Pitacos: política brasileira em foco
   O carro na frentre dos bois

Lideranças do DEM e do PSDB iniciaram negociações com vistas a apoio a Kassab antes que as urnas sejam abertas. É a velha história do carro na frente dos bois, que em vez de ajudar pode atrapalhar.

Em primeiro lugar, porque há que se esperar o vaticínio dos eleitores que só se conhecerá quando os votos estiverem apurados, lá para as 21 horas de domingo. Por prudência, é bom ter a certeza de que as urnas confirmarão o que as pesquisas indicam.

Ninguém deve sentar na cadeira de prefeito antes da hora. Fernando Henrique conhece isto muito bem.

E como iniciar uma negociação se Geraldo Alckmin ainda se sente na disputa e sua campanha ainda acredita num milagre de última hora que reverta a situação? Ele tem este direito e é compreensível que lute até o último momento.

Só para se ter uma idéia, ontem os alckmistas estavam eufóricos porque espalhou-se o boato de que seu tracking dava uma diferença de apenas dois pontos em favor de Kassab. Tudo indica que foi uma jogada de emulação ideológica, para estimular a militância, até porque no mesmo momento o trakcing do prefeito dava uma diferença de oito pontos, que é o mesmo resultado do Datafolha.

Mas se o Sobrenatural de Almeida pregar alguma surpresa, como e que ficam os que estão colocando o carro na frente dos bois?

Até em respeito ao seu candidato, que tem um passado elogiado por todos, não se deve fazer nenhuma articulação política antes do desfecho do primeiro turno. Isto significa afrontá-lo, o que cria dificuldades para a recomposição no momento seguinte, se, de fato, ele ficar de fora da jogada.

Geraldo já é um pote cheio de mágoa com a cúpula do PSDB por sentir-se abandonado durante toda a campanha. Entendeu que a nota assinada pelas direções nacional, municipal e estadual dizendo que o apoiavam foi um gesto de cumprir tabela, para ficar com as mãos livres com vistas às negociações no segundo turno.

Se há ressentimentos, não há porque potencializá-los. Isto pode levar Alckmin a pura e simplesmente se ausentar da batalha do segundo turno, na hipótese de que venha ser derrotado no próximo domingo.

Tanto o DEM como setores do PSDB estão sendo contaminados por um raciocínio extremamente perigoso. Derrotado, Geraldo não terá mais nenhum papel e será carta fora do baralho nas negociações políticas. É a velha idéia do “Rei morto, Rei posto”, pois a partir deste momento as negociações seriam comandadas exclusivamente por Fernando Henrique e José Serra.

Mesmo que as urnas sejam adversas para Alckmin, ele sairá da eleição com um número de votos nada desprezível, algo em torno de 20% do eleitorado, se as pesquisas estiverem corretas. Em torno dele aglutina-se ainda a parte majoritária da militância tucana, que o queria como candidato.

É um grave erro político querer jogá-lo para escanteio, se a derrota for inexorável. É evidente que o sucesso do palanque anti-Marta terá mais chance de sucesso se Alckmin participar dele de forma ativa.

Política é a arte de aglutinar, de ciscar para dentro. A partir de domingo, conforme a palavra das urnas, todo esforço deve ser feito no sentido de assegurar a unidade de todo o campo, seja quem passar para o segundo turno.

Mas para que isto aconteça, há que se respeitar a liturgia.

Nada de negociações antes do fechamento das urnas. Não há contra-indicações para procedimentos respeitosos com todas as partes envolvidas.



Escrito por pitacos às 10h54
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   Quem Lula quer derrotar

O presidente Lula tem objetivos muito claros nesta eleição, com vistas a fazer o seu sucessor em 2010. O primeiro deles é ganhar o máximo de terreno possível no principal bunker da oposição, o estado de São Paulo. Isto minaria em muito a força de Serra na próxima disputa presidencial.

O presidente e o seu partido adotaram uma estratégia do tipo cerco e aniquilamento do PSDB. Pretendem que, após as disputas municipais, ele se transforme em uma espécie de partido interiorano.

