Pitacos: política brasileira em foco
   Usurpação e provocação eleitoral


Sempre achamos que determinados setores do serviço público só podem fazer greve se houver a manutenção dos serviços essenciais e como último recurso. Por uma razão muito simples: seu movimento grevista prejudica essencialmente a população que depende de seus serviços.

Esta regra é mais importante ainda quando se trata da polícia, porque dela depende a segurança do cidadão, ou seja, a garantia de sua vida. A Polícia Civil paulista está em greve há um mês, o que já é, por si mesmo, extremamente grave. Ontem, o movimento grevista ultrapassou todos os limites do bom senso, em virtude de sua usurpação pelas centrais sindicais – Força Sindical e CUT – e por parlamentares do PT e do PDT. Não por coincidência, todos eles estão com a candidatura de Marta Suplicy.

O conflito foi uma provocação explícita, com vistas a criar dificuldades para a candidatura de Kassab, que é apoiado pelo governador José Serra. Desde quinta-feira passada, Paulinho da Força vinha incitando os policiais em greve para partirem para o confronto. Foi ele o primeiro a ter a idéia de realizar um ato em frente ao Palácio dos Bandeirantes, para deixar Serra em maus lençóis.

O que deveria fazer o governador ontem? Permitir a realização da manifestação em uma área que é considerada, desde 1987, como de segurança? Deixar que os policiais sublevados fossem até o Palácio do Planalto e, se desejassem, o invadissem? Claro que não.

Se agisse assim, estaria abrindo mão do princípio da autoridade, sem o qual a democracia se transforma em baderna. Em outras palavras, seria ele o primeiro a estimular a indisciplina e a quebra de hierarquia, valores essenciais para corporações policiais - civil ou militar.

A democracia tem regras que precisam ser respeitadas. Uma delas: ninguém tem o direito de fazer greve ou manifestação de armas nas mãos, como ontem aconteceu com uma minoria de policiais civis de São Paulo. Outra regra essencial: existem áreas que, por questão de segurança, em não é permitida a realização de manifestações. Dá para imaginar um movimento de protesto em frente ao Palácio do Planalto? Como ficaria a autoridade de Lula, em tal caso? O mesmo vale para o Palácio dos Bandeirantes e para o governador José Serra.

Em 1985, manifestantes invadiram o Palácio dos Bandeirantes e derrubaram suas grades. O então governador, Franco Montoro, ficou com o carimbo de ser um governador fraco e sem pulso. Talvez os que estimularam o confronto de ontem tivessem como um de seus objetivos tentar passar a imagem de que Serra é um frouxo e que não controla sua polícia.

Os que usurparam o movimento acharam que não tinham nada a perder. Se Serra agisse duramente, como corretamente o fez, o acusariam de truculência e de autoritarismo, como o estão fazendo. Aliás, o mais provável é que eles apostavam no confronto para tirar maiores dividendos eleitorais.

Não vamos aqui discutir se as reivindicações da polícia são justas ou não. Até achamos que eles ganham pouco e merecem melhores salários. Mas a questão agora não é esta. O principal é repudiar manifestações que atentam contra a democracia e que tentam tumultuar a disputa eleitoral, para ver se revertem a derrota que se anuncia de Marta Suplicy.

Nada nos surpreende mais. Nem mesmo a loucura de lideranças irresponsáveis de instrumentalizar um movimento de policiais com objetivos meramente eleitoreiros. Quem fez um comercial como aquele homofóbico, é capaz de tudo, porque os fins justificam os meios.



Escrito por pitacos às 11h14
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   Lehman Brothers, Marx & Sons

 

Saiu no Estadão, nesta quinta-feira (16/out/2008), em “Opinião”:

Lehman Brothers, Marx & Sons.

Demétrio Magnoli (*)

Quando o Lehman Brothers entrou em bancarrota, provocando a implosão de Wall Street, os filhos órfãos de Karl Marx começaram a disseminar uma narrativa ideológica da crise que é tão desonesta quanto reacionária. Essencialmente, eles dizem que o neoliberalismo faliu e que a causa da catástrofe é a desregulamentação do mercado financeiro. Neste mantra, convertido em senso comum, uma mentira factual fica protegida atrás da paliçada conceitual de uma fraude.

