Temos o maior respeito por Ingrid Betancourt. Pelo seu calvário e martírio. Admiramos sua coragem e altivez, assim como a justeza da maioria de suas declarações políticas quando finalmente ficou livre do cativeiro.
Mas com todas essas ressalvas, não concordamos com a sua afirmação, ao indagar “se o povo quer, qual o problema?”. A pergunta veio na direção da defesa de um terceiro mandato para o presidente Uribe.
Achamos que há graves e sérios problemas. Não só para a democracia colombiana, mas para a América do Sul, onde diversos países enfrentaram, ou enfrentam, incursões continuístas que podem transbordar em autoritarismo ou ditadura pura e simples.
Em todos esses episódios, foi utilizado o argumento de que “o povo quer”. Foi com este pretexto que Chavez convocou o plebiscito para que ele pudesse se reeleger eternamente. O mesmo argumento é utilizado pelos defensores de Evo Morales, que querem alterar a regra do jogo em seu país. E aqui no Brasil, o deputado Devanir Ribeiro, um defensor do terceiro mandato para Lula, também perguntou: se o povo quer, qual o problema?
Talvez a maior virtude da democracia seja a rotatividade do poder, acompanhada de regras permanentes, que não podem ser alteradas em função da popularidade do presidente do momento. Esta regra deve ser universal e valer para todos os países de ordenamento democrático. Casuísmo é alterar as leis em função de situações eventuais. Não deve a popularidade de A ou de B ser critério de alterações constitucionais, sejam quais forem.
Alterações constitucionais, se necessárias, devem obedecer ao critério da impessoalidade. No caso de reeleição, devem valer para os próximos mandatos, jamais para o atual.
No caso da Colômbia, o que há de ter continuidade é a política de combate sem trégua ao narcoterrorismo das FARC, até que ele faça sua rendição incondicional. Ou seja, que esta passe a ser uma política de Estado, independentemente de quem seja o futuro presidente do país. Aqui concordamos com Ingrid. Não há mais o que falar em um “acordo humanitário” com a narcoguerrilha, ou de uma “conciliação” entre as partes, como desastradamente pregou a nota oficial do governo brasileiro.
É possível manter esta política sem violentar a regra da rotatividade do poder e estabilidade das regras sucessórias, tão caras à democracia. Se seguir este caminho, Uribe entrará para a história como o Estadista que contribuiu decisivamente para livrar a América do Sul da narcoguerrilha. E até por ainda ser novo, poderá voltar ao poder mais para frente, desde que a regrinha básica da rotatividade seja respeitada.
Não se pode ter dois pesos e duas medidas. Ser contrário ao continuísmo de Chavez e de Evo Morales e ser favorável no caso de Uribe. A democracia não comporta a relatividade.
Temos posições muito claras no caso da Colômbia: o governo de Uribe é um governo democrático, legitimamente eleito. As FARC não passam de um agrupamento de puro banditismo e terrorismo. Por isto mesmo nos sentimos confortáveis na posição que assumimos de condenar o terceiro mandato para Uribe.
A questão Uribe não é apenas interna da Colômbia, mas é pertinente a toda a América Latina. A estabilização das democracias e sua radicalização são condições necessárias para a erradicação das chagas sociais de nossos países. O Chile está aí para não nos desmentir. As ditaduras e governos populistas já demonstraram, à exaustão, que apenas perpetuam a exclusão social, ainda que pontualmente obtenham êxitos.
Entendemos as razões que levaram Ingrid a defender a alteração das regras do jogo para favorecer o atual presidente da Colômbia. É compreensível que ela esteja eternamente grata a Uribe, por lhe dever a vida e sua integridade física. Muitas pessoas sérias que passassem pelo mesmo calvário tomariam posição idêntica, ao menos em um primeiro momento. A ex-senadora ainda vive a euforia de seu resgate, do reencontro com as pessoas que ama e do carinho dos que participaram, de uma forma ou de outra, da luta pela sua vida em liberdade.
Acima dos sentimentos de gratidão deve se impor a defesa inarredável da democracia, sobretudo em um continente onde ela é frágil. Um terceiro mandato de Uribe é um precedente perigosíssimo. Ai de nós se ele for seguido por outros mandatários de vocação autoritária e populista.