Em outras palavras, o lulopetismo priorizou a grande São Paulo, onde procura construir um “cinturão vermelho” em torno da capital, com a conquista das prefeituras do AbC e de grandes cidades como Guarulhos e Osasco, locais em que os candidatos do PT estão na dianteira nas intenções de voto. A região metropolitana não é nada desprezível. Representa cerca de um terço do eleitorado paulista.

A jóia da coroa é a capital, claro. Uma vitória de Marta significaria ocupar uma casamata importantíssima para a disputa de 2010. Se ela se der em cima de uma disputa com Kassab no segundo turno, como as pesquisas evidenciam, isto será visto como uma derrota particular de Serra, tal o grau de vinculação entre o governador e o atual prefeito.

Certamente esta será a prioridade número um de Lula, no embate do segundo turno. A batalha de São Paulo assumirá uma dimensão maior ainda, pois a leitura de quem saiu vitorioso e de quem acumulará forças com vistas a 2010 se dará em grande medida a partir de quem ganhar a disputa paulistana.

Lula tem outros objetivos específicos, entre os quais impor derrotas particulares a alguns de seus desafetos. Na sua mira está ACM Neto, a quem o presidente não perdoa. Tentará derrotá-lo em Salvador, preferencialmente com o petista Walter Pinheiro, se ele for para o segundo turno. Se isto não ocorrer, jogará todas suas fichas no atual prefeito, João Henrique, do PMDB.

É incrível, mas a “guerra fria” ainda persiste na Bahia, cuja política continua dividida entre o “carlismo” e o “anticarlismo”, mesmo após a morte de Antônio Carlos Magalhães. Em Salvador, o candidato do PSDB, Imbasay, que chegou a ocupar o primeiro lugar, passou a campanha inteira no ataque a ACM Neto, facilitando assim o crescimento do candidato do PT. As querelas locais tendem a dar o tom no segundo turno, onde todas as outras forças se unirão para derrotar o herdeiro do “carlismo”. É tudo que Lula quer.

O Rio Grande do Norte não tem este peso todo na correlação de forças em escala nacional. Mas Lula priorizou a disputa em Natal com vistas a humilhar outro expoente do DEM, o senador Agripino Maia, a quem ele também não perdoa. Agripino é o artífice da candidata do PV, Micarla, que desponta como favorita. Contra o objetivo de Lula conspira o fato de que a candidata do PT, Fátima Bezerra, tem pés de chumbo e não cresce, apesar de todo o apoio nacional que tem recebido.

E em Porto Alegre, o que fará Lula? Claro que entrará de corpo e alma na campanha de Maria do Rosário, se a petista conseguir ir para o segundo turno. O presidente não morre de amores por Fogaça, porque apesar de ser do PMDB, ele não faz parte da base do lulopetismo. Lula odeia quem tem mania de independência. Até para fortalecer o nome de Dilma, seria importante uma vitória do PT na capital gaúcha.

O que Lula quer é que os partidos de oposição saíam da disputa municipal bem menores do que entraram e com seqüelas que dificultem sua recomposição, com vistas a 2010.

Resta conferir se os partidos de oposição terão a maturidade necessária para se unirem nas disputas do segundo turno, para impor derrotas aos planos de médio prazo do Palácio do Planalto.

Isto é possível.

É só deixar de fazer o jogo do inimigo e não se pautar pelas idiossincrasias locais.



Escrito por pitacos às 10h59
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   Geraldo, além de queda, coice


Com unidade, a vitória está nas mãos.

Nunca a realidade foi tão adversa para a candidatura de Geraldo, como agora. Os números do Datafolha desta quarta-feira são cruéis para ele. Indicam que naufragou sua estratégia do tudo ou nada, à base da desconstrução de Kassab. Salvo chuva, tempestade e trovoada que alterem o quadro em quatro dias, o segundo turno será mesmo entre a petista e o atual prefeito.

Para agravar mais ainda o infortúnio do tucano, a TV Globo não mais realizará o seu debate. Diminuem assim as chances de ser gerado um fato novo, que pudesse retirar a candidatura do ex-governador do estado agônico. É a história do além de queda, coice.

Não resta ao tucano fazer muita coisa nestes últimos dias, a não ser apelar para a emulação ideológica dos militantes e falar que viradas acontecem na última hora, citando o exemplo de Mário Covas em 1998. Ele está certo, porque o contrário seria entregar a rapadura antes do tempo.