O neoliberalismo não faliu porque não existe. A fraude conceitual ampara-se no ocultamento dos dados empíricos. Nos anos 20, tempos do liberalismo, os gastos públicos sociais nos EUA (pensões, educação, saúde e welfare) não alcançavam 5% do PIB. Depois, com o New Deal e os "30 anos gloriosos" do pós-guerra, criou-se o Estado de Bem-Estar e os gastos sociais cresceram até perto da linha de 20% do PIB. Segundo o teorema histórico que emoldura a noção de neoliberalismo, o Estado de Bem-Estar ruiu sob os golpes hayekianos de Ronald Reagan. Mas - surpresa! - os números contam outra história. A "era Reagan" não provocou contração dos gastos sociais, conseguindo apenas estabilizá-los temporariamente. Hoje, eles ultrapassam os 20% do PIB (veja o gráfico no blog http://www.terra.com.br/economia/blog/iconomia/index.htm, de Gilson Schwartz).


O Estado de Bem-Estar é um fruto da democracia de massas. O neoliberalismo só poderia existir com a restauração da democracia restrita dos tempos do liberalismo, quando o direito de voto era privilégio de uma minoria. Os filhos de Marx não entendem isso porque hostilizam o princípio democrático, que imaginam representar uma invenção "burguesa". Eis o motivo pelo qual suas análises econômicas se chocam com os dados empíricos.


Na hipótese de desabamento de um viaduto condenado por erros de engenharia, deve-se culpar a lei da gravidade? É algo assim que fazem os filhos de Marx quando atribuem o colapso financeiro a uma combinação de ganância com livre mercado. A referência à "ganância" nada diz sobre esta crise específica, pois o imperativo do lucro é um traço estrutural da modernidade capitalista, mas diz muito acerca de um pensamento econômico contaminado pelos dogmas do cristianismo medieval. Quanto à desregulamentação, ela só existe no mundo imaginário dos ideólogos.


O economista Steven Horwitz escreveu uma carta aberta a seus "amigos da esquerda" identificando as diversas regulamentações políticas que incentivaram o tsunami especulativo no mercado imobiliário (o link está no blog de Gilson Schwartz). Ele prova factualmente que o mercado no qual se armou a tragédia nada tem de liberal, articulando-se sobre uma teia de regras, emanadas do Executivo e do Congresso, que pavimentaram o caminho rumo à concessão de empréstimos cada vez mais arriscados. Fannie Mae e Freddie Mac são corporações hipotecárias tecnicamente privadas, mas patrocinadas pelo poder público, que operavam sob garantia de resgate estatal em caso de falência. As agências reguladoras autorizaram-nas, em 1995, a entrar no mercado de subprime e exigiram dos bancos privados um aumento dos empréstimos imobiliários para devedores com poucos recursos. A "ganância" fez o resto, mas no ambiente de liquidez abundante, propício à especulação, gerado pela política monetária do banco central americano e pela política fiscal do governo Bush.

 

Para salvar sua narrativa ideológica sobre os mercados desregulamentados os filhos de Marx erguem um Muro de Berlim metodológico entre as esferas da economia e da política. O conservador Horwitz é mais honesto, evidenciando a presença ubíqua da "mão visível" do Estado no financiamento privado do mercado imobiliário americano. Mas a sua honestidade tem limites, definidos por uma perspectiva ideológica. A utopia inviável de Horwitz é um retorno à idade de ouro liberal e ele prefere criticar a "mão visível" democrata à republicana. Por esse motivo, menciona só de passagem a política econômica da "era Bush" e, sobretudo, não a vincula à guerra no Iraque.


Pela primeira vez na história, uma guerra de grandes proporções foi conduzida por um governo que não conclamou os cidadãos a fazerem sacrifícios, mas, explicitamente, a "irem às compras". A mistura tóxica de juros baixos e cortes de impostos com um déficit orçamentário crescente formou o pano de fundo da ciranda especulativa num mercado intensamente regulamentado. A implosão das altas finanças nos EUA, contagiando os mercados internacionais e anunciando a recessão global, não é obra exclusiva do governo Bush, mas tem as digitais de uma "mão visível" disposta a tudo para assegurar apoio interno à política externa cruzadista dos neoconservadores. A análise econômica reacionária dos filhos de Marx oculta tudo isso.


