Pitacos: política brasileira em foco
   Um debate sem sal. E inútil

 

O debate dos prefeituráveis de São Paulo, promovido pela TV Bandeirantes, foi um prato insosso, difícil de ser ingerido. Culpa de uma legislação maluca que obriga a presença de todos os candidatos em eventos deste tipo, mesmo daqueles que têm zero por cento de intenções de voto. Mas também de regras engessadas que permitem aos candidatos dizer o que quiserem, sem serem confrontados com a realidade.

Este tipo de debate está com os dias contados. Ninguém agüenta ficar duas horas e quarenta minutos em frente à televisão para assistir algo que não lhe acrescenta nada. Ninguém agüenta assistir jornalistas perguntarem sobre o quase nada – como a construção de sanitários públicos – a candidatos folclóricos, para serem comentadas por outro candidato exótico. Haja paciência!

Foram parcos e raros os momentos de frisson. Um pouco de farpas entre Alckmin e Kassab - que não podem ser superestimadas como se isto fosse dar o tom da campanha daqui para frente - de Kassab com Marta e de Geraldo com a petista. Os momentos de confronto foram uma gota d”água em mais de duas horas de monotonia. Deste ponto de vista, o debate em nada modificou a situação dos três principais contendores. Marta, Kassab e Alckmin continuarão tendo as mesmas intenções de voto após o debate.

Se forem levados em consideração os três principais contendores, pode se afirmar que não houve ganhos ou perdas para ninguém. Entraram e saíram do mesmo tamanho.

Para não dizer que nada se salvou, vamos a algumas avaliações. A surpresa positiva foi o desempenho de Soninha Francine, a candidata do PPS. Teve um desempenho televisivo ótimo, até por ser do ramo. Ela acertou não apenas na forma, mas também no conteúdo. Seu discurso foi articulado, manifestando conhecimento dos problemas da cidade e seu ponto forte foi o não sectarismo. Soube elogiar aqui e ali pontos positivos de diversas administrações passadas. Mesmo algumas propostas aparentemente folclóricas, fazem sentido porque grandes cidades de outro país já as adotam, como no caso das ciclovias. Bogotá, por exemplo, tem 300 quilômetros de ciclovia, enquanto são Paulo tem apenas 25.

Dá para inferir, pelo debate, que ela pode ser o estuário de um eleitorado mais politizado e ético, desencantado com o PT, que não quer o PSDB. Suas intenções de voto, 2%, podem crescer de maneira significativa, pelo menos dobrando, o que seria um grande feito.

Umas palavrinhas sobre Maluf. Ele sempre se sai bem em debates deste tipo, em que inexiste confrontação, até pelos anos de estrada rodada. Seu bom desempenho, nos termos de sua política, nada lhe acrescenta na atualidade. O malufismo é uma espécie em extinção.

Vamos aos verdadeiros contendores.

Mesmo um pouco nervoso, Kassab se saiu bem quando foi apertado pelas duas mancadas que cometeu: o episódio dos “fichas-sujas” e do monitoramento do Datafolha. É evidente que, em relação a este último, sua explicação não convenceu ninguém com um mínimo de formação política. Mas ao menos ele estabeleceu uma linha de defesa. Deu para sentir qual será sua estratégia: tentar comparar sua administração com a de Marta Suplicy, para ser o estuário do anti-petismo. É por aí que ele vai tentar roubar votos de Geraldo, evitando a priorização do confronto com o tucano. Se conseguirá, são outros quinhentos. Dificilmente terá sucesso. Uma questão sobre Kassab: para ele é ruim entrar num debate e sair do mesmo tamanho, pela distância que tem, em intenções de voto, para Marta Suplicy e Geraldo Alckmin. Foi o que aconteceu ontem.

O depositário do anti-petismo tem sido Geraldo Alckmim. Ontem ele mostrou que é do ramo, ao produzir o melhor momento do debate. Deixou Marta grogue ao desnudar o descalabro financeiro da Prefeitura, que ela deixou para José Serra. Se é para medir quem tem mais condições de polarizar com a petista, Alckmin mostrou que está alguns anos luz na frente de Kassab. A petista sentiu o golpe e quase perdeu a estribeira. Os anos de janela também favoreceram a Alckmin. Sereno e seguro, seu desempenho é bem ao gosto dos paulistanos, pela sua forma educada e de bom-moço. Seguramente é um erro interpretar que o centro de seu programa televisivo será a troca de farpas com Kassab, só porque ontem utilizou este expediente. Não interessa a Alckmin este tipo de confronto. Daqui para frente certamente ele se empenhará em mostrar como pode melhorar aquilo em que vai bem.