Ingrid nos desculpe. Dados os descontos, seu pronunciamento atentou contra a democracia que a libertou.
O espetacular resgate dos reféns deixa Uribe numa situação confortável para tentar levar adiante seu projeto continuísta.
Ele foi eleito em 2002 por expressar o desejo da sociedade colombiana de por fim à política de negociações com as FARC e passar para a política de enfrentamento e aniquilamento do grupo terrorista e narcoguerrilheiro.
Os sucessos que obteve o levaram à reeleição e à continuidade de sua política de tratamento das FARC. Contou, também, o desmantelamento dos grupos paramilitares, de direita, que a princípio combatiam as FARC e na seqüência se envolveram com a criminalidade, sobretudo o narcotráfico.
No segundo mandato, os sucessos no combate às FARC elevaram a popularidade de Uribe aos maiores índices da América Latina.
Neste ínterim, o Judiciário colombiano passou a investigar as suspeitas de compras de voto, no parlamento, para a aprovação da reeleição, ainda em seu primeiro mandato. Confissões de parlamentares deixaram Uribe em maus lençóis. O risco de anulação da eleição passada se tornou real.
Por trás dessa questão legal, evidentemente move-se o jogo entre as diferentes forças políticas da Colômbia.
Uribe, de centro-direita, enfrenta um conjunto articulado de oposições, inclusive de centro-esquerda, com muita força nas grandes cidades. Não será um passeio derrotá-las.
O presidente apresentou ao Parlamento a proposta de um referendo, que elimina o limite de duas eleições presidenciais consecutivas.
O resgate de Ingrid Betancourt tem tudo para servir aos propósitos continuístas de Uribe, levando inevitavelmente à radicalização do processo político colombiano e à desestabilização da jovem democracia naquele país.
Os Estados Unidos, por sua política pragmática, farão vistas grossas à mutilação da democracia colombiana. O que importa para eles é a continuidade do desmantelamento das FARC e o combate vitorioso ao narcotráfico.
Uribe poderá passar à história como mais um governante que não larga o osso. Ou como um estadista que terá dado uma contribuição fundamental não apenas à Colômbia, mas à democratização e estabilização da América Latina.
Desgraçadamente, a mordida da mosca azul encontra ambiente favorável não apenas nas plagas colombianas.
O resgate teve um significado militar importantíssimo.
Não há mais santuários para a narcoguerrilha. Em março, o ataque e destruição do acampamento de Raul Reyes, no Equador, significou a primeira grande virada no enfrentamento entre as tropas governistas e as FARC.
O resgate segue na mesma direção.
O exército passou a focar os ataques em alvos precisos, utilizando forças especiais, ultra treinadas e municiadas com armamento de última geração.
Claro, o aparato americano está por trás, em todos os níveis que se possa imaginar.
No resgate de Ingrid Betancourt está vindo à tona a participação americana, desde o mapeamento preciso da localização dos cárceres, ao acompanhamento dos helicópteros, passando pelo fornecimento de armamento especial.
Este cenário, para uma guerrilha desgarrada da população, hoje em dia sem qualquer enraizamento na sociedade colombiana, é fatal.
A “lipoaspiração” dos efetivos das FARC, as deserções e o aniquilamento de lideranças não são gratuitos.
A narcoguerrilha ainda tem sobrevida, como tal. No médio e longo prazos, a continuidade da estratégia militar é suicida.
O governo brasileiro expressa posições insustentáveis sobre o conflito colombiano.
Marco Aurélio Garcia, o assessor internacional da presidência, posicionou-se sempre pela neutralidade no conflito entre governo e narcoguerrilha na Colômbia. Fez silêncio completo sobre as características terrorista e narcotraficante das FARC.
Ele fez parte da farsa da chamada “Operação Emanuel”, patrocinada por Hugo Chavez, que resgataria os principais reféns, colocados pelas FARC nas mãos do presidente venezuelano. Fez coro com aqueles que propugnavam o “humanitarismo” das FARC.
Quando as forças especiais colombianas incursionaram no Equador e aniquilaram o acampamento de Raul Reyes, e também o próprio, o governo brasileiro condenou veementemente a Colômbia, mas não disse uma palavra sobre o guarda-chuva equatoriano para as atividades de fronteira das FARC. Publicamente comprou a desculpa esparrada de Rafael Correa, presidente do Equador, sobre a “porosidade” das fronteiras comuns.
