Pitacos: política brasileira em foco
   A onda passou?

 

A semana não foi boa para os defensores do continuísmo e tudo indica que eles cometeram um erro estratégico ao trazer à baila, antes do tempo, o tema do terceiro mandato. Certamente terão que fazer um recuo tático. O que não quer dizer que a onda tenha passado e que ela não volte mais para frente, se a conjuntura for mais propícia.

Lula percebeu o açodamento de seus companheiros e tratou rapidamente de não se comprometer com a idéia. É compreensível. Hoje, a proposta do terceiro mandato mais divide do que agrega e provoca fissuras nas próprias fileiras do Partido dos Trabalhadores, para não falar dos demais partidos da base aliada. De quebra, o tema pode dificultar a administração da unidade dos governistas na sua tarefa de dar sustentação parlamentar no dia a dia do Congresso Nacional.

Por enquanto, a proposta do terceiro mandato, ou qualquer outro tipo de continuísmo, foi para o armário. Mas ela não deixou de ser o plano B do Lulopetismo se de fato não existir outro caminho para a sua continuidade do poder. O dilema continua. Não há no PT um candidato com robustez suficiente para se eleger sucessor de Lula. É por isto que a tese do continuísmo não está inteiramente descartada.

Uma coisa é a existência do plano B. Outra coisa é se ele será levado à prática ou se alcançará sucesso. Um indicativo das dificuldades está presente na pesquisa realizada pela Folha de são Paulo, onde dos 67 senadores entrevistados, 65 se manifestaram contrários ao terceiro mandato. Ainda que alguns deles mudem de posição mais para frente, dificilmente haverá nesta Casa uma correlação de forças que possibilite a aprovação de uma Emenda Constitucional que altere as regras da sucessão presidencial. É bom lembrar que a oposição tem uma força nada desprezível no Senado.

Lula põe as suas barbas de molho quanto ao sucesso desta empreitada. Avalia ele que teria que pagar um preço altíssimo para conseguir a maioria de terços no Congresso Nacional e que enfrentaria fortes resistências dos setores organizados da sociedade, particularmente das camadas médias. De quebra, poderia comprometer os dois últimos anos do seu mandato. Diante de tais riscos, ele pode optar por se preservar para 2014, ou 2015, quando voltaria ao poder nos “braços do povo.”

Há outro fator a complicar a onda continuísta. Ela é totalmente inviável sem o envolvimento massivo dos peemedebistas. O PMDB começa a namorar seriamente a alternativa Aécio Neves, seja ele candidato pelo PSDB ou, no limite, pelo próprio PMDB. Aqui estamos diante da profecia do governador mineiro: “ a expectativa do poder atrai mais do que o próprio poder.” Se isto for verdadeiro, é previsível que partidos satélites do lulopetismo ( PP, PR e PTB) façam um movimento similar após a eleição municipal.

Se concretizado, tal movimento será a pá de cal do terceiro mandato.

O que é possível afirmar hoje é que a onda continuista não acabou. Mas perdeu força e mesmo que volte no futuro, dificilmente emplacará.



Escrito por pitacos às 11h15
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   Pitacadas ( nº32 10/04/2008 )

 

A apoteose do ridículo

Em matéria de ridículo, a CPMI dos Cartões Corporativos chegou à sua apoteose. Aquilo que era para ser o depoimento de uma ex-ministra sobre a qual pairam suspeitas de uso indevido dos cartões, virou um ato de desagravo à depoente, Matilde Ribeiro, graças à ação da tropa de choque governista. Claro que contribuiu para o espetáculo circense o fato de as oposições terem jogado a toalha por acreditarem que deste mato não sai coelho e que é melhor concentrar seu fogo na CPI do Senado. Não sabemos se esta é a melhor tática, pois o abstencionismo nunca produz bons resultados e pode facilitar a tarefa do inimigo. E nada assegura que o espetáculo circense não se reproduzirá no Senado. Restará ás oposições levar os requerimentos ao plenário da Casa, apenas para tentar desgastar mais o governo. No caso do depoimento de Matilde, chama a atenção a desculpa que ela deu. Confundiu o seu cartão corporativo com o seu cartão pessoal,que seria da mesma cor e bandeira do corporativo. Vejam que coincidência. Esta foi a mesma desculpa dada pelo ministro Orlando Silva, dos Esportes, para justificar a compra da tapioca. Interessante, os ministros nunca se confundem quando é o inverso: pagar uma despesa do governo com o seu cartão pessoal. Mas deixemos isto para lá. O mais grave é a pantomima montada na CPMI parece não ter fim e na semana que vem os governistas preparam mais um ato. Vão convocar o ex-ministro Raul Jungmann e pretendem se dedicar a escarafunchar os gastos com a conta B do governo Fernando Henrique. Dá para sentir qual vai ser o desfecho desta CPMI:condenará o governo FHC e dirá que Lula é um baita republicano na utilização dos cartões corporativos. Haja ridículo!

