Pitacos: política brasileira em foco
   Pitacadas (nº26 - 299/fev/2008)

 

 



FHC, Alckmin, Kassab

No lançamento do livro “Cultura das Transgressões no Brasil – Lições da História”, o ex-presidente declarou ao repórter Guilherme Evelin, da revista Época: “se ele (Alckmin) quiser ser candidato (a prefeito), será. Para vencer as eleições”. A fonte é o blog do Noblat. O giro de FHC já foi notado no encontro dos vereadores do PSDB, quando defendeu a escolha do candidato via ampla consulta às bases. Mais claro, não poderia ter sido. Um bom político não briga com os fatos. O fato é que Alckmin, sem apoio das máquinas estadual e municipal, e sem exposição do PSDB, tem cerca de 30% das intenções de voto para prefeito de São Paulo, 2,5 vezes as intenções de voto de Gilberto Kassab, submetido a farta exposição pelos programas televisivos de seu partido e por estar no comando da prefeitura. E ainda, pelo apoio declarado de José Serra, que já fez uma pequena mudança, dizendo subir nos dois palanques. As eleições da cidade de São Paulo têm se marcado por seu caráter nacional, situação que será repetida em outubro. Qual o pré-candidato com melhores chances de marcar uma contraposição ao lulopetismo e que tem, no momento, a preferência dos eleitores paulistanos? FHC e Pitacos já giraram em direção aos fatos incontestáveis.

 

Paz e amor, coisa do passado

O presidente Lula, em mais um périplo pelos estados, metralha para todos os lados. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio, fez pronunciamentos públicos sobre o programa Territórios da Cidadania. Expôs claramente seu juízo, ao afirmar que o lançamento e execução do programa colidiam com a legislação eleitoral. Lula contra-argumentou: “É preciso perguntar a quem falou essa sandice, se ele quer ser ministro da Suprema Corte ou político. Se quer ser político, renuncie lá e se candidate a um cargo para falar as bobagens que quiser, a hora que quiser, mas não ficar se metendo nas políticas do governo federal”. Concordamos com a afirmação do presidente, afinal, não fazemos oposição sistemática. Um ministro do STF não deve sair por aí e dar entrevistas a torto e a direito. Um juiz só deve se pronunciar nos autos de um processo. E ainda assim, quando for a sua vez. A declaração de Lula é irretocável.

 

Façam o que digo, só faço o que faço

No mesmo périplo, o presidente Lula declarou: “Seria tão bom se o Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas dele, o Legislativo nas coisas dele e o Executivo nas coisas dele. É preciso que a gente reordene as instituições brasileiras para que elas funcionem cada vez mais de forma harmônica”. Concordamos mais uma vez. Sem ficar ruborizado, o presidente defendeu a independência do Legislativo. De onde partiu a derrama do mensalão, para comprar apoio e montar a base aliada? De onde partem centenas de medidas provisórias, a esmagadora maioria não urgente, muito menos relevante, que paralisam e subordinam o Legislativo? De onde parte o jogo para a liberação seletiva das emendas parlamentares, cujo objetivo e a constituição de maiorias eventuais no Congresso? Quem usurpa as funções do outro?

 

FARC: sinuca de bico

O plano das FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, era o de constituir uma zona desmilitarizada, para trocar seqüestrados ilustres por prisioneiros da narcoguerrilha. O governo colombiano endureceu e não quis conversa nestes termos. Para melhorar sua imagem, ligado ao tráfico de cocaína e ao terrorismo, as FARC liberaram alguns reféns, via arranjos com Hugo Chavez. Ingrid Betancourt, candidata à presidência pelo Partido Verde, seqüestrada há seis anos, está muito doente. Se a narcoguerrilha soltá-la, perderá seu principal trunfo para negociar a troca de reféns por narcoguerrilheiros presos. Se não soltar e Ingrid Betancourt morrer, estará numa situação muito difícil, perante a opinião pública colombiana e internacional. Em meio a essas disputas, está a figura humana de Ingrid Betancourt e seu drama pessoal. Torcemos para que seu estado de saúde não se agrave e para que o movimento mundial pela sua libertação seja vitorioso.



Escrito por pitacos às 13h15
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   A ofensiva de Lula

 

Na política, assim com na guerra, não se deve subestimar o adversário e é bom observar seus passos.