Vamos a Marta Suplicy. Deu para notar que a petista vai tentar colar na imagem de Lula. Apelará para o discurso do “aprendi muito, inclusive com os meus erros”, para tentar atrair a classe média, que até hoje tem ojeriza a ela. Ontem a ex-prefeita não estava nos seus melhores dias, inclusive na forma, algo que seu marqueteiro, João Santana, tentará dar um jeito rapidamente. É interessante observar que ela não tomou a iniciativa de promover nenhum confronto. Nem com Kassab, nem com Alckmin. Ao contrário, quando provocada e chamada para a briga não teve o melhor desempenho, particularmente no embate com o tucano.

Como o debate da Bandeirante foi insípido, inodoro e incolor, há que se esperar outros momentos da campanha para saber efetivamente como os três principais contendores vão se comportar. Por enquanto, só tivemos algumas pistas.



Escrito por pitacos às 11h34
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   Doha, as camisas-de-força e o lulopetismo

 

 

O fracasso das negociações de Doha expôs os erros da política externa brasileira no período lulopetista.

 

Foi por terra a principal meta do governo brasileiro: liderar os países emergentes e pobres.

 

A concepção dominante até há dias era a divisão entre ricos e pobres. Como materialização dessa política, foi criado o G-20, para por no córner o grupo dos países desenvolvidos.

 

O G-20 evaporou-se em Doha. Foi jogada no lixo a concepção “pobrista” e terceiro-mundista. Revelou-se um mundo muito mais complexo. Os “ricos” europeus agiram em bloco, como seria de se esperar. Os Estados Unidos, nem tanto. Na questão da diminuição progressiva dos subsídios agrícolas, por exemplo, a China e a Índia se alinharam à Comunidade Européia. O Brasil, aos Estados Unidos, para surpresa dos mais primários.

 

O Brasil sonhou com um mundo onde uma nova ordem comercial seria pautada por negociações multilaterais, tendo por base a OMC. Não mais haveria barreiras protecionistas. Neste paraíso seriam contemplados os nobres interesses brasileiros.

 

A OMC só delibera por unanimidade. Casar interesses de dezenas de países é tarefa que supera os doze trabalhos de Hércules, a menos que houvesse um país ou bloco com tal hegemonia, que conseguisse se impor aos demais e ter moedas de troca para homogeneizar os interesses de dezenas de membros.

 

Os “emergentes” e pobres racharam, pela atuação da China e da Índia em defesa de setores atrasados de suas agriculturas, para surpresa do Brasil.

 

Com o colapso de Doha, o céu não caiu na cabeça do Brasil, mas sim, nas concepções que pautaram o Itamaraty no período recente.

 

É necessária uma mudança radical.

 

A nova ideologia deve ser o pragmatismo, ou seja, a obtenção de acordos que privilegiem os interesses comerciais do Brasil. Simples, não?

 

O foco principal de nossas relações comerciais deve ser os Estados Unidos e a União Européia. A China e a Índia, também, não em um sentido ideológico, mas como pura e simplesmente parceiros comerciais expressivos.

 

O antiamericanismo nos custou caro. Fez nosso país rejeitar integralmente a ALCA. Não abrimos negociações para superar as cláusulas que feriam nossos interesses.

 

Outros países latino-americanos – Chile, Colômbia e Peru – celebraram acordos bilaterais com os Estados Unidos, que lhes deram privilégios no acesso ao fenomenal mercado norte-americano.

 

A realização de acordos bilaterais com os norte-americanos ou com os europeus, mesmo que o Brasil queira, não é fácil.

 

Nesse meio-tempo priorizamos o Mercosul – com o qual deveríamos ter relações comerciais privilegiadas sem jamais atrelar a ele nossos interesses estratégicos - a tal ponto que aprovamos regras que determinam que a efetivação de acordos bilaterais só pode acontecer por consenso dos países membros.

 

Se quisermos celebrar acordos comerciais com os parceiros de peso, temos de obter o beneplácito da totalidade dos membros do MERCOSUL, inclusive da Venezuela, em vias de se tornar membro pleno.

 

O giro em direção ao pragmatismo não será um movimento fácil, nem indolor, interna e externamente.

 

Não há como evitá-lo, mesmo que o lulopetismo o prorrogue, pela dificuldade de livrar-se das camisas-de-força que seguraram o Brasil por todos esses anos.