Neoliberalismo é um signo que adquiriu diferentes significados desde o seu uso inicial, no fim do século 19. A partir das "revoluções" de Reagan e Margaret Thatcher, contudo, sua utilização se disseminou e seu significado deslizou rumo a um colapso. Depois da queda do Muro de Berlim, neoliberalismo sofreu um processo de redução fetichista, convertendo-se em senha de identificação coletiva de uma confraria dos derrotados - algo como um lenço de lapela pelo qual um nostálgico do "socialismo real" reconhece seus iguais. Não há problema nisso, com a condição de que a nostalgia de uma minoria não destrua a capacidade pública de decifrar o sentido das coisas.


Marx podia estar fundamentalmente errado, mas nunca deixou de buscar as articulações entre economia e política. Seus órfãos, traindo-o, inventaram uma economia "neoliberal" desregulamentada e denunciam uma "contradição" fatal quando os governos "neoliberais" se preparam para estatizar o núcleo do sistema financeiro. Eles não percebem que um padrão de regulamentação está sendo substituído por outro. Nem que a "mão visível" da política está presente nos dois.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.

E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br



Escrito por pitacos às 16h57
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   O triângulo das Bermudas

 

O IBOPE divulgou os números do segundo turno daquilo que é chamado de “triângulo das bermudas” - o eixo São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Seus números não podem ser cotejados com os da última pesquisa do Datafolha, porque não se compara laranja com banana.

A disputa paulistana

Os dois institutos têm metodologia diferente. Assim, para saber se houve movimentação nas intenções de voto de uma semana para cá, há que se esperar uma nova pesquisa do Datafolha ou mesmo do IBOPE.

Além da metodologia diferente, os dois institutos fizeram pesquisas em momentos distintos. O Datafolha fez seu levantamento logo após o resultado do primeiro turno, quando normalmente há uma euforia no eleitorado. A tendência é que nos primeiros dias após as eleições do primeiro turno haja um assentamento dos números dos candidatos, talvez um fenômeno identificado pelo IBOPE

Normalmente tal movimentação não altera o resultado final da eleição. Em 2004, a primeira pesquisa deu uma vantagem para Serra de 12 pontos. Na semana seguinte, ela caiu para sete pontos e fechou, ao final, com uma vantagem de dez pontos. Cada eleição é um caso e não necessariamente está acontecendo o mesmo fenômeno. No terreno das hipóteses tudo é possível. Até mesmo que uma nova rodada do Datafolha indique que nada se moveu.

De qualquer maneira, as pesquisas dos dois institutos não possibilitam saber qual o impacto do programa eleitoral na disputa. O Datafolha ocorreu após dois dias da realização do primeiro turno. O IBOPE abarcou o período de dois dias de propaganda televisiva. Não sabemos se Marta perdeu pontos em função de seu comercial homofóbico e de sua agressividade, ou se sua estratégia do vale-tudo surtiu efeito e está minando o favoritismo de Kassab.

Mais uma vez o remédio é ter paciência e esperar a pesquisa do final de semana, para aí sim ter um diagnóstico preciso sobre a política do tudo ou nada. De qualquer maneira, o IBOPE ainda detecta uma frente confortável de Kassab em relação a Marta, de 12 pontos.

A disputa mineira

Os números do IBOPE são uma tragédia para Aécio Neves e Fernando Pimentel, os grandes articuladores da candidatura de Márcio Lacerda. Eles indicam que Leonardo Quintão, do PMDB, disparou no segundo turno, abrindo uma vantagem de 18 pontos.

O candidato peemedebista pode ser um tremendo populista e demagogo. Mas sua vitória parece ser praticamente irreversível. O eleitorado de Belo Horizonte não engoliu a mágica que uniu Fernando Pimentel e Aécio em torno da candidatura de Márcio Lacerda. É aquele negócio de que esperteza quando é demais, atrapalha. O tucano e o petista erraram na dose de mandraquismo e no candidato que escolheram, pensando que bastava sua união para elegerem um poste.

Essa é a lição que a disputa mineira deixará. Ninguém é dono do eleitorado. Ninguém tem o poder de transferência de popularidade.

A disputa carioca

O IBOPE confirma aquilo que o Datafolha já tinha identificado: uma disputa acirradíssima no Rio de Janeiro, na qual os dois candidatos estão em situação de empate técnico, ainda que Fernando Gabeira tenha uma vantagem de três pontos.

Apesar dos poderosos apoios que recebeu e da máquina que tem ao seu dispor, Eduardo Paes não conseguiu ultrapassar seu adversário, o que explica o tom agressivo e nervoso de sua campanha no segundo turno.