Mais do que nunca a regra vale para as oposições. Há sinais evidentes de que Lula e o seus aliados estão mudando a sua forma de fazer política e estão na ofensiva, neste início de ano. Vejamos três movimentos da nova estratégia adotada:

O primeiro dele foi um movimento aparentemente defensivo, a forma como o governo conseguiu sair do canto do ring no caso dos “ cartões corporativos”. Para surpresa de quase todos, Romero Jucá se antecipou e articulou a CPI do Senado, arrastando o período de Fernando Henrique para as investigações. A oposição tentou se contrapor com a proposta da CPMI mista ( Câmara e Senado). O governo topou e Jucá deu um nó no peessedebista Carlos Sampaio, que caiu na armadilha. De quebra, os estrategistas de Lula conseguiram embaralhar as cartas, trazendo para os holofotes o uso dos cartões corporativos do governo de José Serra.

Com toda esta brincadeira, o governo ganhou tempo e o escândalo vai perdendo o seu impacto na sociedade. Mesmo que sejam instaladas duas CPIs, Lula e seus aliados têm margem de manobra para evitar que a “ agenda negativa” dê o tom no Congresso Nacional.

Se não surgirem fatos novos gravíssimos, existe grande chance de que as CPIs caiam no limbo. Nem mesmo uma CPI exclusiva do Senado e de comando compartilhado garante, de per si, o aprofundamento das investigações. Se sua excelência, o fato não se impor, a maioria governista fará com que ela seja uma mera reprodução da CPI das Ongs. E as oposições o que é que fazem? Deixam de participar da CPI mista?

O governo, portanto, teve uma estratégia que vem obtendo êxito e a oposição operou de forma ziguezagueante.

Vamos a outro movimento. De forma espetaculosa, o governo lança no mercado o programa “ Território da Cidadania”, com o objetivo de turbinar o desempenho eleitoral do PT e seus aliados nos grotões do país. Se concretizado, os onze bilhões de reais a serem investidos terão um impacto profundo na disputa das eleições municipais. É mais uma sinuca de bico para as oposições. São obrigadas a entrar com um recurso no STF para evitar o seu efeito corrosivo na disputa política.

Mas isto serve de munição para que o governo pregue nos oposicionistas o carimbo de que são contra os programas sociais e que querem perpetuar a pobreza. Já vimos este filme antes, quando Lula conseguiu carimbar em Geraldo Alckmin e nos tucanos o selo de que eles eram contra o “Bolsa-Família”. É o tipo de embate político favorável ao lulopetismo.

A terceira peça do xadrez movimentada por Lula volta-se para a criação de uma “agenda positiva; a proposta de reforma tributária. Aqui pouco importa análise se ela será séria e consistente. Se aprovar um mínimo de reforma que leve à uma simplificação dos impostos, ele terá o trunfo de dizer que fez o que governo nenhum fez, desde a década de 60. Se ela não for aprovada neste ano, dirá que cumpriu com a sua parte e que a culpa foi do Congresso. Afinal de contas, este é um ano eleitoral e a vida legislativa irá no máximo até o fim de junho. Até lá, a reforma tributária servirá de cenoura na frente do burro.

E podem as oposições se recusarem a discutir a reforma tributária? Claro que não, pois esta sempre foi uma bandeira sua. O pepino é que não estava em seus cálculos que Lula encaminhasse uma proposta ainda neste ano.

Há, portanto, um núcleo estratégico no governo Lula que entende da arte de fazer política e que sabe movimentar seus exércitos. Muito provavelmente neste núcleo tem peso o ministro Franklin Martins, além do próprio Lula. Para as oposições vai outro ensinamento da arte da guerra: “ conheça o seu inimigo como a você mesmo”.



Escrito por pitacos às 10h48
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   Sucessão: não há cadeira cativa

É ledo engano pensar que pelo simples fato de liderar as pesquisas, José Serra será o candidato natural à presidência da República, seja pela lei da gravidade, da inércia ou do destino.

Em política não há cadeira cativa. É bom o governador de São Paulo observar os passos de Aécio Neves, que tem buscado equilibrar o jogo através de um duplo movimento. De um lado, faz política para fora (do PSDB). De outro mete uma cunha nas fileiras de seu próprio partido. Dissemina a idéia de que o futuro candidato deverá preencher dois requisitos: não ser paulista e ter a capacidade de aglutinar forças que hoje estão na base do lulopetismo. Leia-se o PMDB e, no limite, o PSB de Ciro Gomes.

Para se legitimar, Serra terá que dar demonstrações de que domina a arte de fazer política, o que não combina com o seu estilo trator. Seu contendor – Aécio Neves – já demonstrou que não está aí para brincadeira e que não se contentará com um prêmio de consolação, tipo ser candidato a vice-presidente. No limite, levará a disputa para uma prévia. Não é possível definir hoje que critério prevalecerá; se o diagnóstico das pesquisas ou se a capacidade de somar do candidato. Serra segue imbatível no primeiro critério. Aécio segue na cabeça no segundo critério.