Ontem nossa diplomacia soltou uma nota dúbia. Parabenizou a libertação dos reféns (poderia ser diferente?) e falou numa tal “conciliação” dos colombianos. Na prática admitiu que duas forças legítimas se combatem e que podem chegar a um “acordo”.
Nem uma palavra de condenação à narcoguerrilha terrorista. Nem uma exigência de libertação unilateral e imediata dos reféns. Nem uma palavra exigindo a rendição incondicional das FARC.
A nota do governo brasileiro reflete o conflito interno no governo brasileiro. Aliás, isto não se restringe exclusivamente à questão colombiana. A respeito de qualquer coisa, sempre há pelo menos duas posições no lulopetismo.
O espaço se restringe, a cada dia, para a dubiedade. O atraso na tomada de posições claras tem como conseqüência a irrelevância do Brasil na solução do conflito colombiano.
É bom Lula tirar todas as lições da pesquisa do IBOPE sobre o estado de ânimo dos brasileiros. Quanto à popularidade do governo e de sua imagem, não há nenhuma novidade, pois elas são produtos dos tempos de vacas gordas na economia, que podem estar terminando.
O novo é o que o bolso começa a falar mais alto e os brasileiros emitiram sinais claros que estão altamente preocupados com o retorno da inflação e todas as suas consequências, sejam elas o desemprego ou a diminuição do poder aquisitivo.
É um fenômeno recente, que ainda não afetou a avaliação do governo Lula e dificilmente terá reflexo na disputa eleitoral deste ano. Mas nada assegura que não o atingirá mais para a frente, sobretudo se o processo inflacionário fugir do seu controle. O recado que vem do IBOPE é claro: se não tomar cuidado, Lula não chegará em 2010 no auge da glória e enfrentará dificuldades para fazer seu sucessor.
De uma forma ou de outra, sua imagem será afetada. Na melhor das hipóteses, será arranhada por ter que adotar medidas duras para conter a escalada inflacionária. Elas são necessárias, mas não dão dividendos em matéria de popularidade. Aumento de juros, restrição ao crédito e o corte dos gastos públicos levam, necessariamente, à uma diminuição do ritmo de crescimento e, portanto, à uma geração menor de empregos.
Mas não há outra receita para evitar o mal maior: uma inflação descontrolada que pode levar abaixo todas a estabilidade econômica obtida nos últimos anos. Neste caso, Lula poderia viver uma situação similar à de Cristina Kirchner, que em seis meses viu sua popularidade despencar 30% em função do descontrole inflacionário. Ainda estamos longe disto, é claro, e não necessariamente ocorrerá o mesmo. Mas há o risco real.
Dito de outra forma: não há poder de macumba que sustente o nível altíssimo da popularidade de Lula se houver deterioração econômica. Gilberto Carvalho disse uma frase extremamente feliz ao explicar o alto grau de aprovação do Presidente: “ 90% vem do sucesso econômico e 10% do seu carisma”. A inflação, é portanto, o grande desafio do governo Lula.
O pepino é que o dragão inflacionário começa a fazer estragos razoáveis. Em junho, nenhuma aplicação financeira foi maior do que a inflação e o mercado financeiro foi o que mais perdeu. Só a Bovespa teve uma queda de 10,43%. A poupança da classe média começa a ser atingida e todos sabem como fica o seu humor quando suas economias são atingidas. E as camadas de menor poder aquisitivo são as mais afetadas pela a alta dos alimentos. São estes fatores que justificam a onda de pessimismo que apareceu na pesquisa do IBOPE.
Lá fora o mar também não está para peixe. O relatório anual do Banco de Compensações Internacionais – uma espécie de Banco Central em escala planetária - diz que a economia mundial marcha para um ponto crítico, em função da associação de dois fatores: a inflação e a desaceleração econômica. Ou seja, Lula terá que domar a inflação em uma conjuntura internacional adversa.
Claro que a popularidade de Lula se sustenta ainda em outra bóia: o sucesso dos programas sociais, particularmente o “Bolsa-Família”.Mas, para que este programa continue a gerar dividendos políticos, é essencial manter seu poder de compra, o que implica em aumento dos gastos do governo e em nova ameaça inflacionária.
