Pitacos: política brasileira em foco
   O pleito de Aécio

 

Tudo bem que Serra tem movimentado suas peças com maestria e dado provas de sua capacidade de somar. E é ótimo que seu nome venha liderando as pesquisas de intenção de voto para presidente. 

Mas nem por isto seu nome está ainda sacramentado como candidato, pelo PSDB, a presidente da República. É importante que não seja ignorado o pleito de Aécio Neves e que seja oferecida uma saída honrosa para o governador mineiro, para que a provável candidatura de José Serra não seja vítima do fogo amigo verificado nas disputas passadas.

Quais são as reivindicações que Aécio faz hoje ao partido? Solicita que lhe seja dado um tempo para que percorra o país e tente reverter a intenção de votos que hoje lhe é adversa, quando comparado com a de Serra. 

Quer também que a escolha do candidato dos tucanos para a presidência da República se dê através de uma prévia.

A priori, não vemos nada demais nas duas reivindicações de Aécio. Dentro do razoável, é justo que ele tenha um tempo para tentar convencer as " bases" sobre suas reais chances de vitória. 

E a prévia, na hipótese bastante provável de ele não ser o escolhido, pode ser a saída honrosa para que Aécio convença os mineiros de que ainda não chegou a sua vez e que a hora é da candidatura de Serra.

A cúpula do PSDB teme a prévia como o diabo teme a cruz e diz que ela  dilacera a unidade interna e não é da tradição do partido. Bom, e qual é a tradição e o que ela gerou?

A cultura da escolha de candidatos pelos tucanos não é boa. Na maioria das vezes se deu entre quatro paredes - ou em mesa de jantar - nas quais é ouvido apenas um número reduzido de cardeais e caciques tucanos.

Este caminho gerou desastres em 2002 e 2006 e não propiciou a unidade partidária. E o que dizer da divisão dos tucanos na disputa da Prefeitura de São Paulo? Também aqui faltaram condutos democráticos que evitassem o racha.

Ao contrário do que teme cúpula do PSDB, a realização de uma prévia para definir se o candidato será Serra ou Aécio necessariamente não provocará fissuras e pode até evitá-las. 

A prévia só deixará de ter sentido se Aécio Neves, por livre e espontânea vontade, se convencer que a hora é da candidatura de José Serra.

Em caso contrário, recomenda a prudência que lhe seja oferecida esta alternativa. 

Aécio Neves não é um Zé Migué qualquer. É um quadro histórico do PSDB e a principal liderança de um estado que representa o segundo colégio eleitoral do país e que o quer como candidato a presidente da República.

A hora é de se ter paciência e tolerância com o governador mineiro. É natural que ele esteja com o ego melindrado diante a brilhante jogada de Serra de trazer Alckmin para o seu lado. 

Mais do que ninguém, Serra sabe que necessita ter Aécio ao seu lado. Como o governador paulista tem dado provas de sua capacidade de articulação, somos otimistas quanto a um desfecho positivo que viabilize a unidade tucana, em 2010. 

A existência de dois nomes competitivos para 2010 pode ser um bom ou um péssimo problema. Ela é ótima se for costurada a aliança entre os dois pesos pesados, em matéria de votos. Mas será um baita pepino se desaguar em uma divisão que pavimente o caminho para a continuidade do lulopetismo no poder.

 Para evitar o mal, vale todo e qualquer sacrifício. Inclusive o de aceitar as prévias como um instrumento para a definição do candidato da oposição. 



Escrito por pitacos às 11h47
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   A queda de juros

 

Finalmente caiu a ficha do Banco Central e ele se pôs em sintonia com o grande clamor nacional pela queda da taxa básica dos juros. Antes tarde do que nunca. 

A política de juros altos foi correta em outra conjuntura, quando havia a ameaça do descontrole inflacionário e era necessário dar garantias de que a estabilidade da economia e da moeda continuaria sendo um dos pilares da política econômica do país. Mas tornou-se inoportuna em uma conjuntura de desaceleração econômica e de crise. 

Mesmo com o corte de um ponto, o Brasil continua sendo campeão mundial de juros e tem a mais elevada taxa, em termos de juros reais. O segundo lugar fica com a Hungria.