Aparentemente, a estratégia de Aécio Neves é perfeita. Parte da constatação de que a próxima eleição presidencial se dará num quadro pós Lula. O centro da disputa política não será mais entre o PT e o PSDB. O lulopetismo tende a se atomizar após a eleição municipal. A expectativa do poder atrai mais do que o próprio poder, como gosta de afirmar o governador mineiro. Neste seu novo cálculo, seria possível formatar um novo bloco de alianças. Sua candidatura, pelo PSDB, seria o centro gravitacional, que teria o PMDB como aliado preferencial, não o DEM. É uma estratégia completamente diferente da de Serra, que aposta suas fichas na reprodução do alinhamento com o “Democratas”.

Aliados de Aécio, como Tasso Jereissati, sonham com uma chapa Aécio Neves e Ciro Gomes, idéia que o governador parece alimentar. Faria parte dessa estratégia a candidatura a prefeito de Belo Horizonte de Márcio Lacerda, do PSB, com o aval de Aécio e do petista Fernando Pimentel. Já o PMDB, por sua vez, sonha em atrair o governador mineiro para suas fileiras, de onde sairia candidato a Presidente. No limite, teria o apoio de Lula.

Há obstáculos expressivos, para dizer o mínimo. São remotas as possibilidades de os tucanos aceitarem uma composição com Ciro Gomes, tal o anátema que existe entre os dois. Para Serra, isto representaria, além da queda, um coice, praticamente fatal. Seria uma dupla derrota, inadmissível. O PT aceitaria passivamente que Lula apoiasse Aécio, em detrimento de um candidato da legenda? É difícil crer. Os peemedebistas aceitariam tal composição, se Aécio continuasse filiado ao PSDB?

A saída de Aécio para o PMDB certamente obrigaria o PSDB a lançar candidato.

Outro entrave é o fato de Aécio estar convicto de que existe grande possibilidade de o futuro presidente ser um tucano, mas também porque teria de renunciar ao governo de Minas, um ano antes da eleição. Seria uma operação de alto risco.

Se o governador mineiro sair vitorioso em uma prévia dos tucanos, é factível que logre sucesso em uma costura com o PMDB, que poderia muito bem indicar o candidato a vice-presidente.

Ao se colocar no jogo, Aécio Neves não tem nada a perder. Pode esticar a corda até seu limite. No mínimo seus movimentos levarão a que, se Serra for o escolhido, faça concessões e se componha com o governador mineiro. Neste caso, ele sairia candidato a senador, com muita força no futuro governo. Uma chapa Serra/Aécio está fora de cogitação, por dificultar as alianças com o “Democratas” e com outras legendas.

Resta conferir como José Serra reagirá para neutralizar as movimentações de Aécio. De início, ele tem a árdua tarefa de costurar a unidade dos tucanos paulistas. Se não souber administrar a candidatura de Geraldo Alckmin, estará contribuindo para que a candidatura de Aécio ponha um pé em São Paulo. O governador paulista está na difícil situação de colocar um olho no peixe e outro no gato. Não pode deixar na mão a candidatura de Gilberto Kassab para não contrariar o DEM. Mas também não pode tratar Alckmin a pão e água – como vem tratando – para não transformá-lo em um cabo eleitoral de Aécio Neves, com muita força se o ex-governador sair candidato e vencer as eleições municipais em São Paulo, contando com as próprias forças, hipótese que está na ordem do dia.

É bom Serra se movimentar e suar a camisa. Sua candidatura a presidente da República não virá de mão beijada, por mais confortável que seja sua situação nas pesquisas de intenção de voto, hoje.



Escrito por pitacos às 11h54
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   Fidelismo sem Fidel




Em Cuba prevaleceu o continuísmo, com a confirmação de Raul Castro para presidente e a escolha de um veterano da Sierra Maestra, José Ramon Ventura, de 76 anos, para vice-presidente.

O fidelismo continuará a dar as cartas. Não se vislumbram no horizonte mudanças substantivas na economia, muito menos no modelo político. Os dirigentes cubanos não explicitam – por não saberem ou por não estar definida a luta interna – o projeto de sociedade para o qual Cuba estaria marchando. Especula-se, ociosamente a nosso ver, ser o caminho chinês a alternativa – capitalismo globalizado com ditadura do partido único. Aliás, todas as ditaduras ditas de esquerda sonham com o caminho chinês, como se a reprodução deste modelo dependesse da vontade política, em detrimento da história e da formação econômica e social de cada país.