Escrito por pitacos às 16h18
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   O inferno astral de Kassab

 

A candidatura de Gilberto Kassab vive o seu inferno astral, em um quadro bem diferente de dois meses atrás, quando tudo parecia ser flores. Lembremos: selou uma coligação eleitoral que lhe deu o maior tempo televisivo. Tudo indicava que teria a seu favor o peso das máquinas municipal e do governo do Estado.

As pesquisas conspiraram contra ele e, de repente, o próprio Kassab deu sua parcela de contribuição para a enrascada que está vivendo. Em uma semana, cometeu dois erros grosseiros.

Açodadamente, panfleteou a cidade para divulgar que Marta e Maluf tiveram seus nomes incluídos na tal lista dos candidatos “ficha-suja”, da Associação dos Magistrados Brasileiros - AMB. Agora a mesma associação incluiu o nome de Kassab entre os “ficha-suja”, deixando-o naquela situação constrangedora do roto falando mal do esfarrapado.

A lista da AMB atenta contra a Constituição, por considerar culpados aqueles que ainda não foram condenados em última instância. A inclusão de Kassab, inocentado em segunda instância e sob recurso, passa por cima dos mais elementares princípios do Direito. Para a AMB, recurso passa a ser culpabilidade.

Defender Kassab não é fácil. Antes de sua inclusão na lista, ele alimentou a baixaria. Planfletou São Paulo inteira, com a denúncia de que Maluf e Marta “sujaram”. O prefeito deu foro de verdade à AMB, que agora o acusa.

Kassab é vítima do próprio veneno.

Outro erro foi mais grave, porque pode ser um sinal de que o desespero bateu às portas de sua candidatura. Quando soube que o Datafolha iria realizar uma pesquisa, mobilizou, através de -email, as subprefeituras, para interferir nos resultados das pesquisas e, quem sabe, fazer com que aparecesse em uma situação mais confortável nas intenções de votos.

Uma ação ingênua e pueril porque não haveria como alterar os resultados do Datafolha. Mas que provocou estragos, porque passou para os formadores de opinião pública a impressão de que Kassab tem cacoetes autoritários e que não respeita o jogo democrático. É só ler a coluna de Clóvis Rossi (Folha) de hoje para se ter a dimensão do tamanho da bobagem que o Prefeito cometeu.

Até aí, o inferno astral é decorrente dos próprios erros. Mais existe outro fator que independe da ação do Kassab. A cada dia surgem sinais mais do que óbvio que José Serra está migrando para a candidatura de Geraldo Alckmin, ou ao menos colocando um pé firme nessa canoa. Isto é da lógica do jogo. Para o governador, o essencial é derrotar Marta Suplicy e se o instrumento for a candidatura de Geraldo Alckmim, ele estará nela de malas e bagagem.

Vamos dar um exemplo bem claro do movimento do governador. Quem conhece o PSDB por dentro sabe que, de longa data, Evandro Lossaco é homem de confiança de Serra e que foi o seu representante direto em diversas executivas do Partido, nos planos municipal e estadual. Lossaco acaba de se integrar ao conselho político da candidatura de Geraldo Alckmim. É preciso muita ingenuidade para acreditar que Evandro agiu por conta própria. Aí existe não apenas o dedo de Serra, mas suas duas mãos e seus dois pés.

E até onde a máquina municipal atuará de forma unida na candidatura de Kassab? O próprio prefeito está desconfiado que a coisa não é bem assim e que o vazamento da sua ordem de monitorar o Datafolha foi um ato premeditado de algum subprefeito já comprometido com a candidatura de Alckmin. A teoria da “traição” tem lá sua lógica. Ninguém gosta de ficar no lado perdedor. É previsível que tucanos que embarcaram na canoa de Kassab voltem ao leito natural e passem a apoiar Geraldo Alckmim.

Gilberto Kassab pode superar seu inferno astral. Seria prematuro considerá-lo uma carta fora do baralho. Vem aí o programa eleitoral na televisão, onde ele deposita todas suas fichas para se manter no páreo. Apesar de difícil, não é totalmente impossível que sua candidatura volte a crescer. Mas se o Prefeito continuar a meter os pés pelas mãos, estará acelerando sua queda no precipício.

Para Kassab, recomendamos cabeça-fria e que ele ouça uma música de Paulinho da Viola, aquela que diz: “Faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar.”



