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Pitacos: política brasileira em foco |
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Não se briga com os números

Pitacos não briga com a realidade e reconhece que os números do última Datafolha indicam que a estratégia do tudo ou nada de Geraldo produziu seus primeiros resultados, quanto ao seu objetivo de estar no segundo turno. Mas isto não altera a essência do que afirmávamos antes, quanto à crítica de que os fins não justificam os meios. E que é um erro eleger Kassab como adversário principal.
Como o Datafolha trouxe números alentadores para Geraldo, a tendência é que haja uma radicalização na linha adotada, o que poderá dinamitar mais ainda as pontes com vistas a uma composição, no segundo turno, qualquer que seja o vencedor. Sem esta recomposição, serão maiores as chances de Marta sair vitoriosa.
A campanha de Geraldo avalia que a recomposição da aliança ocorrerá pela inércia, uma vez que, se estiver fora do segundo turno, Kassab não terá outra alternativa, senão cair no colo do tucano. Em política, as coisas não são tão simples. Existem os ressentimentos, o corpo mole, que sempre trazem danos.
Há um risco adicional. Kassab poderá apelar para as mesmas armas e revidar os ataques de Geraldo Alckmin. É nisso que se baseia a estratégia da petista: uma troca de chumbo tão grande entre as duas candidaturas do mesmo campo, que se inviabilize qualquer aliança no momento seguinte.
Não pensem que esta batalha será fácil só porque a soma dos dois candidatos ultrapassa a intenção de votos de Marta. Ou porque o Datafolha indica que tanto um como outro estão em situação de empate, na segunda rodada, com a petista. Marta é uma candidata fortíssima. Lula jogará todas as fichas para que ela seja a vitoriosa. Nessas circunstâncias, a unidade do campo oposicionista é essencial para evitar que ele logre êxito e conquiste uma casamata importantíssima para a disputa de 2010, a principal prefeitura do país.
Sempre tivemos em mente este quadro, razão pela qual defendemos, ao longo da campanha, uma obra de engenharia na qual as duas candidaturas não deveriam se agredir. O PT deu uma lição de que isto é possível. Em 2006, em Pernambuco, saíram dois candidatos do campo do lulopetismo, Eduardo Campos (PSB) e Humberto Costa (PT). Eles não se agrediram e facilmente fizeram a recomposição no segundo turno. Eduardo Campos foi eleito governador.
Pelo andar da carruagem, tudo indica que “a solução Eduardo Campos” não se reproduzirá na disputa paulistana. A fatura será cobrada logo adiante.
Escrito por pitacos às 12h03
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Bolívia: a nação perdida

O texto “A nação perdida”, de Demétrio Magnoli, publicado no Estadão desta quinta-feira, ajuda na compreensão da crise boliviana, do ponto de vista mais estrutural e para além da discussão do noticiário do dia-a-dia.
O Estado de São Paulo
18/9/2008
A nação perdida
Demétrio Magnoli
A Bolívia é uma prova do fracasso da teoria da modernização e do triunfo trágico das políticas calcadas sobre identidades étnicas. A teoria da modernização, tanto na vertente marxista quanto na conservadora, ambas positivistas, enxerga as identidades étnicas como anacronismos: sobrevivências de um passado atrasado destinadas a desaparecer pela ação trituradora do capitalismo. Mas as políticas étnicas bolivianas - conduzidas, em sentidos contrapostos, por Evo Morales e pela elite dirigente de Santa Cruz - não expressam teimosas realidades ancestrais: as identidades ameríndia, no Altiplano, e camba, no Oriente, são invenções recentes que funcionam como ferramentas no jogo de poder. Os plebiscitos que confirmaram o mandato do presidente, bem como os dos governadores oposicionistas do Oriente, atestam o triunfo dos dois lados na fabricação de identidades étnicas contrastantes. Para azar da Bolívia.
Não se deu a merecida atenção às fotografias das sessões da Assembléia Constituinte boliviana da qual emanou o texto constitucional que figura como pomo da discórdia. Os deputados da maioria exibiam vestimentas ameríndias tradicionais, algo que só não provoca estranheza a quem desconhece a Bolívia. Os ameríndios são 5 milhões, entre 9,1 milhões de bolivianos. Hoje, metade deles vive nas cidades. El Alto, a “cidade indígena” na periferia de La Paz, já tem 870 mil habitantes, que fazem da internet um nexo entre o mundo e as comunidades aimarás dos povoados do Altiplano. A língua espanhola, que foi o idioma apenas dos brancos e mestiços, atualmente é tão utilizada pelos índios quanto o quíchua e o aimará. Os ameríndios bolivianos não usam mais vestimentas “indígenas”, exceto para vender produtos a turistas ou se são representantes de um projeto étnico na Assembléia Constituinte.