Os mais otimistas acreditavam que já seria uma grande vitória se Gabeira chegasse à casa de 25% dos votos. Ele já bate nos 42%. Mostra que sua candidatura tem musculatura, que é um adversário competitivo, com reais chances de vitória.

Dado ao equilíbrio de forças entre as duas candidaturas, a eleição do Rio de Janeiro só se definirá no apagar das luzes, ao contrário, por exemplo, de Belo Horizonte, onde a disputa eleitoral está praticamente decidida em favor de Leonardo Quintão.

Previsões

Em eleições fazer previsões e ciência não batem. Os resultados do primeiro turno no triângulo das Bermudas estão aí para atestar esta assertiva. Que ninguém venha dizer que as vitórias de Kassab, Gabeira e Quintão estavam escritas nas estrelas, à vista de todos.

Política, no entanto, não é errática. As previsões orientam o processo político. Arriscar é preciso.

O triângulo das Bermudas é sempre dado a surpresas. Tem um histórico de desmentir previsões.

À luz de hoje é possível dizer que em Belo Horizonte o PMDB liquidou a fatura. Em São Paulo que Kassab continua favorito. No Rio de Janeiro o vitorioso será definido pelo olho eletrônico.

Este Blog tem lado, torcida e não abre. Kassab e Gabeira na cabeça. E apesar dos pesares, Márcio Lacerda.



Escrito por pitacos às 14h08
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   “Direita” e “esquerda” em São Paulo




Desesperadamente, a candidatura de Marta Suplicy apela para todos os meios com vistas a evitar a sua derrota no segundo turno. Parte para a satanização de Kassab e do DEM e, de forma maniqueísta, tenta dividir a cidade de São Paulo entre “esquerda” e direita”. Não precisa dizer que na sua visão binária, ela representa o bem – a esquerda – e Kassab e seu partido - o mal.

Ainda que esta discussão esteja a milhares de quilômetros de distância dos reais interesses dos eleitores, é visível o objetivo do PT e de Marta Suplicy: semear a confusão para atrair os votos que no primeiro turno ficaram com Geraldo Alckmin. É a mesma tática de Lula que, em 2006, criou uma cortina de fumaça com aquela história das privatizações a serem promovidas por Alckmin.

Como há incautos que acreditam em bobagens semelhantes, é bom verificar de que “direita” está se falando em São Paulo, e de que “ esquerda” a ela se contrapõe. É pura bobagem o PT caraterizar o DEM e seu candidato como filhos da ditadura e ponto. Ainda que o partido do prefeito tenha se originado da antiga Arena, ele hoje está distante do seu passado, sem falar que foi peça importante para a transição democrática, através da eleição de Tancredo Neves.

Deste ponto de vista, o antigo PFL esteve mais ao lado da democracia do que o PT, que, por exemplo, se recusou a participar do Colégio Eleitoral, fazendo assim o jogo dos que queriam a continuidade da ditadura.

Mas isto é história. Vamos aos dias de hoje. Já há alguns anos, o antigo PFL vem fazendo um esforço para se transformar em partido representativo de uma direita democrática, a exemplo do que existe em muitos países de democracia consolidada, tais como Estados Unidos, Itália, Inglaterra, Alemanha e outros. A democracia não é um monopólio da esquerda, assim como o totalitarismo não é uma característica exclusiva da direita.

Para o amadurecimento político do Brasil, é essencial a existência de uma direita democrática, bem como de uma esquerda democrática, ambas participantes de alianças progressistas.

É o que acontece em são Paulo. É errado definir o governo de Kassab como de direita, ainda que democrático, porque ele vai muito além disto. Está mais perto da realidade, por exemplo, o vereador eleito José Luiz Penna (PV/SP), que caracteriza o governo de Kassab como “social-democrata”, porque esta é a hegemonia em seu interior. Tal hegemonia ocorre em função da presença do PSDB, do PV e do PPS, os principais vetores da esquerda democrática.

E qual a esquerda que Marta representa? A esquerda patrimonialista, do assalto à máquina do estado e que não tem a democracia como valor universal e que acha que os fins justificam os meios. É por isto que os petistas não ficaram sequer corados em apelar para a homofobia, com vistas a tentar derrotar Gilberto Kassab. A que leva seu projeto para a cidade? Ao retorno do populismo casado com a irresponsabilidade fiscal.

A real disputa em São Paulo não é entre a “ esquerda” e a “direita”. Nem o PT acredita nisso. Ele apenas se vale da manipulação ideológica para semear confusão, porque no plano nacional, a prática é outra. Aí o PT se alia com Maluf, Severino Cavalcante e Delfim Neto. O PP, sem rachas, faz parte da base de apoio do governo Lula.