Escrito por pitacos às 11h50
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   Pitacadas ( nº 43 29/07/2008 )

 

 

Obama indica nova política internacional

 

A principal crítica que John McCain, o candidato republicano, faz a Barack Obama é sua inexperiência internacional.

 

Essa crítica carece de fundamento. Um candidato tem, verdadeiramente, experiência internacional apenas se já for presidente ou tiver sido secretário de estado. Fora desses dois cargos, qualquer postulante à Casa Branca que venha de um governo estadual ou do senado poderia receber a mesma crítica.

 

A crítica, no entanto, pegou. Na verdade McCain queria atingir a falta de experiência administrativa.

 

Não adiantou o candidato democrata responder que experiência internacional quem tem é o seu partido. E também seus assessores.

 

Numa jogada arriscada, Obama respondeu com seu périplo internacional.

 

No Iraque, defendeu a retirada das tropas americanas e da aliança ocidental em até dezesseis meses, junto com o reforço das tropas iraquianas, exército e polícia, para o combate aos terroristas sunitas.

 

Numa posição que surpreendeu os americanos, propôs o reforço em larga escala das tropas americanas no Afeganistão, que considera ser o centro do terrorismo islâmico fundamentalista internacional.

 

Em Israel, garantiu a continuidade do guarda-chuva americano para proteger o aliado histórico. Defendeu, porém, com ênfase, a pacificação da região, a partir da constituição de um Estado Palestino. Trata-se de uma inflexão na política americana para a região. O Estado Palestino não está condicionado ao reconhecimento de Israel pelos Estados Árabes e foi colocado no mesmo patamar da proteção de Israel.

 

Ainda em Israel, Obama propôs o estabelecimento de negociações com o Irã. Aqui não estamos falando de um pequeno detalhe. Obama não ameaçou os aiatolás com seus caças, bombardeiros e mísseis.

 

Na Europa, Obama apresentou compromissos pela paz, pela defesa do meio-ambiente e da luta contra o terror. O ápice foi seu discurso em Berlim, para 200 mil pessoas.

 

A crítica a Obama agora se centraliza em seus pronunciamentos genéricos.

 

Dessa vez não está pegando. No processo eleitoral nenhum candidato tem como detalhar suas propostas, pois está em busca de alianças, as mais amplas que puder construir.

 

Influenciada pelo périplo mundial de Obama, suas intenções de voto superam às do oponente em 9%.

 

Nada desprezível.

 

 

Bois renitentes

 

O confisco do gado criado ilegalmente na Amazônia é uma medida correta, se realizado com a finalidade de implantar a política governamental de regularizar a pecuária na Amazônia.

 

O performático ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) denominou os confiscos de “Operação boi pirata” e buscou atrair o foco da mídia para a pirotecnia das grandes ações de caça aos “bandidos”.

 

Foram confiscados 3 mil cabeças de gado, para ir a leilão. O dinheiro arrecadado destina-se ao Programa Fome Zero.

 

Dois leilões foram realizados, com o preço reduzido em até 60%. Nem uma cabeça de gado foi vendida.

 

Quando faltava uma hora para a realização do terceiro leilão, o desembargador Olinto Herculano de Menezes, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, determinou que o preço mínimo não poderia ser menor do que o preço de mercado, R$ 3.151.530,35.

 

É desnecessário questionar-se o valor estabelecido pela Justiça. Se é no mínimo o de mercado, por qual razão algum pecuarista compraria o gado do governo, se poderia adquirir de qualquer um?

 

Deixemos para lá os meandros da burocracia, de suas planilhas e calculadoras.

 

O que está por trás dos leilões zero é uma quebra de braço entre o governo e os pecuaristas.

 

O agronegócio legal e ilegal, sobretudo este, quer levar o governo à derrota e à desmoralização.

 

O governo meteu os pés pelas mãos. A repressão ao gado ilegal poderia ter gradações, com o intuito de trazer os pecuaristas para a legalidade. O confisco dos animais deveria ser a última alternativa.

 

E mais. A queda de braço não poderia se realizar debaixo dos holofotes.

 

Os pecuaristas combatem com o boicote articulado ao leilão.

 

O surrealismo da Justiça Federal não se sustenta.

 

Ao aloprado ministro Minc (Meio Ambiente) restaria a mudança de postura para a discrição e a negociação. Não existe DNA que resista a ordens de cima, espera-se.

 

Em junho o ministro arrotou já ter confiscado 12 cabeças de gados, incluindo as atuais 3 mil.

 

O governo não consegue vender 3 mil cabeças. E as 8 mil restantes?