A “Bolívia ameríndia” é uma ruptura identitária. Os mineiros do estanho que deflagraram a Revolução Boliviana de 1952 tinham origem indígena, mas se definiam como trabalhadores e bolivianos, não como índios. O próprio Evo Morales alçou-se à notoriedade atuando como liderança sindical dos camponeses “cocaleros”. Foi só mais tarde, quando iniciou a jornada rumo à presidência, que ele se aliou aos arautos de um “renascimento aimará” e a ONGs multiculturalistas internacionais. Dessa aliança nasceu o projeto de uma “Bolívia plurinacional”, agora consagrado na letra de uma Constituição que acende a fagulha da guerra civil.
“Elite branca”, esse é o epíteto usado pelos governistas para fazer referência aos oposicionistas da “Meia-Lua” boliviana. Entretanto, nos Departamentos orientais, elites e povo não se enxergam como brancos, mas como mestiços cambas. O movimento camba nasceu como reação à Revolução Boliviana dos mineiros de estanho, fabricando uma suposta identidade ancestral para o povo do Oriente. Segundo essa narrativa romântica, os cambas seriam os frutos da miscigenação entre brancos de origem espanhola e guaranis das terras baixas. O relicário de imagens dos guaranis “ancestrais” desempenha, em Santa Cruz, funções simbólicas paralelas às das “nações originárias” ameríndias em La Paz.
A ascensão de Evo Morales, portando a bandeira da restauração das “nações originárias”, forneceu combustível para a transformação do projeto identitário camba num movimento popular. Evo e os seus continuam a crismar os opositores como “minoria oligárquica”, mas sabem que não é bem assim. Eis o motivo pelo qual, diante das alternativas da repressão e da negociação, optaram pela segunda.
Paradoxalmente, a natureza trágica do impasse boliviano decorre da convergência de fundo entre La Paz e Santa Cruz, sintetizada na fórmula da “Bolívia plurinacional”. Essa fórmula significa que todos estão de acordo em renunciar à nação boliviana. De acordo com ela, a Bolívia não existe, a não ser na forma de uma entidade territorial: uma moldura geográfica habitada por nações distintas, em tudo apartadas. O consenso da renúncia molda os dissensos políticos capazes de ensangüentar o país.
Nos tempos da Revolução Boliviana, a riqueza da Bolívia estava incrustada no subsolo do Altiplano indígena, sob a forma de extensos veios de cassiterita. Hoje, a riqueza encontra-se nos depósitos de hidrocarbonetos do subsolo do Oriente camba. Na cúpula da Unasul, dias atrás, Evo Morales defendeu a “unidade” do país e acusou os opositores de tramarem a “divisão”. Na sua tradução da “Bolívia plurinacional”, as “nações” bolivianas têm direito à autonomia, mas a “unidade” repousa sobre o controle central dos recursos naturais e das rendas dos hidrocarbonetos. Os governadores da “Meia-Lua”, por sua vez, exigem que essas rendas sejam subordinadas ao princípio da descentralização e aos privilégios autonômicos departamentais.
A nação, nas palavras de Benedict Anderson, é uma “comunidade imaginada”. Os bolivianos imaginaram-se como integrantes de uma nação única mesmo nas turbulências incessantes de quase toda a segunda metade do século 20. Agora, em razão das opções de suas elites políticas, tanto a do Altiplano quanto a do Oriente, imaginam-se como soldados de nações étnicas separadas pela fronteira intransponível do sangue. Na cúpula da Unasul, Hugo I atribuiu a crise à “ingerência do império americano” e a “uma espécie de greve” do comando militar boliviano. Mas, apesar do que pensa o Mussolini latino-americano, a crise é nacional e os chefes militares comandam um Exército rachado de alto a baixo pela mesma linha de corte que divide a nação. Manifestando seu respaldo ao governo de Evo Morales, o presidente equatoriano, Rafael Correa, prometeu que a América Latina não permitirá a conversão da Bolívia nos “Bálcãs”. Ninguém, exceto os bolivianos, tem o poder de realizar esse desejo. Mas não será fácil, pois o requisito é uma renúncia à renúncia. Depois de tudo, alguém ainda quer ser simplesmente boliviano?
Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. Email: demetrio.magnoli@terra.com.br.
Escrito por pitacos às 02h41
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Oposição rendida

Em escala nacional, candidatos a prefeitos vinculados ao DEM e ao PSDB têm apelado para uma manobra aparentemente esperta de colar na imagem de Lula, em função da popularidade do presidente. Em Salvador, ACM Neto se penitenciou por ter combatido o presidente de forma dura. Em São Paulo, Kassab chegou a falar, em seu programa, de suas boas relações com ele. Geraldo Alckmin aderiu à onda. Disse que com Lula, tudo bem.
Até agora nenhum candidato oposicionista foi turbinado pela manobra marota, que visa separar a criatura do criador, como se fosse possível criar um fosso entre Lula e a sua base de sustentação. O fenômeno revela, antes de tudo, uma rendição ideológica em nome de uma aparente vantagem eleitoral, na qual os dois partidos vão abrindo mão da sua obrigação de ser oposição a Lula. Contraria-se o desejo do eleitorado, que votou no PSDB e no DEM como alternativa a Lula, nas últimas eleições presidenciais.
Raul Christiano, um tucano histórico e membro do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo, aborda com muita propriedade esta tendência, mais particularmente no que diz respeito ao seu partido e à campanha de Geraldo Alckmin. Pela oportunidade de sua opinião, publicamos abaixo a nota divulgada no Blog do Raul, para o qual recomendamos visitas constantes. Para acessar, clique aqui.
“ Lula tudo bem. O problema é o PT.”?
Opinião do Raul – 17 de Setembro de 2008
“Juro que evitei, até agora, comentar sobre a nova frase da campanha do Geraldo Alckmin - "Lula tudo bem. O problema é o PT." - que a meu ver pode ser interpretada como oportunista, uma rendição, que não se coaduna com a origem do PSDB, orgulhosa em se afirmar longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas. Mesmo considerando que atualmente o "pulsar das ruas" indica o recorde histórico de popularidade do presidente da República. Isso não pertence ao PSDB, que deve buscar alternativas mais inteligentes para comparar e acentuar as suas diferenças com o lulopetismo e com o jeito gafanhoto do PT governar. Ao PSDB pertencem Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aécio Neves, Sérgio Guerra, Arthur Virgilio, José Aníbal, Paulo Renato, Tasso Jereissati, Beto Richa, Gustavo Fruet e o próprio Geraldo, apenas para citar alguns exemplos.
Tivemos oportunidades históricas de uma aliança comum, na Constituinte e no pós-impeachment de Fernando Collor. Porque o PT e o PSDB foram construídos com índole democrática, na luta lado a lado com a sociedade, resultando em bases fortes e muito bem definidas. Porém, cada um a seu modo, optou por exibir estratégias transformadoras da sociedade bem diferentes. O PSDB, querendo a vitória nas urnas para mobilizar a sociedade e realizar as mudanças necessárias. E o PT, com o mesmo objetivo de vitória, mas querendo ocupar a vanguarda do trabalhador e, como partido, ocupar o Estado e daí promover as mudanças.
A eleição para a Prefeitura de São Paulo reacende esse debate diferencial. E não se trata de nacionalizar o discurso político, porque o paulistano quer um governo identificado com a solução dos problemas locais, no sistema de saúde, nos transportes públicos e no verdadeiro caos viário. Ao mesmo tempo, é possível resgatar na memória o estado da Prefeitura quando José Serra assumiu em janeiro de 2005 e foi obrigado a realizar ajustes vitais, que evitaram a falência da maior cidade da América do Sul.
Deixando de lado, um pouco, o cenário da disputa e das últimas pesquisas, nada justifica a negação de posições recentes do próprio Geraldo Alckmin, quando concedeu entrevista ao jornal "O Estado de São Paulo" (26/03/2007), para contestar uma proposta de trégua ao PSDB por parte do presidente Lula: "Ele não entende a lógica democrática… É tão patriótico ser governo quanto ser oposição. O que a oposição tem de fazer é criticar, fiscalizar, cobrar…"
Incomoda ver na imprensa os comentários de que o comando do PSDB faz vista grossa ao esforço de seus candidatos, por todo o país, para se associarem ainda que "de lado" à imagem de Lula. Há um preço para cada eleição. As contingências desfavoráveis de hoje, em alguns municípios, não podem levar ao desespero de causa, porque o marketing político, a criatividade publicitária e as avaliações por meio de pesquisas não substituem a coerência do discurso e da sua prática.”