O IBOPE acendeu o sinal amarelo. Resta conferir se Lula entendeu o recado dado pelos brasileiros, que foi muito simples: domine a inflação, antes que ela esvazie os nossos bolsos.
Marta Suplicy conseguiu superar os obstáculos inciais de sua candidatura. Vem forte, ninguém se iluda. Ela lidera, ainda que em situação de empate técnico com Alckmin, as intenções de voto.
A petista saiu do isolamento ao selar a aliança com o bloquinho. Será a candidata com o segundo maior tempo na propaganda televisiva. Terá tempo suficiente, mais do que sete minutos, para passar sua imagem.
Neste terreno, está praticamente empatada com Kassab, pois a diferença de tempo não será substantiva. Aliás, neste particular nem Geraldo está em situação ruim, pois os seis minutos que terá serão suficientes para fazer um bom programa.
A balança começa a pesar para o lado de Marta a partir do que ela definiu como o centro de sua estratégia: colar na imagem de Lula. Os motes já estão dados: “Marta lá” e “Deixa ela trabalhar”. A essência de sua estratégia será, portanto, a nacionalização da disputa da prefeitura de São Paulo.
Este é um fator que não se pode subestimar, ainda que não seja possível detectar inteiramente o quanto Lula conseguirá transferir sua popularidade para os seus aliados. O fato é que em São Paulo ele fará de tudo para que a transferência ocorra, em larga escala.
Lula e o governo federal estão muito bem avaliados pela população, em situação bem mais confortável do que as disputas de 2004 e 2006. Na última disputa municipal, Marta tentou ligar-se ao máximo à imagem de Lula. Não deu certo e perdeu a eleição, assim como Lula perdeu para Geraldo em 2006.
Mas hoje a conjuntura é outra. A nacionalização da eleição municipal pode levar a petista a superar seus limites históricos nas intenções e nos votos. Lula já anunciou que se envolverá diretamente na disputa paulistana. Cabe lembrar que o PT sempre se situou na faixa de 35%/38% das intenções de voto e nos votos finais.
Percebendo este risco, Geraldo Alckmin definiu centrar fogo nos problemas locais. Para ele, a nacionalização da disputa municipal é altamente desvantajosa, assim como o é para Kassab.
Outro fator também irá favorecer Marta Suplicy. Após a crise do mensalão, o Partido dos Trabalhadores recuperou a sua imagem. Pesquisa do Vox Populi indica que 56% dos brasileiros consideram sua ação política como positiva e é a legenda escolhida por 25% dos brasileiros que têm opção partidária. Para se ter uma idéia de sua recuperação, basta citar que a segunda legenda é o PMDB, com 7%.
Claro que a recuperação do PT se deu com a manutenção da mesma política de assalto à máquina do Estado e sem que ele tenha feito autocrítica dos escândalos que patrocinou. Para o aprofundamento da democracia, isto é péssimo. Mas é ótimo para o embate eleitoral da ótica situacionista. A ex-prefeita se aproveitará disso.
Marta vem forte, mas não quer dizer que não tenha problemas a serem enfrentados e que já possa ser considerada como vitoriosa. A soma das intenções de voto de Geraldo e Kassab é superior aos que ela tem. A petista tem alto índice de rejeição. As camadas médias não morrem de amores por ela. Isto explica, em boa medida, o seu discurso de que diminuirá impostos e que não reproduzirá erros que cometeu como prefeita.
Em certa medida, o peso da popularidade de Lula poderá ser contrabalançado pela boa avaliação dos governos estaduais e municipais. Os beneficiários desta situação serão Geraldo e Kassab. Em um segundo turno, eles estarão juntos. Aí é que reside o perigo para Marta. Ela pode nadar, nadar e morrer na praia.
O fato é que teremos a nacionalização das eleições de São Paulo, o que é uma faca de dois gumes para o lulopetismo.
De um lado, favorece a candidatura de Marta Suplicy. Dá-lhe um gás que ela não tinha inteiramente nas eleições passadas.
Por outro lado, expõe o lulopetismo a uma derrota que terá reflexos importantes nas eleições de 2010.