Diversos países passaram a praticar juros reais negativos, com o advento da crise. O Brasil não tem condições para tal, mas tão pouco pode conviver, em tempos de crise, com taxas elevadíssimas que inibem o investimento.

Na verdade, o Banco Central demorou a perceber a mudança dos ventos. A inflexão da política monetária já deveria ter ocorrido antes.

Esta era a posição de José Serra, que não é dado a irresponsabilidades. Entendia ele que desde o início da crise mundial, a economia brasileira reunia condições para que a taxa Selic fosse reduzida de forma rápida e significativa: juros internos altos, forte queda dos juros internacionais, contração da demanda interna e externa e deflação dos preços das commodities de importação e exportação.

De acordo com o seu pensamento, a política monetária estava errada antes mesmo do advento da crise, ao manter os juros exageradamente altos e supervalorizar o câmbio, nos últimos anos. Serra sempre foi um crítico da valorização artificial do real, desde a época em que esta mesma política foi adotada pelo governo de Fernando Henrique.

Em certo sentido, o Banco Central surpreendeu ao efetivar um corte superior às expectativas do mercado, que estimou o corte em 0,75%. 

Isto pode permitir uma outra leitura. O BC já teria dados sobre o desempenho da economia em janeiro e eles seriam desanimadores. Parte do mercado fez esta leitura. 

A demora na adoção de outra política trouxe desgastes para a imagem das autoridades monetárias, sobretudo para o presidente do Banco Central, Henrique Meireles, que no limite poderia perder o seu cargo se mantivesse a política de juros altos.

Ou como Lula lhe ameaçou: " Qualquer corte abaixo de 0,75%, é inaceitável." 

Isto não é bom. Fica parecendo que os juros baixaram em função das pressões políticas e sociais. As centrais sindicais estão alardeando esta versão, que tem muito de fantasia. 

Bem ou mal, a direção do Banco Central contribuiu para a manutenção dos fundamentos da política econômica adotada pelo governo Fernando Henrique e isto deixou o país menos vulnerável do que no passado, para enfrentar a atual turbulência internacional. 

De qualquer maneira, a redução da taxa de juros deva ser saudada. Ela é um passo importante para a retomada do crescimento.

Mas não resolve tudo e fica o problema maior de o que fazer para que haja uma queda significativa do spread bancário, a diferença entre a taxa Selic e os juros cobrados pelos bancos - públicos e privados. 



Escrito por pitacos às 10h57
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   Mudanças essenciais




O discurso de posse de Barack Obama, na presidência dos Estados Unidos, tocou em praticamente todas as questões essenciais da nova política norte-americana, inaugurada com a chegada ao poder dos democratas, após oito anos da era Bush.

Quem imaginava um pronunciamento veemente, repleto de figuras de retórica e entusiasmante, deu com os burros nágua.

Diferenciam-se a campanha e o exercício da presidência. Obama fez um pronunciamento curto (20 minutos), direto. Obviamente valeu-se de figuras de retórica de praxe, exponencialmente menos do que os grandes discursos da campanha.

Em todo o texto houve uma lacuna preocupante. Não há uma única palavra sobre a política de imigração. Dezenas de milhões de pessoas do mundo todo, majoritariamente latino-americanos, trabalham e vivem na ilegalidade, sofrendo todas as conseqüências dessa condição.

É incompreensível essa lacuna, a não ser se, perigosamente, Obama dobra-se à xenofobia dos setores mais direitistas dos republicanos. A conferir nas primeiras semanas.

O discurso de Obama está marcado por algumas questões-chaves.

Crise econômica

A ênfase na superação da crise está na união nacional, na recuperação do orgulho nacional, mas sobretudo nos investimentos em ciência e tecnologia, com destaque para as novas formas de energia e pelo engajamento das instituições universitárias e de pesquisa nesse caminho. E também para a reforma do poder público, visando eficiência e redistribuição de renda (barateamento da assistência médica, das contribuições para as aposentadorias, dentre outros).

Estado e mercado

Obama tocou nas teses caras aos democratas a respeito do tamanho do Estado. A discussão sobre Estado mínimo ou máximo é ociosa.