Escrito por pitacos às 09h33
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O Brasil e a crise mundial

É dever de ofício das autoridades não espalhar o pânico em momentos de grave crise econômica em escala planetária. E de certo tanto Guido Mantega como Henrique Meireles têm razão quando dizem que o nosso país está muito menos vulnerável do que em outras crises passadas, graças a uma política econômica iniciada na época Fernando Henrique e que o atual governo teve a sabedoria de mantê-la. Mas Lula vai ao exagero ao dizer que a crise será praticamente imperceptível para o Brasil.
Não se conhece ainda a extensão da atual crise mundial, ainda que o dia de hoje seja de maior alívio, em função de o governo norte-americano ter evitado, na undécima hora, a quebradeira da maior seguradora do mundo. Mas a crise persistirá por um tempo e provavelmente provocará uma retração econômica em escala planetária, inclusive em mercados emergentes como o da China e da Índia.
Isto nos afeta de forma não desprezível. Para começo de conversa, o financiamento externo do investimento produtivo brasileiro ficará muito mais difícil e mais caro. Os grupos privados do país vão sentir isto na pele nos próximos três meses, quando terão que negociar em condições mais adversas a rolagem de uma dívida de 15 bilhões de dólares. É bom lembrar que a expansão da economia do país, inclusive o excelente desempenho do PIB do primeiro semestre, foi em muito alavancada pelos investimentos privados.
Se já será difícil rolar a dívida, imaginem o quanto será conseguir novos financiamentos externos. Da mesma forma a bolsa de valores brasileira tende a ser menos atrativa para investidores externos, o que complica a possibilidade de as empresas brasileiras captarem recursos para os investimentos programados.
Para se ter uma idéia do quanto a crise mundial pode afetar a nossa vida, basta citar a declaração de hoje do presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, para quem, a depender de sua extensão e profundidade, o financiamento para a exploração da camada do pré-sal se tornará mais difícil. De onde virão estes recursos, estimados agora pela própria estatal na casa de 420 bilhões de dólares?
Seremos atingidos também em outros campos. A retração do consumo mundial afetará o desempenho das exportações brasileiras, sobretudo porque vem acompanhado da queda do preço das commodities, das quais tanto depende a nossa pauta de exportação. Ou seja, a balança comercial brasileira pode ser afetada até porque as importações se tornaram mais caras com a valorização do dólar. No plano interno o crédito, que foi um fator importante para a expansão do consumo, já está se tornando mais caro.
O mais provável, portanto, é que a crise mundial provoque uma diminuição do ritmo de crescimento da economia brasileira, particularmente para o próximo ano. Nada que se aproxime de uma recessão profunda ou que deixe o Brasil de quatro, para utilizar uma expressão de Guido Mantega.
Este risco é muito pequeno e muito provavelmente seremos menos afetados do que outros países. Mas que seremos, não há dúvidas. E não será de forma imperceptível. Essa é a avaliação, tornada pública, de Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central.
Subestimar a crise mundial é o maior dos males, ainda que ela não represente a hecatombe do capitalismo mundial. O ideal é que o governo Lula avance nas medidas cirúrgicas, inclusive com o corte dos seus gastos correntes, para reforçar mais ainda os fundamentos da política econômica brasileira.
Quanto maior a prevenção, menores serão os impactos, para minimizar a redução do crescimento do PIB. A dúvida é se Lula agirá como estadista, em meio a um processo eleitoral, que se repetirá em maior escala dentro de ano e meio e que, de fato, já está em curso.
A crise do sistema financeiro internacional, cujo epicentro é múltiplo, dos Estados Unidos à Europa, é enfrentado pelos governos, através de seus bancos centrais, que injetam fortunas nos bancos e seguradoras privados. Algumas instituições passam ao controle do Estado, por não terem compradores. É um PROER em escala internacional.
Por último, uma filosofada: o que seria de nós se, lá trás, Fernando Henrique Cardoso não tivesse saneado o sistema financeiro do Brasil, através do PROER, duramente criticado pelos petistas? O sistema financeiro teria quebrado e recuperado a seguir, com custos elevadíssimos. Enfraquecidas as instituições financeiras, o país estaria agora de quatro, diante desta crise mundial.