O que fazer?

Não dá para criticar muito as oposições quanto ao seu comportamento nesta história dos cartões corporativos, embora aqui e ali possam ter cometido algum escorregão. O fato é que ela depara-se com um fato que não existiu no primeiro mandato de Lula. A unidade da base governista está soldada, graças ao loteamento da máquina pública e à montagem do condomínio PMDB-PT. Fortalecido pela sua popularidade e pelo bom momento da economia, Lula tem dado ordens para o endurecimento do jogo, o que leva a que dificilmente se reproduzirá a derrota que ele sofreu na prorrogação da CPMI. Em tais circunstâncias, não existe outra alternativa para a oposição a não ser esticar a corda, muito embora isto represente malhar em ferro frio porque nada afeta a imagem presidencial. A grande interrogação é se a unidade governista continuará a mesma quando estiver mais próxima a sucessão presidencial. Aí pode ocorrer a previsão de Aécio Neves: “ a expectativa de poder atrai mais do que o próprio poder.” Enquanto isto não acontece, fica a pergunta: O que fazer?

Raposa do Sol

A criação da reserva Raposa do Sol foi um assassinato cometido sob o comando do então ministro da Justiça Márcio Thomaz de Bastos. De forma irresponsável, fez-se concessões ao CIMI e outras ONGs, que põe em risco a soberania do país sobre parte do seu território. E isto numa região fronteiriça e sensível como é a Calha Norte. Pasmem, o território que ficará com os índios é maior do que o que ficará com o estado de Roraima! Reproduz-se aí a mesma sandice das quilombolas, onde a pretexto de se reparar uma injustiça histórica, comete-se barbaridades. Não gostamos muito quando militares vem a público para dar declarações políticas. Mas, desta vez, não há como não elogiar o comandante do Exército na Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro, que fez duras críticas à política indigenista do governo Lula, mostrando que ela pode levar ao desaparecimento do estado de Roraima e que está na contra mão da sociedade,”conduzida á luz de pessoas e ONGs estrangeiras.” é bom lembrar que a Casa Militar da presidência da República deu parecer contrário à criação de uma reserva que desse terras contínuas aos Iaonomani. Este também foi o veredicto de uma comissão de parlamentares, da qual foi relator o petista e então deputado federal Lindemberg Farias. Contra todas as vozes do bom senso, o governo criou uma reserva contínua e gerou uma crise em Roraima para a qual não se vislumbra uma saída.

Me engana que eu gosto

Dá para acreditar nas palavras de Lula de que abandonará o Partido dos Trabalhadores se ele insistir nesta história do terceiro mandato? Me engana, que eu gosto. E ainda vem o governador de Pernambuco dizer que o bombardeio às incursões continuísta foi comandado por Lula. No máximo, ele pode ter dado uma ordem para que o assunto não vem á baila antes do tempo. Lá para frente, ele pode ceder às pressões da base se de fato se confirmar que nenhum petista tem condições de se eleger o próximo Presidente da República.



Escrito por pitacos às 10h52
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   Com a palavra, a Polícia Federal

 
Um nome a zelar. 

A Polícia Federal está diante de um desafio: confirmar seu caráter republicano - fortalecido em diversas operações bem sucedidas - ou submeter-se aos intentos do governo e se transformar em uma polícia política, ao limitar as investigações apenas ao vazamento do dossiê montado no Palácio do Planalto para chantagear as oposições.

Não estamos diante de um jogo de carta marcadas. Nada assegura que o governo Lula conseguirá aparelhar a Polícia Federal, assim como vem instrumentalizando diversas instituições da República. A mão presidencial é pesada, é verdade. Mas ela não pode tudo.

