Educação: a experiência chilena
Interessantíssima a entrevista do filósofo e educador chileno Juan Garcia Hidobro ao Estado de São Paulo. Ele foi um dos comandantes da segunda etapa da revolução educacional do Chile, implementada nos anos 90.
O sucesso desta revolução pode ser aferido pelos resultados do último exame internacional do PISA, que avalia o desempenho de jovens e adolescentes. O ensino básico do Chile foi o melhor rankeado da América Latina e se aproximou dos países médios da Comunidade Européia. Outros dados positivos: o ensino fundamental está plenamente universalizado e 90% dos alunos em idade do ensino médio estão nas escolas. E 90% das escolas públicas do Chile são informatizadas.
Tudo isto só foi alcançado por uma razão muito simples: claramente foi definida que a prioridade era a educação básica e o estado voltou a investir pesadamente, após o fracasso da política liberalizante do período Pinochet, onde imperou a política de acreditar que o mercado regularia a educação ao promover a competição entre a rede privada de ensino e a rede pública. Neste período, o estado pagava às escolas particulares um valor por aluno matriculado. Isto só aumentou o fosso entre as duas redes.
Como acontece no Brasil, na segunda etapa da revolução educacional do Chile existia a crença ingênua de que bastava aumentar os salários dos professores para que a melhoria da qualidade da educação viesse automoticamente. Cedo, as autoridades educacionais perceberam que as coisas não ocorrem assim e passaram a investir pesado na formação dos professores, sem abrir mão do incremento salarial, adotando ao mesmo tempo um forte sistema de avaliação do ensino básico, que passou a ser de tempo integral. Ou seja, os resultados passaram a ser aferidos e agora é possível identificar as piores escolas para as quais o estado deve voltar os seus esforços.
Isto não quer dizer que desapareceram as desigualdades no sistema educacional chileno. O próprio Juan Garcia alertou, em sua entrevista, que a despeito do resultado do PISA, os estudantes pobres ainda tem um ensino pior do que o ministrado a alunos mais ricos. Mas é inegável que ocorreram melhorias substantivas e que o fosso foi diminuído.
No começo do governo de Michele Bachelett, os estudantes secundaristas voltaram às ruas, exigindo novos investimentos que levem à melhoria da qualidade do ensino básico, para que a prioridade adotada seja efetivada. Não houve uma contestação à política educacional como um todo, mas apenas a exigência de que seja dada a radicalidade necessária.
Os chilenos tiveram que fazer uma opção dramática, diante da escassez de recursos. No início década de 80, também no período Pinochet, as universidades públicas deixaram de ser gratuitas e o governo passou a dar uma bolsa de estudo para os alunos pobres. Quando chegou ao poder, já na democracia, a esquerda manteve tal política e hoje ninguém a contesta. Vale a pena reproduzir as palavras de Juan Hidobro:
“ Na época, fui contra ( a cobrança nas universidades públicas) mas hoje estou de acordo. Foi uma decisão de enxergar que não tínhamos recursos para tudo e de decidir investir todos os recursos na educação básica. Não é um mau sistema, é uma maneira de tornar mais justo algo que no Brasil é bastante complexo. Vemos que vocês tem um gasto muito alto com as universidades públicas e que, ainda, quem as frequenta são os mais ricos. Nesse ponto de vista, o sistema chileno é mais justo. Aumentou o orçamento do ensino básico, mas permite que os pobres tenham também acesso à universidade e que os ricos paguem por ela. Não há um questionamento radical ao sistema, de querer voltar ao que era antes.”
Eis aí uma experiência a ser refletida pelos que propugnam uma melhoria da qualidade educacional brasileira. Até onde é possível dar prioridade à educação básica e ao mesmo tempo manter um sistema universitário que privilegia os ricos? Para desgraça nossa, o corporativismo recusa-se ao debate deste tema e faz da gratuidade das universidades públicas um verdadeiro tabu. Sem mexer nesta casa-mata do atraso, dificilmente completaremos a revolução educacional brasileira.
Escrito por pitacos às 11h53
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