|

Entre mortos e feridos, nem todos se salvaram
O episódio “desanistia” chega ao fim.
O presidente Lula conteve seus radicais – leia-se o ministro Tarso Genro (Justiça). Mandou-o calar a boca. Declarou que o assunto era página virada.
O principal apoiador do presidente foi o ministro Nelson Jobim (Defesa), não apenas por razões óbvias. Fosse outra a posição do ministro, não ficaria no cargo nem um minuto. O trânsito de Nelson Jobim nas oposições e no Judiciário ajudou na pacificação.
Os comandantes militares e também os líderes da reserva, destacadamente o general Gilberto Figueiredo, jogaram água na fogueira, que ameaçava sair do controle, não no sentido de uma rebelião, mas em polarizações que não interessavam, a não ser a radicalóides de ambos os quadrantes.
Houve uma solução à la Lula. Intramuros, o presidente determinou a pacificação, calou a turma de Tarso Genro e tranqüilizou os militares.
Para fora, o presidente jogou para a galera. Seu pronunciamento na UNE, nesta terça-feira, foi emblemático. Defendeu uma pseudo radicalização em favor dos “mártires” do país, de Tiradentes até os dias atuais. De fato, não tocou na questão dos crimes do outro lado, a não ser de maneira genérica.
Não é um despropósito a suspeita de que o discurso desta terça-feira tenha sido fruto de um acordo tácito, do tipo “vou radicalizar, aparentemente, para dar satisfações a meu público. Vocês seguram os seus”. Já vimos filmes parecidos, várias vezes.
O resultado final da queda de braço não foi neutro.
Os militares estavam atidos a suas funções constitucionais. Não faziam política há trinta anos, exceto sobre a questão amazônica, numa dimensão muito menor.
A “desanistia” levou setores das Forças Armadas à retomada da defesa de posições radicais de direita que não tinham mais espaço nem expressão, desde o fim da ditadura.
Para os militares retornarem à situação anterior serão necessários anos.
Este passivo na luta pelo aprofundamento da democracia tem autoria e liderança, que estão, ainda, na Esplanada dos Ministérios.
Montanhas e rios se movem
Na atual guerra do Cáucaso as críticas à Rússia são a desproporcionalidade do seu ataque.
Aparentemente o Ocidente aceitaria uma reação moderada, embora não exista no planeta que consiga dizer qual seria.
O atual conflito envolve duas questões: de um lado a questão étnica na fronteira entre os dois países; de outro, a geopolítica do Cáucaso.
Os habitantes da etnia ossetiana originam-se nas planícies russas, ao sul do Rio Don. Suas línguas e cultura são próprias. Eles nada têm a ver com os georgianos.
Os ossetianos dividiram-se em dois territórios, norte e sul. O primeiro forma uma região autônoma, dentro da Rússia. A Ossétia do Sul é formada por 1/3 da etnia ossetiana, que quer a secessão da Geórgia e a fusão com a Ossétia do Norte.
Ou seja, a situação regional é de puro combustível.
As tropas georgianas ocuparam toda a região da Ossétia do Sul, para reprimir os intentos separatistas.
Outra razão do conflito é a geopolítica da região, num sentido mais amplo.
A política americana tem sido a de imprensar a Rússia, reduzindo suas áreas de influência.
A Geórgia tornou-se aliada privilegiada dos Estados Unidos. Participa do conflito iraquiano e está com um pé dentro da OTAN (Aliança do Atlântico Norte).
A invasão da Geórgia à Ossétia do Sul deu o mote à reação generalizada da Rússia, para a unificação das Ossétias sob seu guarda-chuva e para a destruição da capacidade militar da Geórgia.
O acordo de paz está em vias de operacionalizar-se, com a vitória acachapante da Rússia. Ela pode retroceder às fronteiras anteriores à guerra, assegurando a unificação das Ossétias e a destruição da capacidade militar da Geórgia. É possível que consiga a neutralidade da Geórgia em relação à OTAN.
As fronteiras nacionais, desde o fim da União Soviética, estão longe da estabilidade.
O que o Ocidente não pode ter como política é considerar a Rússia como cachorro morto.
Ketlyn Quadros, glória e tragédia
Ketlyn Quadros, a judoca de Brasília, 20 anos, conquistou a primeira medalha por uma mulher, individualmente, em toda a história das participações do Brasil nas Olimpíadas.
Sua medalha de bronze é cantada em prosa e verso, com razão, por toda a imprensa.
Sua família, pobre, conta as dificuldades para comprar o quimono e as passagens de ônibus até a quadra. Como muitos atletas, Ketlyn é uma guerreira.
Este é o lado heróico da história.
O outro é a situação emblemática de Ketlyn, que retrata o descaso com os esportes.
Apenas 12% de nossas escolas, públicas e privadas, têm quadras. Todos sabemos da precariedade absoluta de nossa infra-estrutura física e humana.
Não é gratuito que nas Olimpíadas sejamos um país cuja performance é menos do que mediana. A maioria dos nossos atletas competitivos é “estrangeiros”, exceto judocas, ginastas e parte dos praticantes de esportes coletivos.
Sem o engajamento dos governos municipais, estaduais e federais, sobretudo dos Ministérios da Educação e dos Esportes, na integração do esporte com a rede educacional continuaremos a reproduzir as Ketly Quadros.
E a conviver com exceções como ela.
Escrito por pitacos às 14h03
[]
[envie esta mensagem]
|