Contra os intentos do governo, pesa um fator fundamental. Instaurado o inquérito, o delegado responsável, Sérgio Menezes, tem autonomia funcional. Nem mesmo o seu superior hierárquico, o diretor da PF, pode meter o bedelho. Ao menos oficialmente ou de forma aberta. Ou seja, se o responsável pelo inquérito quiser ir a fundo, não há poder de macumba que impeça o aprofundamento das investigações.

Deste ponto de vista, é alentador o recado cifrado mandado pelo delegado Menezes, segundo o qual identificado o responsável pelo vazamento, seu passo seguinte será querer saber “quem fez o dossiê, por que ele foi divulgado, a mando de quem e com finalidade.” É tudo que o Palácio do Planalto teme, pois por este caminho aparecerão suas impressões digitais.

Talvez esteja aí uma das explicações sobre o porquê da demora do governo em apelar para uma investigação sob o comando da Polícia Federal. Só fez isto como último recurso, após o malogro da entrevista de Dilma Roussef na qual ela meteu os pés pelas mãos e parecia mais a Zélia Cardoso do Plano Collor. Mais do que ninguém, Lula sabe que as investigações da Polícia Federal se assemelham às CPIs. Sabe-se como elas começam, mas não se sabe como elas terminam.

Há ainda outro fator com potência suficiente para tirar o sono do Palácio do Planalto. É possível que a exemplo de outros inquéritos, o do dossiê contra Fernando Henrique também seja acompanhada pelo Ministério Público. É imaginável que algum procurador da República faça vistas grossas e deixe investigar um crime conexo com o objeto da investigação? E mesmo que ele não seja acionado já no início, haverá o momento que terá que se pronunciar sobre o inquérito. Nesta hora, ele pode solicitar novas diligencias para elucidação total do crime.

Ao longo dos últimos anos, a Polícia Federal conquistou respeitabilidade perante a opinião pública, em função de sua atuação republicana e soberana em diversos episódios. É verdade que deixou a desejar no episódio Waldomiro Diniz e não conseguiu esclarecer a origem do dinheiro do “dossiêgate” montado contra as candidaturas de Serra e Alckmin. Mas essencialmente tem tido um comportamento positivo e soma ao seu favor seu desempenho no caso da quebra do sigilo da caseiro Francenildo, onde apontou o crime cometido e denunciou as autoridades envolvidas.

No auge do nazismo, um juiz teve a coragem de dar uma sentença frontalmente contrária aos desejos de Hitler, o que gerou a frase “ Ainda existem juízes em Nuremberg.” Esperamos que a Polícia Federal investigue o atual caso com plena soberania e seja digna de outra afirmação: “ Ainda existe uma polícia republicana no Brasil.”

Com a palavra o delegado Sérgio Menezes e a instituição à qual pertence.



Escrito por pitacos às 10h24
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   IBOPE: sinal amarelo

 

 

Partamos do pressuposto de que a última pesquisa do IBOPE tenha captado com exatidão a realidade das atuais intenções de voto, na cidade de São Paulo. Há diferenças em relação à última pesquisa do Datafolha, talvez explicáveis pelas datas distintas do trabalho de campo e até pela metodologia. O mais importante é que ambas as pesquisas captaram as mesmas tendências. Marta Suplicy cresce. Alckmin cai. Kassab continua estável.

 

Não há surpresa nos avanços da candidata petista. Historicamente seu campo sempre situou-se nos 35%. A diferença hoje é a colagem das duas imagens, de Marta a de Lula, muito favorável à candidatura petista. Pode-se afirmar que a tendência é a de Marta ultrapassar os limites históricos, tanto pela nacionalização da campanha quanto pelas alianças que sua campanha costura. Numa eleição disputada palmo a palmo, até as alianças podem fazer a diferença. Marta Suplicy entra na campanha em condições mais favoráveis do que há 4 anos.

 

A variação negativa de Alckmin traz preocupações. Em todas as simulações anteriores o ex-governador tinha um “recall” expressivo. Há alguns meses, o ex-governador tinha 70% das intenções de voto. Claro, Marta e Kassab não estavam no jogo com a força que estão hoje. Mas esse dado mostra quão positiva era a imagem de Geraldo Alckmin.

