Pitacadas nº 44

O aborto de fetos anencefálicos
O STF (Supremo Tribunal Federal) julgará até o final do ano o mérito da ação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde, CNTS, que propõe deixar de ser crime o aborto de fetos anencéfalos (sem ou com quase nenhum cérebro).
O Ministro Marco Aurélio havia concedido liminar favorável ao pedido da CNTS. Abortos de fetos com anencefalia foram realizados pelo país inteiro, até que a liminar fosse cassada, por 6 x 4 dos votos dos ministros.
O STF decidiu realizar audiências públicas para discutir a questão. Na primeira, realizada nesta terça-feira, estiveram presentes representantes de religiões e entidades religiosas. A próxima acontecerá na quinta-feira. Contará com a presença de entidades médicas e científicas. No dia 4 de setembro será a vez de organizações da sociedade civil, incluindo parlamentares.
Repetem-se as polarizações que aconteceram em todas as questões similares. A mais recente delas foi a permissão de pesquisas com células-tronco embrionárias.
Os representantes das religiões, com destaque para a CNBB e a Igreja Universal do Reino de Deus, mantêm os mesmos argumentos sobre a existência da vida desde a concepção. A vida deve ser preservada mesmo na condição dos fetos anencefálicos, independente da condição das mães.
As gestantes teriam de arcar com todos os encargos – inclusive emocionais – de desenvolverem fetos que têm grande possibilidade de morrer no útero e 100% de chances de morte logo após o nascimento.
Há casos excepcionais, raríssimos, em que uma criança sem cérebro sobreviveu por períodos maiores. No Brasil existe um caso recente de uma criança anencefálica que viveu por quase dois anos.
Em defesa da reivindicação da CNTS estão as entidades médicas e científicas.
O argumento básico é o da inviabilidade da vida humana. Não existe possibilidade desses fetos se transformarem em seres humanos plenos, com todas as funções que os definem. E mais, esses fetos não sobrevivem, a não ser por segundos ou por poucas horas após o nascimento.
É muito alta a incidência de mortes durante a gestão. Há riscos para a saúde física da gestante e também para sua saúde mental.
O pedido da CNTS não obriga nenhuma mãe a abortar. O que se estabelece é o direito de escolha da mãe interromper a gestão de um feto inviável, sem que isto seja considerado crime.
Pitacos posiciona-se a favor do pedido da CNTS.
Esse é um caso inequívoco, evidente e cabal de como deve se aplicar o direito de decisão das mulheres sobre a continuidade de uma gestação.
Deve-se registrar que nem todas as entidades religiosas cerram fileiras com os representantes da Igreja Católica e da Igreja Universal do Reino de Deus.
A ONG Católicas pelo Direito de Decidir, por exemplo, defende a reivindicação da CNTS.
A CNBB repetiu no STF um chavão que lhe é caro. A aprovação do aborto, seja em que situação for, mesmo no caso dos fetos anencefálicos, abre espaço para o aborto em geral.
Foi o mesmo argumento utilizado contra as pesquisas com células-tronco embrionárias, sem sucesso.
Obama x Hillary
A Convenção do Partido Democrata em Denver, Colorado, realiza-se sem maiores emoções.
Não estamos falando do tipo de emoção que foi a presença de Edward Kennedy, que luta contra um câncer de cérebro. Ele, de viva-voz, manifestou mais uma vez seu apoio a Obama e fez paralelos com seus irmãos John e Robert. Quem conhece as fileiras democratas entende o peso e o simbolismo da atitude do senador.
As emoções políticas escassearam. Barack Obama obteve a candidatura à Casa Branca há semanas, quando ultrapassou Hillary Clinton no número de delegados e nas “intenções de voto” dos superdelegados. Nada de disputa.
Faltava a indicação do vice-presidente.
Formalmente, trata-se de uma prerrogativa do candidato. De fato acontece uma “convenção” intramuros, só aberta a cardeais, no mínimo.
Foi indicado o senador por Delaware, Joseph R. Biden.
Ele presidiu a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Tem experiência internacional, o que preenche uma lacuna importante de Obama.
A constatação é que os Clinton, Bill e Hillary, dominaram o Partido Democrata por muitos anos. Obama quebrou esta hegemonia, até mesmo com a indicação de seu vice.
Some-se a pretensão da senadora de Nova Iorque de ser a vice-presidente. Queria fazer sombra a Obama e reaglutinar sua gente.
Some-se tudo isto as feridas da acirrada campanha eleitoral.
Parte do eleitorado e dos delegados de Hillary ameaçaram se rebelar e sangrar Obama em novembro.
A paz entre os democratas e a preservação dos espaços da candidata derrotada tornaram-se a única “novidade” da Convenção.
Hillary teve um palco fortalecido por 25 mil pessoas, para afirmar-se como a segunda pessoa em importância entre os democratas. E para rogar pela paz e pelo voto em Barack Obama.
Tudo conforme um roteiro previsível.
Partidários de Hillary Clinton propõem a votação da candidatura presidencial. Tudo de mentirinha.
Votam os delegados eleitos e os superdelegados. A apuração seria pró-forma. Já no seu início, seria interrompida. Haveria a proclamação da unanimidade em torno de Barack Obama.
Mas Hillary Clinton teria sido reconhecida pelo peso que tem.
Esta encenação já tinha sido acertada há semanas, com o apoio de Obama. Saiu nos bastidores da grande imprensa americana.
Convenhamos. Já é um pouco de perfumaria demais, para não utilizarmos um termo mais apropriado.
Afinal, sem novidades, surpresas, nada, o que farão os democratas e a imprensa para matar o tédio até a quinta-feira, quando Barack Obama discursará num estádio, aceitando simbolicamente a candidatura?
Escrito por pitacos às 03h21
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