O que vale é o Estado cujo tamanho o leve a cumprir seus objetivos. Os republicanos remexeram-se em suas poltronas.

Falou claramente que o mercado padece de controles. Apenas não fez o vínculo com a atual crise, originada justamente na falta de controles sobre o sistema bancário americano.

Multilateralismo

Os Estados Unidos devem praticar a política da negociação, com todas as nações e forças políticas, sem abandonar sua defesa (leia-se o porrete) sempre que necessário.

É essencial a unidade com os demais países aliados (leia-se a Comunidade Européia).

Pacifismo

A retirada do Iraque e a pacificação do Afeganistão passam a ser objetivos de curto prazo.

Isso implica numa política de combate ao terrorismo. Ela não está clara no discurso, mas pode-se inferir que se baseia no combate via inteligência e agências especiais, e não invasão de países e também em acordos e pacificação com países “amigos e ex-inimigos” (leia-se Irã e, provavelmente, Síria, Coréia do Norte e até mesmo Cuba).

Anti-tortura

Obama propõe a retomada de uma política de direitos humanos, baseada na legalidade, para o tratamento dos inimigos dos Estados Unidos.

A conseqüência imediata desse posicionamento é o fim da base de Guantánamo e das torturas nos interrogatórios e também das condições sub-humanas de aprisionamento.

O posicionamento do novo presidente não apenas se aplica à base em território cubano, mas às prisões americanas mundo afora. Trata-se de uma mudança essencial no combate ao terrorismo internacional.

Mão estendida

Obama propõe a aproximação com os países muçulmanos, na base do respeito mútuo e das negociações, sem ceder no combate (certamente militar), quando necessário.

Já está clara a política para o Iraque e o Afeganistão, mas não foi tocado, nem de longe, o conflito entre israelenses e palestinos. Com muito esforço pode-se inferir alguma coisa, a partir da chamada “mão estendida”.

A indicação mais clara foi na sabatina que o Senado americano fez a Hilar Clinton, indicada para Secretária de Estado. Ela defendeu abertamente a constituição do estado Palestino, nas bases propostas por Billy Clinton nos anos 90. Não dá para acreditar que a senadora tenha falado por conta própria.

Amplo tecido social

Obama claramente posicionou-se em relação ao tecido social e religioso norte-americano.

Saudou a diversidade como altamente positiva. De novo, com infinita boa vontade, um observador poderá ver uma referência microscópica aos imigrantes.

Não é o achamos. O texto centraliza-se na questão religiosa. Enfatiza a tolerância.

Meio ambiente

O discurso faz várias referências à questão ambiental.

Fala claramente na busca por novas alternativas de energia, não poluentes.

O mais importante, porém, é a referência à responsabilidade americana no aquecimento do planeta, numa reviravolta no posicionamento do governo norte-americano.


Inexperiência

As colocações de Obama são diametralmente opostas ao discurso e à prática dos republicanos, dos 8 anos do governo Bush.

Representam a continuação atualizada dos dois governos de Billy Clinton. Mas contêm posicionamentos novos, que poderão fazer avançar as políticas dos democratas.

Conseguirá o novo presidente implementá-las?

Obama padece de uma deficiência crônica. Não tem qualquer experiência administrativa. É um senador federal de primeiro mandato.

Tem condições, pela política, de superar essa deficiência e realizar um excelente governo, a partir da escolha certa dos auxiliares nos postos chave, liderados pela capacidade política do novo presidente.

Ou, ao contrário, poderá se render a esses auxiliares e caracterizar seu governo pela síndrome de biruta de aeroporto, que é a navegação para todos os lados, em intervalos curtos.

Torcemos pela primeira alternativa, com todas as esperanças possíveis.

Afinal, para onde os Estados Unidos forem também irá a humanidade, no atual momento da história.



Escrito por pitacos às 10h58
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   Íntegra do discurso de Barack H. Obama na posse como presidente dos Estados Unidos

20 de janeiro de 2009

“Obrigado
Meus compatriotas,

Aqui me encontro hoje humilde diante da tarefa à nossa frente, agradecido pela confiança depositada por vocês, atento aos sacrifícios feitos por nossos ancestrais. Agradeço ao presidente Bush pelos seus serviços a esta nação, assim como pela generosidade e pela cooperação mostradas durante esta transição.

