Pitacadas (14/novembro/2008)

Atividade essencial, não
O governo de São Paulo entrou com uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) questionando a legalidade da greve de sua Polícia Civil, que já se arrasta há dois meses.
Em caráter liminar, o ministro Eros Grau tomou uma decisão que pode ser histórica.
Ele determinou o fim da greve, baseado na inconstitucionalidade de greves de funcionários públicos que trabalham em atividades essenciais, em particular a polícia.
Até então os juízes de instâncias inferiores aplicavam o entendimento da manutenção de um percentual de funcionários na atividade. O próprio Erro Graus decidiu, em liminar, que 80% dos grevistas de São Paulo deveriam permanecer em atividade.
O fundamento da decisão é o caráter especial dos trabalhadores dos serviços públicos. Prestam serviços à população em geral e são pagos por ela. O ministro ressaltou as particularidades da atividade policial. Sua paralização, obviamente, põe em risco máximo a população.
O voto de Eros Grau não significa uma decisão definitiva, por ter de submeter-se ao plenário do Supremo.
Se a decisão for aprovada pelo plenário do Supremo, estará criada jurisprudência que altera a essência das paralisações dos funcionários públicos em atividades essenciais. O direito de greve não mais se aplicará a eles. A decisão é explícita para as polícias, mas sua extensão é inevitável.
Acrescente-se que o presidente do STF, Gilmar Mendes, cerca outro lado. Tem afirmado que funcionários armados não podem fazer greve. Estuda a constitucionalidade dessa questão.
Os movimentos reivindicativos de policiais têm de utilizar outras formas de luta que não prejudiquem a população. Ponto.
Em São Paulo constrói-se e uma saída honrosa para a greve. O governo mandou à Assembléia em caráter urgente uma proposta de aumento salarial, que já havia sido apresentada e rejeitada pelo movimento. Com uma ou outra modificação, agora ela foi aceita.
Juízo nunca é tarde para prevalecer.
Bondades
As bondades para os aposentados, apresentadas pelo senador Paulo Paim (PT/RS), aprovadas pelo Senado (ainda têm de passar pela Câmara) são emblemáticas de uma concepção.
É correto que as pessoas alimentem-se corretamente? Então aprova-se uma lei, obrigando as empresas públicas e privadas a alimentar todos os trabalhadores de acordo com os melhores ditames da nutrição.
Não importa se há dinheiro para tanto. O que conta é a suposta justeza proposição.
Uma proposta de Paim prevê o repasse automático dos reajustes do salário mínimo para as aposentadorias. Os ganhos de produtividade dos ativos são replicados, automaticamente, para os inativos, que não tiveram qualquer participação neles, a não ser o fato de terem sido, um dia, trabalhadores.
Acaba-se com o fator previdenciário, instituído na gestão FHC, cujo objetivo é desestimular as aposentadorias precoces.
A última proposta determina que em cinco anos o governo corrija as aposentadorias, em salários mínimos. Se o ex-trabalhador aposentou-se com três salários mínimos, sua pensão deve ser de três salários mínimos eternamente. Trata-se do famoso gatilho do passado, um dos fatores que sustentaram o processo inflacionário.
Os governistas calculam o impacto dessas propostas na Previdência em R$ 27 bilhões, inviabilizando-a.
A Câmara ainda pode rejeitar as propostas. Não será fácil. Parte expressiva dos deputados olha para 2010.
Resta o veto presidencial, com desgastes espetaculares e óbvios.
Não existe o conceito de “responsabilidade parlamentar”, segundo a qual para cada despesa deveria ser apresentada a fonte das receitas e sua viabilidade. Paim, e qualquer parlamentar, pode propor até férias na lua para quem quer que seja.
Paim talvez não esteja trabalhando exatamente com o conceito da justeza de suas propostas. O poder de atração de 2010 é irresistível.
Aborto expulsa
Este opinativo defende que as mulheres tenham o direito de optar pela continuidade da gravidez. O Estado e concepções religiosas não devem se imiscuir nessa questão.
Os deputados petistas Luiz Bassuma (BA) e Henrique Afonso (AC) estão sendo processados pela Comissão de Ética do Diretório Nacional do PT porque são contrários à aprovação do aborto no Brasil.
A representação partiu de Laisy Miriére, da Comissão Executiva Nacional do PT e da Secretaria Nacional das Mulheres.
Há o risco de expulsão.
A questão é de economia interna do PT. O partido pode defender o que quiser, processar quem quiser e expulsar quem quiser.
Pitacar, porém, não fere ninguém.
Num partido aberto e moderno, sem centralismo democrático, as posições chaves devem ser fechadas por instâncias superiores, no caso, o Diretório Nacional ou a Convenção Nacional.
Dependendo do caráter da decisão, os membros do partido podem alegar questão de consciência e pedir liberação do voto. A decisão é da instância máxima.
A penalização dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso é autoritária.
E mais, não contribui em nada na luta pela opção das mulheres em defesa de sua decisão na continuidade da gravidez. Pelo contrário.
Escrito por pitacos às 07h54
[]
[envie esta mensagem]
|