Não condenamos liminarmente o PT por se aliar com a direita. O que combatemos é a hipocrisia, na base do “condeno o que você faz e faço o que eu condeno, na cada dura”.

O eleitorado não é burro. Ele percebeu a real polarização em São Paulo. Chamado a optar entre a administração passada, petista, e a atual, hegemonizada pelo PSDB/DEM, deu um não a Marta Suplicy já no primeiro turno e tende a repeti-lo no segundo turno. É por isto que a ex-prefeita está tão desesperada. Apela para baixarias e invencionices, inclusive esta de inventar uma direita demoníaca.

Não passará.



Escrito por pitacos às 04h44
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   Obscurantismo e agressividade

 

O segundo turno começou fervendo, com a retomada dos programas televisivos e o debate da TV Bandeirantes. A lamentar o obscurantismo de um dos comerciais da candidata Marta, que faz indagações sobre a vida privada de Kassab.

Que importância tem saber se Kassab é casado ou se tem filhos? Por detrás da pergunta sibilina esconde-se uma alta dose de homofobia por parte de uma candidata que sempre se disse vítima de descriminação de um partido que um dia, já teve entre suas bandeiras, a luta contra o preconceito.

Além de tudo, o comercial é de uma burrice política porque certamente provoca descontentamentos em eleitores cativos do PT e pode provocar fissuras internas. Sem falar que certamente aumentará a rejeição a Marta Suplicy, porque o eleitorado detesta baixaria.

Chegamos a pensar que o comercial homofóbico tivesse sido uma escorregadela exclusiva do marqueteiros. Mas a candidata e seu coordenador fizeram a defesa da utilização de tal expediente, confessando assim que agiram de caso pensado. Jamais imaginávamos que o PT chegasse a este ponto. Vivendo e aprendendo.

Mas vamos ao debate. Marta optou por uma linha extremamente agressiva e raivosa de “desconstrução” de Kassab. Foi algo parecido com o que fez Geraldo no primeiro turno, só que multiplicado por dez e com um grau maior de baixaria. E como reagiu o Prefeito? Em um primeiro momento surpreendeu-se, mas recuperou-se e não foi levado a canto do ring. O objetivo de Marta é muito claro: tentar criar uma zona de sombra sobre a personalidade do prefeito, aquela história dos dois Kassab.

O problema é que esta linha de desconstrução se dá em questões que, rigorosamente falando, o eleitorado não tem muito interesse e com forçação de barra. Afinal, para esta eleição o peso do que foi o governo Pitta é zero, assim como o é o fato de o antigo PFL ter nascido de uma dissidência da Arena, o antigo partido da ditadura. O eleitorado quer saber qual das duas candidaturas tem o melhor projeto para a cidade e é isto que ele queria ver no debate. Ao optar pelo ataque pessoal, Marta pode aprofundar a sua rejeição, que já é grande.

Mas, para Marta interessa este tipo de debate, que deixe de lado a comparação entre o seu governo e a atual administração, que tem uma aprovação de 61% dos paulistanos. Talvez tenha faltado a Kassab a ser mais incisivo em dizer isto e tenha caído um pouco na provocação de Marta, ao partir também para a agressividade, embora num grau menor e como elemento de defesa.

Podemos estar errados, mas nossa estimativa é que o debate da TV Bandeirantes não deve ter alterado muito a intenção de votos dos paulistanos. Há algo que nos remonta à disputa de 2006. Em todos os debates, Geraldo Alckmin partiu para o ataque em cima de Lula e passava a impressão de que vencera o debate. Só que logo em seguida vinha uma pesquisa e Lula aumentava mais ainda a sua frente em relação ao tucano.

Existe uma diferença abissal entre a contraposição de propostas e a crítica às realizações do outro. O dedo em riste e o tom de voz e a expressão corporal agressivos são um tiro no pé, indicam as pesquisas qualitativas.

O objetivo mínimo de Kassab nos debates é sair do tamanho com que entrou. Para reduzir a enorme distância nas pesquisas, Marta tem de vencer cada um dos debates por larga margem.

O debate da Bandeirantes deste domingo não efetivou os objetivos da ex-prefeita.

Aguardemos as pesquisas. Com a palavra o soberano eleitor.



Escrito por pitacos às 10h50
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