Por ora não houve a menor ruptura em Cuba. Trata-se de mais, do mesmo.

O fato inconteste é que a sombra de Fidel continua a agir nos bastidores. Nem mesmo a sua morte diminuirá a força do “fidelismo”, a não ser em alguns anos.

O núcleo central do regime, escolhido ontem, é formado por veteranos da revolução cubana, como Ricardo Alarcon, Abelardo Ibarra e Juan Almeida, este apenas um ano mais novo do que Fidel e que o acompanha desde o início da revolução. Não se trata aqui de uma questão geriátrica, quanto mais jovem, mais renovador e quanto mais idoso, mais aferrado ao conservadorismo. No caso dos chineses, por exemplo, a “revolução econômica” foi patrocinada por um veteraníssimo, até para os padrões da China: Deng Hao Ping, o pai das quatro modernizações. No caso de Cuba, o núcleo dirigente é inteiramente identificado com o modelo atual, exceto Carlos Lange, uma espécie de estranho no ninho.

Inexiste no Comitê Central do Partido Comunista de Cuba uma correlação de forças favorável à renovação, razão pela qual se adotou a política do deixa está para ver como é que fica.

Em seu discurso de posse, Raul Castro afirmou generalidades como a de “promover organizações do Estado mais compactas para tornar a administração mais eficiente” e falou da necessidade de se valorizar o peso nacional – a moeda voltada para os cubanos mortais, para corrigir distorções da moeda dupla. Mas não disse que Cuba abrirá mão desse apartheid monetário, que tem provocado graves distorções na economia cubana, para não falar na aberração social que ele representa. Da mesma maneira, não disse como será possível reajustar os preços dos produtos subsidiados (responsáveis pelo racionamento) e dos salários, que ele mesmo qualificou como “irracionais e injustificáveis”.

Raul Castro não pronunciou uma única linha sobre propostas de fundo ou mesmo cosméticas, no sentido da democratização do país. A não ser uma genérica colocação, sobre a democratização do Partido Comunista. Se alguém souber de que se trata, o espaço do blog está aberto para esclarecimentos e contribuições.

Esta é a encruzilhada cubana. É possível promover o crescimento econômico no atual modelo? Cuba pode abrir mão da existência de duas moedas – uma delas voltada para a atração do turismo? As duas respostas são negativas. Por mais que sejam adotados outros métodos de gestão, isto será insuficiente para alavancar a economia de Cuba e a Ilha continuará dependente do subsídio externo, assim como dependeu, no passado, da “ solidariedade” dos soviéticos. A manutenção do atual modelo implicará em uma maior dependência da Venezuela de Hugo Chávez, para que o regime possa prolongar a sua existência.

As mudanças cosméticas que foram anunciadas não tornarão Cuba atraente para investimentos externos substantivos - condição fundamental para alavancar a sua economia, dada à indigência da poupança interna. A inexistência de uma economia de mercado impede, por exemplo, investimentos massivos da União Européia, para não falar dos Estados Unidos que, por enquanto, mantêm o anacrônico bloqueio comercial. Ou seja, sem dar provas de que promoverá uma abertura econômica consistente, Cuba continuará isolada e apartada da economia mundial. No mundo globalizado de hoje, são praticamente nulas as possibilidades de sucesso de um desenvolvimento meramente autóctone.

Na análise de Pitacos não está condicionada a abertura econômica à abertura política. Elas não são, necessariamente, duas faces da mesma moeda. Cuba pode abrir-se ao capitalismo, como o fizeram China e Vietnã, e preservar a ditadura, em alguma medida. Afinal, o capitalismo continua sem “preconceitos ideológicos”. Onde quer que se abram horizontes para ele, lá estará. O exemplo mais significativo é o do Vietnã, que mantém relações muito mais do que simplesmente respeitosas com os Estados Unidos. Deve-se acrescentar que o capitalismo para se realizar não exige, necessariamente, democracia. Que o digam as “ditaduras capitalistas” mundo afora.

Voltando à ilha caribenha, mais tempo, menos tempo, os dirigentes cubanos terão que sair da encruzilhada e escolher um dos caminhos. Por enquanto, o fidelismo está prorrogado e ganha sobrevida.

Crise alguma é vencida sendo empurrada com a barriga. Mais cedo ou mais tarde ela volta, quase sempre com mais força.



Escrito por pitacos às 12h02
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