 

Carlos Minc consegue a proeza de desmoralizar uma proposta correta do governo a que serve.



Escrito por pitacos às 16h09
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   "Currais armados"



O tráfico e as milícias de para-militares resolveram se apropriar da política no Rio de Janeiro. As favelas e os morros cariocas viraram uma espécie de “currais eleitorais” armados, nos quais os candidatos - majoritários e proporcionais – não têm acesso, ou para tê-lo necessitam da autorização dos chefões do banditismo.

O salto das milícias e do tráfico para a política é altamente preocupante e dilacera o Estado de Direito Democrático, naquilo que ele tem de mais sagrado: o direito do eleitor de escolher, livremente, seus representantes. No Rio de Janeiro não é assim. Uma candidata a vereadora, por exemplo, teve que recorrer a Justiça para fazer campanha eleitoral na Rocinha com proteção policial. A que ponto chegamos!

Pois é, nesta favela, a maior do país, os traficantes divulgaram uma carta onde informam que outros candidatos estão proibidos de fazerem campanha eleitoral e determinando que a população local deve votar no candidato da “comunidade”, um tal de Claudinho da Academia, que responde a 14 ações penais na Justiça. Ou seja, o banditismo quer ter a sua representação política direta e teremos em breve, ao menos no poder local, uma bancada do crime.

Aliás, tudo indica que ela já existe. Recentemente foi preso um deputado estadual do DEM, acusado de ser um dos chefões de uma das milícias, intitulada de “Liga da Justiça”. Não é um caso único, Um vereador do PMDB também foi preso, acusado do mesmo crime. E há a suspeita que um deputado estadual do PT, o policial civil Jorge Babu seja o chefe da milícia da Favela da Foice. Como se vê, as milícias no Rio de Janeiro são “suprapartidária” e se infiltraram em várias legendas.

O potencial eleitoral das milícias é imenso, pois elas controlam 70 comunidades do Rio de Janeiro. Antigamente esse braço armado dedicava-se apenas a extorquir a população local e a apoiar candidatos de fora, com quem faziam alianças nos períodos eleitorais. Agora eles querem ter seus representantes diretos, no que diz respeito à Câmara de Vereadores. Ainda não tiveram a ousadia de disputar o Poder Executivo. Mas algum dia chegam lá, se não houver a ação drástica do aparato repressivo do Estado.

Como não quer ficar para trás, o narcotráfico começou a copiar a as milícias e também está lançando seus candidatos.

Tudo isto deforma e distorce o pleito eleitoral no Rio de Janeiro. Inclusive na eleição majoritária. O candidato a prefeito que não estabelecer algum pacto com o banditismo, não sobe o morro. E existem aqueles que estabelecem algum grau de aliança, como indica o episódio do morro da Vila do Cruzeiro, onde o candidato a Prefeito conseguiu fazer campanha sem ser incomodado.

Não se trata de um mero problema local e a incursão eleitoral das milícias e do narcotráfico não podem ser subestimadas. Não entendemos até agora porque o ministro da Justiça, não se pronunciou e não mobilizou a Polícia Federal para por um fim nos currais eleitorais armados.

Nunca é demais relembrar a experiência da Colômbia. Num passado não muito distante, tantos as organizações para-militares de direita como o narcotráfico tinham uma expressiva presença no parlamento colombiano e, em certo sentido, ditavam a política daquele país. Basta citar que até hoje cerca de 30 deputados da Colômbia respondem a processos por seu envolvimento com os para-militares.

Ainda estamos distante disto e dificilmente o banditismo brasileiro terá força suficiente para ter a mesma força. Mas não se deve subestimá-lo. Se não houver a desarticulação da ação política do banditismo no Rio de Janeiro, sua experiência pode ser imitada pelo crime organizado de outros Estados.

As autoridades brasileiras devem refletir seriamente sobre a advertência do desembargador Marcus Faver, presidente do Conselho executivo do Colégio Permanente de Presidentes dos Tribunais de Justiça. Disse o desembargador:

Estamos assistindo, de maneira perplexa, a grupos marginais que obtêm resultados nas eleições, indicando para nossas casas legislativas integrantes das próprias organizações criminosas. E preciso uma reação forte e consciente porque isto está deturpando o sistema eleitoral.”

Se não houver uma reação da sociedade e do Estado, esta prática se generalizará. Com a palavra o presidente Lula a quem cabe a maior responsabilidade pela preservação do Estado de Direito Democrático.



Escrito por pitacos às 10h04
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