 

Sua queda se deve a vários fatores. Primeiro, evidentemente, ao crescimento da candidatura de Marta Suplicy. Em segundo lugar à exposição negativa na imprensa. Sempre que Alckmin aparece, martelam-se as desavenças com Serra e com Kassab. Não há candidatura que resista incólume à exposição negativa. Em terceiro lugar constata-se que Geraldo Alckmin é o único dos três que não está na máquina governamental, situação que reduz a exposição positiva na mídia.

 

A situação do ex-governador tende a melhorar a partir de sua indicação pelo PSDB, ainda que a exposição negativa de que falamos antes continue por algum tempo. A apresentação de propostas, o “recall” de seus governos e as características pessoais do candidato poderão fazer um dique à tendência de queda e revertê-la.

 

Situação preocupante – para os adeptos de sua candidatura – vive Gilberto Kassab. Tem a máquina da prefeitura a seu favor. O Democratas investe pesado na construção de sua imagem. No entanto, ele não sai do patamar de 13%/14%. Contribui para essa estagnação o fato de que o prefeito nunca ter disputado eleições majoritárias. A avaliação positiva do seu governo deve ser relativizada. Seguramente os paulistanos consideram sua gestão como compartilhada com José Serra. Sua “individualidade” como governante municipal não está clara para parcelas importantes dos eleitores. Outra consideração importante é a de que nem sempre a avaliação positiva implica em votos. Marta Suplicy na eleição de 2004 teve a avaliação de seu governo bem superior ao percentual de votos obtidos, pelo menos até a metade da campanha eleitoral.

 

Para a campanha de Geraldo Alckmin o sinal amarelo se acendeu. É preciso definir a candidatura, para reduzir a exposição negativa na mídia. O mais importante é considerar que não há eleitorado cativo, de carteirinha. Também não funciona a lei da gravidade, atraindo o eleitorado para o colo do ex-governador.

 

As eleições de outubro serão mais difíceis do que as de quatro anos atrás. Marta Suplicy tem músculos mais fortes e costas mais largas. A divisão do campo histórico do PSDB/DEM em duas candidaturas cria problemas adicionais, que não são pequenos, cujas conseqüências ainda não são podem ser avaliadas por inteiro. Claro, pode haver administração e acordos para reduzir ao máximo o fogo amigo. Ninguém, no entanto, pode minimizar este problema.

 

A pesquisa do IBOPE não é o dilúvio, o fim do mundo. Mas que acende a luz amarela, acende.



Escrito por pitacos às 09h35
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   FHC: oportunidade perdida

 

 

Publicado no Estadão, 06/04/2008:

 

Oportunidade perdida

 

Preparei este artigo antes de viajar para os Estados Unidos, onde participo, hoje, de uma série de discussões na Universidade de Brown, em comemoração dos 40 anos da primeira edição do livro que fiz com Enzo Faletto sobre Dependência e Desenvolvimento na América Latina. É a minha despedida de Brown, depois de haver sido professor at large (título que requereu curta permanência docente anual) durante cinco anos.

Confesso que não gosto de escrever com tanta antecipação. A natural falta de interesse do leitor de jornal por notícias e mesmo por análises não atualizadas requer temas momentâneos. Temas que, ultimamente, têm sido francamente desanimadores para quem acredita que a política não se limita a uma luta mesquinha pela conquista e preservação do poder. Causa-me repulsa a falta de compromisso com a verdade dos fatos, a desonestidade intelectual e, principalmente, o tratamento cínico dispensado a indícios graves de improbidade na administração pública e a benevolência com que são tratados infratores amigos ou aliados. Como ainda agora no episódio dos cartões corporativos. A insensibilidade do presidente e de seu governo é tanta que pouco se lhes dá a opinião pública. Com a popularidade inflada pelos bons ventos da economia, joga-se irresponsavelmente com a idéia de que a preocupação com a moralidade pública e o respeito à lei é coisa de elite branca que tem tempo para ler jornal.