Quarenta e quatro americanos, até hoje, prestaram o juramento presidencial. Suas palavras foram ditas durante a maré ascendente da prosperidade e nas águas calmas da paz. Mas freqüentemente o juramento é prestado em meio a nuvens crescentes e tempestades ruidosas. Nestes momentos a América foi em frente não apenas graças ao talento e à visão daqueles no poder, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais de nossos antecessores e aos nossos documentos fundadores.

Foi assim e deve ser assim com esta geração de americanos.

É bem sabido que estamos no meio de uma crise. Nossa nação está em guerra contra uma rede de violência e ódio de longo alcance. Nossa nação está bastante enfraquecida, uma conseqüência da ganância e da irresponsabilidade de alguns, mas também da nossa incapacidade coletiva de tomar decisões difíceis e preparar a nação para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos foram cortados; empresas destruídas. Nossa saúde é cara demais; nossas escolas deixam muitos para trás; e cada dia traz novas evidências de que a forma como usamos a energia fortalece nossos adversários e ameaça nosso planeta.

Estes são os indicadores de uma crise, tema de dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o solapamento da confiança por todo o nosso país. Um medo persistente de que o declínio da América seja inevitável, e que a próxima geração deva ter objetivos menores.

Hoje eu lhes digo que os desafios diante de nós são reais. São sérios e são muitos. Eles não serão superados facilmente ou num curto período de tempo. Mas saiba disso, América: eles serão superados.

Neste dia nós nos unimos porque escolhemos a esperança e não o medo, a unidade de objetivo, e não o conflito e a discórdia.

Neste dia viemos proclamar o fim de nossos choramingos e falsas promessas, as recriminações e os dogmas desgastados, que por tempo demais estrangularam nossa política.

Ainda somos uma nação jovem, mas, nas palavras das Escrituras, chegou a hora de acabar com as coisas de menino. Chegou a hora de reafirmar nosso espírito resistente; de optar pela nossa melhor história; de levar adiante esse dom precioso, essa nobre idéia, passada de geração em geração: a promessa divina de que todos são livres, todos são iguais e todos merecem a chance de lutar por sua medida justa de felicidade.

Ao reafirmar a grandeza de nossa nação, compreendemos que ela não é um presente. Deve ser conquistada. Nossa jornada nunca foi aquela de atalhos ou de quem se contenta com pouco. Nunca foi o caminho dos fracos de coração – daqueles que preferem o ócio ao trabalho, ou buscam apenas os prazeres da fortuna e da fama. Foi, isto sim, o dos que correm risco, dos que fazem, dos que executam coisas – alguns célebres, mas mais comumente homens e mulheres obscuros em seu trabalho, que nos levaram pelo longo e áspero caminho da prosperidade e da liberdade.

Por nós eles empacotaram suas pequenas posses mundanas e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida.

Por nós eles trabalharam em condições ruins e se estabeleceram no oeste; suportaram o estalar do chicote e araram a terra dura.

Por nós eles lutaram e morreram em lugares como Concord e Gettysburg; na Normandia e em Khe Sahn.

Mais de uma vez esses homens e mulheres lutaram, se sacrificaram e trabalharam até que suas mãos estivessem em carne viva para que nós vivêssemos uma vida melhor. Eles viram uma América maior que a soma de nossas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascença ou riqueza ou partido.

Esta é a jornada que continuamos hoje. Ainda somos a nação mais próspera e mais poderosa na face da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos que no início desta crise. Nossas mentes não são menos inventivas, nossos bens e serviços não são menos necessários que na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece intacta. O tempo de deixar as coisas como estão, ou de proteger pequenos interesses e adiar decisões desagradáveis, esse tempo certamente passou. A partir de hoje, temos que nos levantar, sacudir a poeira e começar de novo o trabalho de refazer a América.