O mesmo fenômeno dificilmente se repetirá, a não ser como obra de um verdadeiro milagre, até porque hoje as circunstâncias são inteiramente diferentes.

Acerto na estratégia de Kassab

A divisão das fileiras do PSDB não explica porque Kassab acaba de abrir oito pontos de vantagem em relação a Alckmin. O buraco está bem mais embaixo.

Os números do Datafolha revelam – a exemplo das pesquisas anteriores – que o eleitorado está polarizado entre as duas últimas administrações, de Marta e de Kassab (e Serra), entre o retorno ao passado e à continuidade do que está dando certo. O êxito da candidatura do atual prefeito deve-se muito ao acerto do seu marqueteiro, Luiz Gonzáles e à coordenação política da campanha. Desde o primeiro programa na TV, Kassab chamou para esta polarização. Alckmin não tem mais como alterá-la, desta quarta-feira até o sábado de noite.

Não é hora de historiar o rosário de erros da campanha de Alckmin. No entanto, vale registrar a irreversível perda do bonde. Alckmin não chamou para si a polarização com Marta, desde o início da campanha. Deixou aberta uma enorme avenida para o crescimento da outra candidatura do mesmo campo, como atestam as pesquisas. Tivesse Alckmin fixado a petista como seu alvo, o resultado das eleições poderia ser outro. Mesmo que perdesse, poderia sair maior do que entrou nas eleições. Teria contribuído decisivamente na desconstrução do lulopetismo na maior cidade do continente, independentemente de sua votação final.

Grandes chances de Kassab no segundo turno

A polarização entre passado e continuidade do presente é de tal ordem, que reduziu a pó até mesmo o discurso adotado pelo tucano, do voto útil. Como escrevemos em outra nota, não se briga com números. Eles indicam que Kassab pode sim derrotar Marta no segundo turno. No Datafolha o Prefeito já abriu uma vantagem de cinco pontos em relação à ex-prefeita. Para se ter uma idéia, em 2004 Serra tinha, nesta altura do campeonato, uma frente de oito pontos. Kassab está quase lá.

Não subestimamos a candidatura petista no segundo turno. Lula e sua máquina federal entrarão com os dois pés na disputa. Cada eleição é uma nova eleição é um mantra óbvio que deve ser repetido. No entanto, as condições de Kassab vencer no segundo turno são crescentes. Marta Suplicy perdeu, ao menos por ora, o favoritismo.

Marta desidrata

É aqui que o Datafolha revela uma questão muito interessante. Apesar de todo apoio de Lula e da máquina federal e de ter partido de um patamar superior ao de 2004, a petista não cresceu nesta fase do embate eleitoral, o da propaganda televisiva. Ao contrário, desidratou-se. Começou com 41 pontos e hoje está com 35% das intenções de voto, o mesmo que tinha há quatro anos.

Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, razão pela qual ainda não descartamos inteiramente a hipótese remota de Geraldo dar um salto nestes últimos dias. Isto só ocorrerá se o divino Espírito Santo assumir a campanha.

Se o milagre não acontecer, Alckmin estará colhendo a segunda derrota em dois anos. Ela, contudo, será maior ou menor, a depender de como se posicionar no tabuleiro político, não apenas no segundo turno da eleição municipal de São Paulo, como também nas eleições de 2010.

Reviravolta é possível para Alckmin

Não se pode considerar cachorro morto quem tem cerca de 20% das intenções de voto dos paulistanos. Isto representa muito, desde que este cacife político seja utilizado corretamente.

Se as urnas confirmarem o que os institutos de pesquisas estão indicando, mais do que nunca o tucano terá que ter em mente uma boa lição: em política, o feio não é perder, mas não saber perder e dar uma de ressentido.

Políticos expressivos, como Lula, Fernando Henrique e Serra, sofreram derrotas na vida. Mas todos eles deram a volta por cima.

Torcemos para que Alckmin tenha o mesmo destino, caso se confirmem as pesquisas de intenção de votos.


PS: E o Rio de Janeiro, quem diria? Gabeira encostou mais um ponto em Crivella. Vale torcida, figa, vela acesa e apelo a todas as mandingas, para que ele passe para o segundo turno.