Escrito por pitacos às 11h20
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Bolívia: uma chance para a paz

A União das Nações Sul-Americanas ( Unasul), fundada há apenas quatro meses, só atua por unanimidade, o que implica necessariamente na negociação de resoluções amplas. Ela passou no teste, enfrentando uma questão complexa.
A entidade conseguiu produzir um caminho para ajudar na busca de uma solução negociada para a superação da grave crise da Bolívia. É positivo que o presidente Evo Morales tenha aceitado a intermediação da Organização dos Estados Americanos, tenha concordando com diálogo com a oposição, manifestando a disposição de conversar com todos os oposicionistas, inclusive o ultra-radical, pela direita, governador do Departamento de Pando.
A crise da Bolívia não é apenas uma questão interna. Ela afeta a estabilidade política e geográfica de toda a região. Neste contexto, a intermediação dos países vizinhos se justifica. A participação da Venezuela soma, devido ao peso real do Coronel Hugo Chavez, que não pode ser ignorado na crise boliviana, apesar da ópera bufa que o autoproclamado “líder bolivariano” encena onde quer que esteja.
Felizmente prevaleceu a moderação na reunião da Unasul, graças ao papel positivo de Michele Bachelet, presidente do Chile, e, justiça se faça, de Lula. Evitou-se assim que a reunião dos presidentes sul-americanos servisse de palco para que Hugo Chávez exercitasse sua retórica intervencionista e seu anti-americanismo rastaqüera. Não houve espaço para que o protoditador da Venezuela colocasse mais lenha na fogueira.
O diálogo construtivo proposto pela reunião da União das Nações Sul-Americanas afirmou questões corretas, como o reconhecimento da legitimidade do mandato de Evo Morales, eleito nas urnas e reafirmado em plebiscito- goste-se ou não dele e avalie-se ou não o teor democrático do referendo. Também foi acertada a postura de considerar inadmissível a divisão territorial da Bolívia, como passa pela cabeça de alguns setores da oposição, que irresponsavelmente falam em separatismo. Da mesma forma, exigiram que as forças de oposição deixem de utilizar formas de luta à margem da institucionalidade e que desocupem os prédios públicos.
A oposição capitaneada pelos governadores dos departamentos rebeldes não é um todo único. É inegável que setores mais radicais, de direita, jogam suas fichas na desestabilização do governo Evo Morales e criam um clima que pode levar a Bolívia para uma guerra civil.
Tudo indica que a expressão maior do radicalismo de direita concentra-se no Departamento de Pando, onde há a suspeita de que correligionários do governador de oposição promoveu um massacre de simpatizantes de Evo Morales.
A Unasul não abordou as questões em que Evo Morales tem de ceder ou modificar. Elas estão subjacentes, quando a organização latino-americana aponta para o diálogo entre os setores conflagrados.
Evo Morales bateu contra os limites da “democracia impositiva”. Se não fizer a sua parte, estará apenas adiando nova conflagração e corre o risco de ver sua liderança e legitimidade, que ainda tem, jogada na vala comum de tantos líderes latino-americanos.
Escrito por pitacos às 15h59
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Baixaria e desespero

A campanha de Geraldo Alckmin aderiu à tática do tudo ou nada, uma manobra desesperada para reverter sua tendência de queda e se colocar no segundo turno. O expediente é conhecido. Não tendo mais nada a perder, o candidato joga farofa no ventilador e apela para todas as armas, inclusive a baixaria.
É o que começou a fazer o candidato tucano, em seus comerciais de trinta segundos. De um lado, deu um golpe no baixo-ventre em Marta, relembrando sua frase “relaxa e goze” e, de outro, partiu para o jogo sujo em cima de Kassab, ao relembrar o episódio em que xingou um popular de “vagabundo”. O bom moço de Pindamonhangaba rendeu-se ao seu núcleo duro. Parece estar convencido de que o feio é perder. Ou que os fins justificam os meios.
Ainda que tenha distribuído a baixaria de forma parcimoniosa para seus dois adversários, o foco mesmo é Kassab, como anuncia o seu novo marqueteiro. Raul Cruz Lima diz que abordará as alianças passadas do prefeito com Maluf e Pita e a atual com Quércia.