Para onde quer que olhemos, há trabalho a fazer. O estado da economia exige ação, ousada e rápida, e nós vamos agir – não apenas para criar novos empregos, mas para estabelecer novas fundações para o crescimento. Construiremos as estradas e pontes, as linhas elétricas e digitais que alimentam nosso comércio e nos unem. Recolocaremos a ciência em seu devido lugar, e usaremos as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade de nosso atendimento de saúde e reduzir seu custo. Usaremos o sol, os ventos e o solo para abastecer nossos carros e fazer funcionar nossas fábricas. E transformaremos nossas escolas e universidades para atender as exigências de uma nova era. Podemos fazer tudo isso. E faremos tudo isso.

Ora, alguns questionam a escala de nossas ambições. Sugerem que nosso sistema não pode tolerar planos demais. Suas memórias são curtas. Pois esquecem o que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem obter quando a imaginação se une a um objetivo comum, e a necessidade à coragem.

O que os cínicos não conseguem entender é que o chão moveu-se sob seus pés. Que as disputas políticas vazias que nos consumiram por tanto tempo não servem mais. A questão que se deve perguntar hoje não é se o governo é grande demais ou pequeno demais, mas se funciona – se ajuda as famílias a encontrar empregos com salários decentes, assistência que possam pagar, aposentadorias dignas. Onde a resposta for sim, nossa intenção é seguir em frente. Onde a resposta for não, os programas serão cortados. E aqueles que administram os dólares da população terão que assumir suas responsabilidades: gastar com sabedoria, mudar os maus hábitos, fazer negócios à luz do dia. Porque só então poderemos restaurar a confiança que é vital entre um povo e seu governo.

Ora, alguns questionam a escala de nossas ambições. Sugerem que nosso sistema não pode tolerar planos demais. Suas memórias são curtas. Pois esquecem o que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem obter quando a imaginação se une a um objetivo comum, e a necessidade à coragem.

O que os cínicos não conseguem entender é que o chão moveu-se sob seus pés. Que as disputas políticas vazias que nos consumiram por tanto tempo não servem mais. A questão que se deve perguntar hoje não é se o governo é grande demais ou pequeno demais, mas se funciona – se ajuda as famílias a encontrar empregos com salários decentes, assistência que possam pagar, aposentadorias dignas. Onde a resposta for sim, nossa intenção é seguir em frente. Onde a resposta for não, os programas serão cortados. E aqueles que administram os dólares da população terão que assumir suas responsabilidades: gastar com sabedoria, mudar os maus hábitos, fazer negócios à luz do dia. Porque só então poderemos restaurar a confiança que é vital entre um povo e seu governo.

Tampouco a pergunta diante de nós é se o mercado é uma força do bem ou do mal. Seu poder para gerar riqueza e expandir a liberdade não tem igual, mas esta crise nos fez lembrar que, sem um olhar atento, o mercado pode sair do controle – e que uma nação não pode prosperar por muito tempo se favorece apenas os prósperos. O sucesso de nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance de nossa prosperidade; e da nossa capacidade de levar as oportunidades a todos os corações desejosos - não por caridade, mas porque é o caminho mais seguro para nosso bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Nossos pais fundadores, diante de perigos que mal conseguimos imaginar, elaboraram uma carta para assegurar o império da lei e os direitos do homem, uma carta difundida pelo sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos abandoná-los em nome da praticidade. Assim, a todos os outros povos e governos que estão assistindo hoje, das maiores capitais ao vilarejo onde meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de toda nação e todo homem, mulher e criança que busca um futuro de paz e dignidade, e que nós estamos prontos para liderar uma vez mais.

Lembrem-se que as gerações anteriores encararam o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças resolutas e convicções duradouras. Elas entenderam que nosso poder, por si só, não pode nos proteger, nem nos autoriza a fazer tudo como queremos. Em vez disso, elas sabiam que nosso poder cresce quando usado com prudência; que nossa segurança emana da justeza de nossa causa, da força do nosso exemplo, as sóbrias qualidades da humildade e do comedimento.

Somos os mantenedores desse legado. Guiados por esse exemplo uma vez mais, podemos superar estas novas ameaças, que exigem um esforço ainda maior, uma cooperação e uma compreensão ainda maiores entre as nações.

