Não será fácil, até porque existem raízes históricas que levam a um conflito permanente entre os dois povos, assim como contradições profundas que se não forem equacionadas inviabilizarão uma convivência pacífica entre um Estado palestino – a ser construído no futuro não distante – e o Estado de Israel.
Torna-se necessário dar uma resposta a um problema gerado em 1948, quando uma resolução da ONU criou o Estado de Israel, com forte apoio internacional e em decorrência da massiva imigração de judeus, logo após a segunda-guerra mundial. É bom dizer que a criação do Estado de Israel teve, à época, o apoio das forças de esquerda, inclusive da União Soviética.
A fundação de Israel se deu com a exclusão dos palestinos, que viraram um povo sem pátria e sem Estado. Este foi o grande erro da comunidade internacional. Os palestinos ficaram assim confinados em Gaza e na Cisjordânia, territórios não contínuos e separados por terras hoje israelenses. Outras dezenas de milhares de palestinos foram obrigados a emigrar e até hoje existe um problema não equacionado: o que fazer com os refugiados e seus descendentes.
Durante bom tempo, países árabes vizinhos não aceitaram a fundação de Israel e foram à guerra. Os israelenses venceram todas elas e expandiram seu território, particularmente na guerra de 1967. Até hoje, Israel ocupa as Colinas de Golan, uma fonte de tensão permanente com a Síria. Ocupou terras palestinas.
Durante este período histórico, Israel montou assentamentos em Gaza e na Cisjordânia, contrariando assim resoluções da ONU e gerando intermináveis conflitos com os palestinos. Mas o Estado de Israel tem uma característica positiva: é a única democracia da região, tendo um sistema parlamentarista que assegura a plena liberdade democrática aos moldes das democracias dos países europeus.
Nem os países árabes e nem os palestinos são homogêneos e há no interior deles importantes contradições. Após sucessivas guerras, alguns países, como o Egito, adotaram uma linha moderada e passaram a aceitar a existência do Estado de Israel, enquanto outros, como a Síria, optaram por dar sustentação política, militar e financeira aos grupos radicais palestinos. O Irã, que é islâmico, mas não é árabe, também adotou a mesma posição nestes últimos tempos.
Já os palestinos se dividiram praticamente em duas forças. O Al Fatah, que no passado adotou também o terrorismo, é um movimento laico que hoje aceita a existência do Estado de Israel e busca uma saída negociada para o conflito.
O Al Fatah controla a Cisjordânia, mas foi fragorosamente derrotado pelo Hamas, na última eleição, na faixa de Gaza. A vitória do Hamas se explica, também, pelos sucessivos casos de corrupção envolvendo dirigentes da Al Fatah. Registre-se que para impor sua hegemonia na faixa de Gaza, o Hamas patrocinou uma guerra civil vitoriosa com sua adversária palestina.
O Hamas tem como objetivo estratégico a destruição do Estado de Israel, a quem não reconhece e só o trata como “a entidade sionista”. É um grupo fundamentalista que faz uma “guerra santa” contra os israelenses e utiliza em larga escala o terrorismo e a agressão ao território e o Estado de Israel.
Diante desse caleidoscópio, a paz duradoura só será efetivada se existirem ao mesmo tempo o Estado de Israel e o Estado da Palestina, cercados de garantias mútuas.
Para que isso aconteça, há que se assegurar a segurança e a inviolabilidade do Estado de Israel. Ou seja, os palestinos teriam que dar garantia de que haverá o fim da agressão, dos foguetes e dos homens-bomba, além do reconhecimento de Jerusalém como capital compartilhada.
Em contrapartida, os israelenses teriam que devolver o que resta de territórios ocupados em 1967, como as Colinas de Golan, e promover o desmonte de 100% dos assentamentos judeus em território palestino. Teria de ser revisto o muro que isola Israel dos territórios palestinos, muitos dos quais invadidos pela construção.
Neste escopo, parte de Jerusalém seria a capital da Palestina e parte seria a capital de Israel, como é o seu desejo.
Esta deve ser a alternativa a ser trabalhada no concerto das nações pelos países comprometidos com a democracia e com a paz, entre os quais o Brasil. Não compete ao nosso país tomar partido a favor deste ou daquele lado, mas sim adotar uma postura que fortaleça uma solução negociada que contribua para a afirmação do caminho da paz.