Quanta diferença com o que se vê hoje nos Estados Unidos. Quem não leu deve ler a íntegra do discurso de Barak Obama A more perfect Union. Nele Obama reconecta a luta política aos melhores valores de uma República que foi fundada com bases em ideais, entre eles o da igualdade. Um ideal sempre imperfeitamente realizado, mas que constitui até hoje o móvel das melhores e mais nobres lutas políticas do povo americano. Obama não se apropria do ideal para utilizá-lo como arma eleitoral e dividir o país. Mostra, assim, a grandeza de sua liderança.

Reproduzo um trecho representativo do sentido de seu discurso. Nele reconhece e critica a agressividade do pastor Jeremiah Wright nos sermões sobre raça proferidos na Igreja da Trindade. Repudia, por outro lado, a crítica que apenas sataniza o pastor e explica: “O erro profundo dos sermões do reverendo Wright não é que ele tenha falado sobre raça em nossa sociedade. É que falou como se nossa sociedade fosse estática, como se nenhum progresso houvesse existido, como se ela ainda estivesse ligada irreversivelmente a um passado trágico. Isso numa nação que tornou possível para um dos membros da congregação disputar o cargo mais elevado de sua terra e de construir uma coalizão entre brancos e negros, latinos e asiáticos, ricos e pobres, jovens e velhos. Mas o que nós sabemos, o que nós vimos, é que a América pode mudar. Este é o verdadeiro espírito desta nação. O que nós já conseguimos nos dá esperança - a audácia da esperança - para fazer o que nós precisamos e devemos fazer amanhã.”

Que diferença! Seria demais esperar que Lula, que também é símbolo de uma sociedade dinâmica em que as forças da mobilidade social contam mais do que a origem, percebesse que o País, para avançar, precisa realizar o muito imperfeitamente realizado ideal da igualdade perante a lei e que a moralidade pública é condição da igualdade republicana, e não preocupação de privilegiados? Não é isso que se deveria esperar do chefe da Nação? O que se vê, porém, é um presidente que não hesita em reviver a velha cantilena dos “dois Brasis”, da elite branca e dos oprimidos, dos maus e dos bons, e não raro justificar as práticas políticas mais atrasadas. Isso num país que o colocou no topo da vida pública e que se caracteriza por ter uma elite composta pelos “brancos da terra”, tisnados com orgulho pelos mais variados sangues, do indígena ao europeu, do negro ao asiático.

Exagero da minha parte? Ou a cantilena dos “dois Brasis” não foi o mote do discurso que Lula fez recentemente em Pernambuco? Para afagar Severino Cavalcanti, chamou-o de vítima do preconceito das elites de São Paulo e do Paraná, que teriam urdido uma trama para seu afastamento da vida pública. Teoria conspiratória risível, se dita por uma pessoa comum. Inaceitável, porém, vindo do presidente da República. Será a prévia do que virá pela frente na campanha eleitoral de 2010?

Que perda de oportunidade histórica! Por que não pensar em Mandela, que saiu de 28 anos de cadeia e falou da necessidade de reconciliação entre negros e brancos na terra do apartheid? Sem negar e repudiar, é claro, a injustiça do racismo. E não se diga que os antecedentes de grandeza só vêm do exterior. Basta lembrar de José Bonifácio, que desde o início do século 19 mostrava que o Brasil, como nação, teria de fundamentar-se na diversidade das raças e no reconhecimento de que os valores da democracia e do Iluminismo não se poderiam circunscrever, como pensava Jefferson, a uma elite restrita, formada por brancos e ricos. Ao contrário, afirmava o Patriarca, se déssemos educação aos negros e aos indígenas, portadores de Razão como todo ser humano, eles se tornariam cidadãos.

Por que, ao invés de passar a mão na cabeça de quanto aloprado exista ao seu lado, de ver amigos em quem se deixa corromper e inimigos em quem honestamente dele diverge, nosso presidente, com todas as credenciais que tem de homem que nasceu no meio do povo mais pobre e venceu, não une os brasileiros em torno do ideal fundador de toda grande República?

Por que, ao invés de congregar e definir valores comuns, se perde em picuinhas e se entusiasma tanto em inaugurar pedras fundamentais de obras que não se constroem? Raramente o País teve conjuntura econômica e mesmo social tão favorável para dar um salto grandioso na construção de uma Nação decente. Não obstante, a oportunidade se está perdendo pela falta de visão de quem lidera.

 

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República



Escrito por pitacos às 11h57
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