Começaremos de forma responsável a deixar o Iraque para seu povo, e forjaremos uma paz duramente conquistada no Afeganistão. Com velhos amigos e ex-inimigos, trabalharemos incansavelmente para reduzir a ameaça nuclear e fazer recuar o espectro de um planeta em aquecimento.

Não pediremos desculpas por nosso modo de vida, nem fraquejaremos em nossa defesa, e para aqueles que buscam atingir seus objetivos induzindo ao terror e massacrando inocentes, dizemos a vocês que nosso espírito é mais forte não pode ser quebrado; vocês não sobreviverão a nós, e nós os derrotaremos.

Pois sabemos que a colcha de retalhos de nossa herança é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus - e ateus. Somos formados de todas as línguas e culturas, trazidas de todo canto desta Terra; e porque provamos o fel amargo da Guerra Civil e da segregação, e emergimos desse capítulo sombrio mais fortes e mais unidos, não podemos deixar de acreditar que os velhos ódios um dia passarão; que as linhas tribais logo dissolver-se-ão; que à medida que o mundo se torne menor, nossa humanidade em comum revelar-se-á; e que a América deve exercer seu papel no surgimento desta nova era de paz.

Ao mundo muçulmano: buscamos uma nova trilha adiante, baseada em interesses mútuos e respeito mútuo. Àqueles líderes mundo afora que buscam semear o conflito, ou pôr no Ocidente a culpa pelos males de suas sociedades: saibam que o povo os julgará por aquilo que vocês podem construir não pelo que vocês destruírem. Àqueles que se agarram ao poder por meio de corrupção e trapaças, e que silenciam opositores: saibam que vocês estão do lado errado da história; mas que estendermos a mão se vocês estiverem dispostos a descerrar seus pulsos.

Aos povos das nações pobres: comprometemo-nos a trabalhar ao lado de vocês para que suas fazendas floresçam e águas limpas possam fluir; para alimentar corpos esfomeados e mentes famintas. E àquelas nações como a nossa, que gozam de relativa abundância, dizemos que não podemos mais aceitar a indiferença ao sofrimento fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem pensar nos efeitos disso. Pois o mundo mudou, e precisamos mudar junto com ele.

No momento em que divisamos a estrada que surge diante de nós, lembramo-nos com gratidão daqueles bravos americanos que neste exato momento patrulham desertos longínquos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, assim como os heróis caídos que repousam em Arlington murmurarão até o fim dos tempos. Nós os homenageamos não apenas porque são os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles encarnam o espírito do serviço; uma disposição para encontrar sentido em algo maior que eles mesmos. Neste momento, um momento que definirá uma geração, é exatamente este espírito que devemos ter dentro de todos nós.

Pois, por mais que os governos possam e devam fazer, no fim das contas é na fé e na determinação do povo americano que esta nação confia. É a gentileza de socorrer um estranho quando um dique é destruído, a generosidade dos trabalhadores que aceitam reduzir sua jornada de trabalho para que um amigo não perca seu emprego, que nos fazem superar os piores momentos. É a coragem do bombeiro que atravessa uma escadaria cheia de fumaça, mas também a disposição de um pai para criar um filho, que decidem afinal a nossa sorte.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com que os enfrentamos podem ser novos. Mas os valores de que nosso êxito depende – honestidade e trabalho duro; coragem e ética; lealdade e patriotismo; essas coisas são antigas. Essas coisas são verdadeiras.

Elas têm sido a força silenciosa do progresso ao longo de nossa história. O que se exige, então, é um retorno a essas verdades. O que se exige de nós agora é uma nova era de responsabilidade – um reconhecimento, por parte de todo americano, de que temos deveres para conosco, para com nossa nação e o mundo, deveres que não devemos aceitar de mau grado, mas sim agarrar com alegria, firmes na percepção de que não há nada mais satisfatório para o espírito, mais definidor de nosso caráter, que darmos o máximo de nós mesmos em uma tarefa difícil.

Este é o preço e a promessa da cidadania.

Esta é a fonte de nossa confiança – a noção de que Deus nos pede que definamos um destino incerto.