Em política, isto tem um nome: oportunismo. Afinal de contas, nem o PSDB nem Geraldo, que era governador na época, colocaram obstáculos para que Kassab fosse o vice da chapa de José Serra em 2004. Quando Serra se afastou da administração municipal para disputar o governo estadual, os tucanos continuaram participando da Prefeitura capitaneada por Kassab. Nenhuma voz levantou que ele não era confiável. Ao contrário, rasgaram elogios, porque o Prefeito estava dando continuidade ao modo tucano de governar.
Geraldo Alckmin namorou até não poder mais Orestes Quércia para que este participasse da aliança de sua candidatura. Se isto estivesse ocorrido, os tucanos estariam fazendo vista grossa para o passado do peemedebista. Mas como não conseguiram, Quércia voltou a ser o cão chupando manga! Na hipótese, agora mais difícil, de Geraldo Alckmin ir para o segundo turno, ele descartará o apoio do cacique do PMDB? Vai querer Kassab do seu lado?
Esse negócio de atacar alguém por suas alianças passadas é pura bobagem. Se fosse assim, Sarney jamais teria sido vice de Tancredo e não teria desempenhado o papel positivo que teve na redemocratização brasileira.
A tática do tudo ou nada dará resultados positivos? Difícil de crer. Ela poderá agravar mais ainda a situação de Geraldo Alckmin. O eleitorado quer o confronto de propostas, mas não gosta de quem parte para o xingatório vazio. Por este caminho, o tucano poderá perder o único trunfo que ainda lhe resta: sua baixa rejeição. E mais, como péssimo general, estará queimando as pontes que lhe restam para o segundo turno. Se passar, terá enormes dificuldades para compor uma vasta aliança que possa lhe levar à vitória. Se perder, também terá dificuldade para levar a totalidade, ou a ampla maioria, de seu eleitorado e de suas tropas para uma ampla aliança com Kassab contra a candidatura lulopetista.
Hipoteticamente a tática kamikaze pode até levar ao estancamento da ascensão da candidatura Kassab e fazer Geraldo Alckmin passar para o segundo turno, não por suas qualidades, mas pela desconstrução de Gilberto Kassab.
É nisso que Marta aposta. Se Kassab aceitar a provocação, assistiremos a um tremendo fogo amigo entre duas candidaturas do mesmo campo, o que será uma tragédia.
As pesquisas do final de semana do IBOPE e do Datafolha indicam que o eleitorado paulistano está polarizado entre o ontem e o hoje. Mais precisamente, entre a administração passada de Marta Suplicy e a gestão Serra-Kassab.
É isto que vem levando ao crescimento da candidatura do atual Prefeito, que muito provavelmente ainda não bateu no seu teto. O cruzamento dos dados, tais como diminuição de sua taxa de rejeição, empate técnico com Marta no segundo turno e crescimento da aprovação de sua gestão, curva continuamente ascendente de suas intenções de voto, indica que ele está com um pé no segundo turno. É isso que indicam as pesquisas qualitativas de sua campanha e da de Marta.
A campanha de Kassab acertou o mote, que é o de apresentar-se como a continuidade do que dá certo, em comparação com o passado da gestão Marta Suplicy, que foi derrotado.
A campanha de Geraldo Alckmin vive a situação contrária. Suas intenções de voto caem continuamente. Sua propaganda eleitoral é errática, à procura de um norte. Tentou marcar-se como a melhor alternativa para a Prefeitura, por ter experiência como governador. Afirmou sua postura de gentleman, que não batia em ninguém. Era uma campanha de proposituras e de afirmação de suas realizações como governador. Não deu certo. Agora parte para os ataques, abaixo da linha de cintura. Idas e vindas, para todos os lados e descaracterização de uma “marca” não têm como levar à vitória.
Nesse quadro, ficou difícil para Geraldo Alckmin meter uma cunha e se colocar na disputa, com reais chances de chegar ao segundo turno.
Daí o apelo à baixaria e a adoção da tática do desespero. Faria melhor se mantivesse a cabeça fria e ouvisse o conselho dado pelo presidente municipal do PSDB, José Henrique Lobo, intitulado “Aviso aos Navegantes”, Trata-se de um dramático apelo para que os todos os tucanos concentrem sua crítica na campanha de Marta Suplicy.
Ainda há tempo para que as vozes do bom senso darem o tom.
Escrito por pitacos às 12h06
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