os quadrantes, exceto, durma-se com isso, dos países latino-americanos “aliados”, Venezuela, Bolívia, Equador e o noviço Paraguai.

Antes criticava-se a globalização, com unhas e dentes, como se fosse possível à humanidade permanecer nas economias autóctones. Em lugar da luta para se erradicar e amenizar as injustiças do capitalismo planetário, o foco era sua negação, romântica, ingênua e regressionista.

Agora, num salto inexplicável para ele mesmo, o fórum pede a intervenção estatal global para disciplinar o sistema financeiro internacional.

O “folclorismo” poderia ser apresentado como curiosidade, o que seria válido. No entanto, ele é apresentado como forma de resistência, de novo, ao capitalismo, “que destrói as manifestações populares”.

Não estamos falando, nem por brincadeira, do “bicho-grilismo”, mas de manifestações tais como as inúmeras danças dos índios brasileiros, devidamente caracterizados.

O número de indígenas brasileiros isolados da civilização é irrisório, diante daqueles emancipados. As reivindicações destes nada têm a ver com isolamento, mas se situam, quase todas, no território da saúde, educação e infra-estrutura econômica, sobretudo a agricultura e a exploração sustentável das florestas. Fugir delas é confiná-los ao isolamento e à exterminação.

Quem assistiu às danças teve a impressão de que os isolados defendiam sua condição. Um delírio para as câmeras européias.

O esquerdismo e o folclorismo não causariam problemas maiores se houvesse foco nas reivindicações.

Nesse território apresentou-se um hipermercado. Cada grande segmento e também os microscópicos apresentaram suas próprias reivindicações. A rigor, foram centenas delas, talvez alguns milhares.

Com boa vontade, pode-se dizer que as questões amazônicas tiveram algum destaque. Mas foram tantas “sub-questões”, que é praticamente impossível caracterizar-se qual a reivindicação “amazônica” do Fórum.

Pode-se dizer, sem margem de erro, que foram tantas e díspares as reivindicações, que o Fórum, neste particular, merece ser chamado de hipermercado de propostas.

Como tal, não tem marca.

Os presidentes latino-americanos discursaram sem compromisso com a representação política que detinham. A competição foi quem se apresentava como mais esquerdista. Chavez, é claro, largou e chegou na frente da corrida.

O presidente Lula teve um comportamento dúbio, mas com uma marca. Radicalizou seu discurso em alguns momentos, muito mais na retórica e gritaria. Teve a coragem, que deve ser aplaudida, de manter na essência o discurso que vem proferindo mundo afora. Em nada comprometeu a imagem nacional e internacional de sua proposta. Menos mal.

O Fórum Social Mundial segue sendo um enorme convescote, apoiado pelos governos sede de seus eventos, numa contradição não enfrentada pelos seus membros.

Afinal, quando interessa, o capitalismo tem suas vantagens. 



Escrito por pitacos às 11h13
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