Este é o significado de nossa liberdade e de nosso credo - razão pela qual homens, mulheres e crianças de todas as raças e religiões podem reunir-se em celebração nesta magnífica avenida, e a razão pela qual um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, não poderia fazer um pedido num restaurante local, pode agora comparecer diante de vocês para prestar um sacratíssimo juramento.

Marquemos, pois, este dia, com a lembrança, daquilo que somos e do quão longe chegamos. No ano do nascimento da América, no mês mais frio do ano, um pequeno grupo de patriotas juntou-se diante de fogueiras que se apagavam às margens de um rio congelado. A capital fora abandonada. O inimigo avançava. A neve estava manchada de sangue. No momento em que o resultado de nossa revolução parecia mais incerto, o pai de nossa nação ordenou que estas palavras fossem lidas ao povo:

“Façam saber ao mundo futuro… que nas profundezas do inverno, quando nada a não ser a esperança e a virtude poderiam sobreviver. Que a cidade e o país, alarmados por um perigo comum, ergueram-se para vencê-lo”.

América. Diante de nossos perigos comuns, neste inverno de dificuldades, lembremos estas palavras atemporais. Com esperança e virtude, vamos enfrentar uma vez mais as correntes geladas e suportar quaisquer tempestades que surgirem. Que os filhos de nossos filhos possam dizer que, quando fomos testados, nos recusamos a permitir o fim desta jornada, que não viramos as costas nem fraquejamos; e com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos em segurança às gerações futuras.

Muito obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.”

Tradução: André Fontenelle (Revista ÉPOCA Online)



Escrito por pitacos às 08h45
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   O estilo soft de Serra


Esqueçam o Serra trator, que é coisa do passado. Em seu lugar surgiu um José Serra estrategista, que adota um estilo soft de fazer política e transforma adversários de ontem em aliados de hoje.

O ano passado já tinha conseguido a proeza de trazer Orestes Quércia e o PMDB paulista para o seu time. Agora fez uma jogada de mestre ao selar um pacto com Geraldo Alckmin e nomeá-lo Secretário de Desenvolvimento de seu governo.

José Serra quer ser presidente da República e estabeleceu uma estratégia para conseguir seu objetivo. Sabe que para ser vitorioso, necessita cuidar de sua retaguarda e garantir que em São Paulo o PSDB estará unido em torno de seu nome, ao lado de outros partidos.

De sua parte, Alckmin sabe que suas chances reais de continuar sendo um ator de peso na política paulista está na razão direta de sua associação com José Serra. Este é o caminho mais fácil para que ele seja candidato a governador em 2010, sem que isto seja uma nova aventura.

Houve uma junção da fome com a vontade de comer. O acordo selado serve aos objetivos políticos do atual e do ex-governador.

Com o acordo, Serra deixa Aécio Neves em maus lençóis, na disputa interna do PSDB. O governador paulista dá demonstrações de que é bom em matéria de articulação e de agregar forças.

Com isto esvazia o discurso do governador mineiro, segundo o qual Aécio tem como grande virtude a capacidade de aglutinar forças em torno de sua candidatura a presidente, ao contrário do que ocorreria com Serra.

De quebra, Aécio Neves fica sem condições de por uma cunha no principal território dos tucanos, que é São Paulo. Antes, ele depositava esperanças em uma aliança com Geraldo. Com o acordo entre Serra e Alckmin, este sonho virou pó.

Do ponto de vista eleitoral, José Serra sabe que uma candidatura competitiva para o governo do Estado, através de um nome com densidade eleitoral e com um leque de aliança amplo, só levará água para o moinho de sua candidatura presidencial.

Aquilo que parecia impossível vai se transformando em uma hipótese provável para a eleição de 2010. A montagem de um palanque em São Paulo que tenha Geraldo como candidato a governador, um vice do DEM ( provavelmente Guilherme Afiff) e Orestes Quércia como um dos candidatos a senador.

E tudo isto sob a batuta de José Serra e a serviço de sua candidatura a Presidente!

Claro que o nome de Geraldo ainda não está sacramentado, até porque existem outros pretendentes dentro do PSDB de São Paulo. Mas o ex-governador se colocou de novo no jogo e com força.