Escrito por pitacos às 10h05
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   Era tudo o que Marta queria


Nas circunstâncias, tem muitos motivos para sorrir.


O debate da TV Record ocorreu como Marta queria.

Alckmin e Kassab  estapearam-se ao vivo e em cores, dificultando mais ainda a composição entre as duas forças em um segundo turno. A petista agradece, até porque apesar de estar no primeiro lugar nas intenções de voto, não foi o alvo vidraça. O pepino ficou para Kassab, submetido a um fogo cruzado.

É conhecida a opção do tucano. As pesquisas do IBOPE e do Datafolha do final de semana foram péssimas para ele. Indicaram que sua estratégia, que concentra suas baterias contra o Prefeito, não deu o resultado desejado, pelo menos por enquanto. Nestas circunstâncias, o ex-governador optou por radicalizar a opção do tudo ou nada contra Gilberto Kassab.

De agora até o final, Geraldo Alckmin não mudará sua estratégia em um milímetro. Não está preocupado se inviabiliza alianças no segundo turno. Para ele, importa chegar lá, a qualquer preço. É por isto que bateu até em Quércia, o que praticamente jogou o PMDB para o colo de Marta, na hipótese de o tucano ir para o segundo turno.

A estratégia de Alckmin confia no patriotismo do eleitorado anti-Marta. Acredita que ele será atraído de qualquer maneira, independentemente das alianças a serem feitas. Isto é até possível, mas é uma estratégia de alto risco. A disputa do segundo turno deste ano será muito mais difícil do que a de 2004, quando, desde cedo, Serra tinha uma vantagem confortável. Hoje há um empate técnico, ainda que Geraldo Alckmin leve uma ligeira vantagem na projeção de votos.

O novo do debate da TV Record foi que Kassab mordeu a isca. Partiu para o confronto com o tucano. Utilizou os mesmos expedientes, embora não tenha cometido a loucura de afastar aliados. Pela primeira vez, o Prefeito abriu mão de sua estratégia de focar principalmente na crítica a Marta. Partiu para o combate a Alckmin. Era o que o ex-governador almejava, a esgrima no terreno da desconstrução.

A grande interrogação é se o debate terá uma influência capaz de reverter o que as pesquisas indicam: a polarização entre o ontem – a administração de Marta - e o hoje, a administração de Kassab. Esta polarização vem jogando para escanteio a candidatura de Alckmin. A conferir se ontem ele deu um passo para reverter esta tendência.

O esgarçamento, na TV Record, entre as duas candidaturas, deixa uma seqüela grave para o momento seguinte. Diante de ataques duros proferidos pelas duas partes, fica difícil avaliar se quem perder subirá no palanque do outro, no segundo turno. Na melhor das hipóteses, haverá uma recomposição dos partidos (PSDB e DEM). Provavelmente o perdedor não se envolverá pessoalmente na batalha seguinte. Raciocinando no terreno da estatística, se houver um índice que meça a probabilidade de apoio, é mais provável que Gilberto Kassab de alguma maneira suba no palanque de Geraldo Alckmin, do que o contrário. Para o prefeito, não fazê-lo poderia ser um golpe mortal em suas pretensões futuras.

Palmas para a TV Record. Ela conseguiu produzir um debate muito mais vibrante que os anteriores. Os méritos vão principalmente para as duas jornalistas, que souberam fazer perguntas que saíram da mesmice e provocaram confrontos, até mesmo entre Soninha e Maluf. Maluf deu um show à parte. Mostrou, mais uma vez, que é do ramo. Dentro do seu estilo, sem compromisso com a verdade e com a ética, sabe provocar como poucos. Faz bom uso da televisão. Mas ele não pesa mais na balança.

A questão não é saber quem ganhou o debate e sim quem ganhou com o debate. É inegável que Geraldo Alckmin teve um excelente desempenho e se saiu melhor no confronto com Gilberto Kassab.

Quem ganhou politicamente foi Marta Suplicy, pelo fato de que a briga entre as duas candidaturas oposicionistas aumentou ainda mais o fosso entre elas e só levou água para o moinho da petista. Sem contar que ela passou mais ou menos incólume. Foram poucos os momentos em que sua administração foi confrontada.

Para a ex-prefeita, melhor impossível.



Escrito por pitacos às 10h14
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