Com o acordo, Geraldo demonstrou uma virtude: a de ter a humildade de saber que tem que reconstruir sua trajetória política, após duas disputas eleitorais nas quais foi derrotado e saiu menor do que entrou.

Explicitamente passou a reconhecer o comando de José Serra e se coloca no mesmo time, por entender que em política é melhor somar do que dividir.

O novo estilo de fazer política de José Serra é bem vindo porque ajuda, e em muito, à unidade do PSDB. Acena ainda para a superação da diáspora dos tucanos paulistas, que na eleição municipal do ano passado se dividiram publicamente e estiveram em dois palanques diferentes, o do próprio Geraldo e o de Kassab.

Como demonstraram as derrotas de 2002 e 2006, dificilmente se vence uma guerra quando um exército enfrenta divisões internas. A paz tucana selada por Serra e Alckmin é um indicativo de que em 2010 as coisas podem ocorrer de outra maneira.



Escrito por pitacos às 11h08
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   Demagogia e desemprego




Nosso ministro do Trabalho, Carlos Lupi, perdeu uma boa oportunidade de ficar calado, ao tentar justificar as 600 mil demissões ocorridas em dezembro. Segundo ele, tudo não passa de uma onda de espumas que se desmanchará em março.

A bola de cristal do ministro apontou também que daqui a dois meses o emprego voltará a crescer e que, ao final do ano, serão gerados 1,5 milhão de novos postos de trabalho.

Como está convencido de que a onda é passageira, o ministro apelou para a bravata e para a demagogia, ameaçando punir os "maus empresários" que, no seu entendimento, estão demitindo funcionários por pura ganância e para aumentar seus lucros.

Carlos Lupi não está sendo levado a sério por ninguém. Nem pelos empresários, nem mesmo por membros da equipe econômica do governo.

Todo mundo está careca de saber que o desemprego tem uma causa real: a retração do mercado e do crédito. Tais obstáculos não serão ultrapassados através da retórica.

Tem credibilidade zero a afirmação do ministro de que a onda de demissões se encerrará em dois meses.

Ora, se ela é tão passageira assim, porque empresários e trabalhadores estão negociando a flexibilização das relações do trabalho, colocando na mesa de negociação questões como redução da jornada de trabalho com redução de salários, banco de horas e suspensão temporária de contratos?

É possível até que tais negociações ocorram a revelia das centrais e do próprio governo, sobretudo se vingar a teoria maluca do ministro de garantir a estabilidade do emprego por decreto ou através de ameaças.

O mundo real tem outra lógica. E esta se manifesta nas 130 negociações já realizadas entre empresas e sindicatos de trabalhadores, a despeito da posição das centrais a que tais sindicatos estão filiados.

Se quiser enfrentar a questão do desemprego de maneira consistente, o governo terá que ampliar mais ainda os benefícios e incentivos para os setores produtivos, a exemplo do que ocorre em outros países.

Quanto mais um setor seja intensivo de mão-de-obra, mas o governo terá que lhe conceder incentivos, para evitar o alastramento das demissões.

O combate ao desemprego coloca na ordem do dia a necessidade da redução da carga tributária e de uma política que leve a uma queda da taxa de juros mais significativa.

A receita de juros baixos vem sendo seguida por quase todos os países. O Brasil tem sido uma exceção. Mantem os juros na estratosfera, sob o argumento de conter a inflação, como se vivêssemos numa conjuntura de crescimento da demanda, além da capacidade produtiva instalada. É o surrealismo econômico.

Ora, em tempo de crises, é essencial o estímulo ao investimento e ele só é possível se houver uma política de juros e de crédito que o estimule.

Também é essencial que o governo corte seus gastos correntes, para ampliar sua capacidade de investimento do próprio governo, em parceria com as empresas privadas.

Esse conjunto de medidas dispensa a bravata e a demagogia.

De fato, Carlos Lupi mira 2010. Quem sabe sonha com a candidatura ao Senado pelo Rio de Janeiro. Os trabalhadores, o empresariado e a realidade que se danem.

É muito sério que não seja desautorizado por quem de direito.



Escrito por pitacos às 11h53
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